Quando se pensa em Europa, a Estônia não é um dos primeiros países que vêm à sua cabeça. Quando se pensa em Heavy Metal europeu, aí sim, é difícil imaginar algo do gênero vindo daquele país.

A Estônia é um dos três países chamados Bálticos (nome esse devido a proximidade com o mar Báltico), localizados no Nordeste europeu, vizinhos à Rússia – os outros dois são a Letônia e a Lituânia. É uma região com muita história. A Estônia, em particular, possui um legado histórico-cultural que data a partir de mais ou menos 10000 anos atrás, quando os primeiros ancestrais dos estonianos modernos, os pastores fínicos, lá chegaram, já falando uma língua similar a que é falada hoje naquelas bandas.

O Metsatöll (lobo, em estoniano) é uma banda de Folk Metal. Mas, se você ouvir bem a música deles, notará que na verdade se trata de um Thrash Metal com a adição de instrumentos típicos estonianos. No começo a banda se propôs a fazer um Heavy Metal de músicas épicas, talvez um Epic Doom Metal, mas já com influências do folclore local. Com a entrada de Lauri “Varulven” Õunapuu, as influências folclóricas afloraram de vez, pois este músico é capaz de tocar vários dos instrumentos típicos de sua terra. Um deles é o Torupill, o irmão estoniano da gaita escocesa. Todavia, o Torupill tem um timbre mais limpo. Além deste, ele também toca diversas flautas, cítaras e o “Jew’s Harp”, um pequeno instrumento percutido na boca.

A estreia se deu em 1999, com a demo Terast Mis Hangund Me Hinge, quando a banda ainda era um power trio. Com a entrada do já citado Varulven e do baixista Raivo “Kuriraivo” Piirsalu, a banda passou a ser um quarteto, complementada pelos membros fundadores, o guitarrista/vocalista Markus “Rabapagan” Teeäär e o baterista Silver “Factor” Ratassepp, que foi substituído em 2004 por Marko Atso. Com esta formação gravaram e lançaram o primeiro disco de estúdio, Hiiekoda (Floresta Sagrada), pela Nailboard Records. Um disco de músicas curtas e bastante eficientes. Uma gravação simples em termos de produção, mas que musicalmente já mostrava toda a técnica dos quatro membros. Faixas agressivas e com andamentos quebrados misturam-se em meio a interlúdios folclóricos. Rabapagan, ao contrário de vários cantores de Folk Metal europeus, canta com voz limpa, mas a potência de sua voz, aliada ao idioma estoniano das letras, lhe faz parecer mais um líder tribal conclamando seu povo para as batalhas.

Confira a faixa 7 deste álbum, Sõjahunt, com uma introdução à capela que descamba para um Thrash Metal bastante técnico. E conheça também o Torupill de Varulven!

Desde aqui se nota a importância das linhas de baixo de Kuriraivo. A mixagem deste disco e dos próximos deixa seu instrumento bem em destaque, aumentando mais ainda o clima épico das canções, mas que causa uma briga desagradável com as guitarras. A sua entrada junto com a do baterista Marko Atso expandiu as possibilidades de composição do Metsatöll, pois se trata de uma cozinha bastante técnica. Vide a banda de Progressive Death Metal Human Ground, que ambos fundaