O ano é 1988. Nesta época, o SEPULTURA já era um nome muito forte dentro do cenário nacional, com 3 discos nas costas, vários shows em tudo que fosse canto possível, e finalmente, depois de uma longa aventura de Max (que voara até os EUA de forma clandestina para entregar cópias do disco anterior, “Schizophrenia”, a vários selos e zines), foram contratados pela Roadrunner Records, que iria investir e lançar o quarto disco do quarteto: o clássico “Beneath the Remains”, lançado em 5 de setembro de 1989.

Mas antes de adentrar o disco em si, vamos falar das histórias que este autor leu na época sobre a gravação.

Na época, a gravadora queria uma qualidade sonora melhor do que a banda apresentara nos discos anteriores (verdade seja dita: na época, discos com 16 canais apenas já eram considerados algo rude e primitivo em termos internacionais), e por isso, a Roadrunner contratou o engenheiro de som Scott Burns, que trabalhava no estúdio Morrisound, em Tampa, na Flórida (que acabaria virando a Meca do Death Metal em alguns anos) para vir e produzir o álbum. E interessante é saber que a banda estava tentando ter como produtor Jeff Waters, do ANNIHILATOR, mas a gravadora sugeriu Scott. E “Beneath the Remains” foi a primeira produção de Scott, que já havia trabalhado como engenheiro de som com DEATH, MORBID ANGEL e OBITUARY.

Como Scott sabia previamente da precariedade de recursos musicais no Brasil, bem como das dificuldades e preços elevados para comprar material de qualidade, trouxe vários encordoamentos de guitarra e baixo, além de peles de bateria. Só que o governo Sarney, através da alfândega, travou tudo, e para liberar, o dinheiro que ele trouxera para se alimentar e tudo mais foi investido nisso. A banda e Scott ficaram 3 dias comendo pão com queijo. E isso sem mencionar que as roupas de Scott foram roubadas no hotel, e que a banda só pôde gravar entre 8 da noite e 5-6 da manhã no estúdio Nas Nuvens (famoso por gravar artistas da MPB), e que Scott mandou retirar quadros de Caetano Veloso e Gilberto Gil do estúdio. O engenheiro ficou puto da vida e falou “Esses artistas são celebridades aqui no Brasil. Quem esse cara pensa que é?”

Acho que hoje, o engenheiro sabe quem ele é, ou no mínimo, quem é o SEPULTURA…

Em “Beneath the Remains”, o estilo sonoro da banda, aquela mistura insana e cheia de energia entre Thrash Metal com elementos de Death Metal e Hardcore finalmente atinge seu equilíbrio e o ápice de qualidade. E sem mencionar que o lado técnico havia evoluído bastante, pois se percebe o como Andreas e Igor estavam em forma, ao mesmo tempo em que Max (que havia feito algumas aulas de canto) mostra uma bela diversidade de timbres vocais.

E isso tudo calcado sob os alicerces da produção sonora sólida e bruta de Scott. Sim, ele deu uma sonoridade que a banda necessitava, algo que permitia que o lado Thrash da banda casasse perfeitamente com a violência sonora do Death Metal. O nível de crueza é insano, mas sempre com qualidade clara. Isso tudo graças ao trabalho de Scott na produção, mas também a Tom Morris, que fez a mixagem junto com Scott.

A arte é fundamental, chamada “Nightmare in Red”, feita por Michael Whelan. Mas como já se sabe, a arte era para ser a de outro trabalho de Michael, “Bloodcurdling Tales of Horror and the Macabre”, que acabou sendo usada pelo OBITUARY em “Cause of Death” e virou uma das lendárias polêmicas que se conhece no meio.

O investimento inicial em “Beneath the Remains” foi de U$ 8000, mas no final de tudo, chegou ao dobro. Mas valeu cada centavo, pois ele é considerado um dos discos mais essenciais do Thrash Metal de todos os tempos, sendo que a revista Terrorizer os coloca entre os “all-time top 20 Thrash Metal albums”, e também tem seu lugar entre os “all-time top 40 Death Metal records” da mesma publicação.

Não há como negar que “Beneath the Remains”, “Inner Self”, “Mass Hynosys”, “Slaves of Pain”, “Lobotomy” e “Primitive Future” fazem parte da coleção de hinos do Metal nacional em todos os tempos. É um Thrash Metal sujo, bruto e agressivo, esbanjando técnica sobre linhas melódicas simples, e assim, extremamente ganchudo. E nem é preciso falar que cada refrão é uma obra prima. E ainda há uns toques a mais de peso devido às participações de Kelly Shaefer do ATHEIST e John Tardy do OBITUARY nos backing vocals em “Stronger Than Hate”, junto com Scott Latour e Francis Howard.

As versões remasters do CD posteriores trazem um bônus bem legal, um cover do MUTANTES, “A Hora e a Vez do Cabelo Nascer”, que originalmente saiu em um tributo à banda chamado “Sanguinho Novo… Arnaldo Baptista Revisitado”. Óbvio que a esporreira da banda impera.

Ao mesmo tempo, “Beneath the Remains” é um dos discos mais importantes do Metal nacional, uma vez que ele alavanca o SEPULTURA e dá visibilidade à cena do país (embora existam declarações que a banda, na época, havia dito em uma revista ou zine que eles eram os únicos, que as outras bandas daqui seriam bandas de cover, ou algo do tipo).

Além disso, é “Beneath the Remains” que possibilitou a primeira tour da banda fora do Brasil em 1989, a “Beneath the World Tour part I”. Na Europa, foram “opening act” do SODOM, que estava estreando seu novo guitarrista (na época, Michael Hoffman, que vinha do ASSASSIN para substituir Frank “Blackfire” Gosdzik), e foi cheia de problemas e percalços (o clima entre as bandas era bem tenso por causa do empresário do SODOM, Max vomitando um Jack Daniels no tour bus, Max passando mal de úlcera e deixando os vocais para Andreas em alguns shows, a falta de banho dos rapazes devido à falta de dinheiro para tanto, o encontro com o pai e a irmã de Quorthon em um show na Suécia, bem como a quase não realização do show marcado em Londres, já que o SODOM não tinha seus discos lançados na Inglaterra, e a sobrevivência à base de venda de merchandising dão uma idéia do que eles passaram). Já a parte americana foi mais tranquila, pois a banda viajava de van, mas tinha direito a hotel, e uma ou duas datas extras onde foram ao México (se não me falha a memória, de forma ilegal), e tocaram uma música clássica, chamada “Your Mother Sucked My Dick” ou algo do tipo, com a letra parte em inglês, parte em português. E é justamente o sucesso de “Beneath the Remains” no exterior que levará Roberto Medina a chama-los para a segunda versão do Rock in Rio, realizada no Maracanã, em janeiro de 1991 (eles tocaram na quarta-feira, diz 23/01, pois na época, o festival era feito em uma semana corrida, começando em uma sexta e fechando no domingo da outra semana).

Nem tudo que está escrito em termos de história consta na biografia oficial de Max, mas vem de minhas memórias de matérias lidas nas edições da Rock Brigade da época.

Bons tempos…

Como hoje ainda são melhores tempos, pois permitam um desabafo deste autor: eu, que sou um Headbanger dos anos 80 DE FATO (estou nessa vida desde 1983, e nenhum colete de patches e bottons ou sua coleção de discos de vinil vão te fazer meu igual, por mais que uns idiotas tentem dizer o oposto, e o choro é LIVRE), não trocaria a atualidade pelos anos 80, pois caos econômico, inflação galopante e corrupção existiram ainda maiores naqueles tempos. Somente filhinhos de papai podiam comprar discos de bandas como BATHORY, HELLHAMMER e outros, pois eram importados e custavam os olhos da cara, e mesmo os nacionais não eram baratos.

Talvez a realidade caótica e selvagem dos anos 80 tenha feito de “Beneath the Remains” o que ele é: um clássico eterno.

Formação:

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Max Cavalera (guitarra base, vocal);
Andreas Kisser (guitarra solo);
Paulo Jr. (baixo);
Igor Cavalera (bateria).

Faixas:
01 – Beneath the Remains
02 – Inner Self
03 – Stronger than Hate
04 – Mass Hypnosis
05 – Sarcastic Existence
06 – Slaves of Pain
07 – Lobotomy
08 – Hungry
09 – Primitive Future

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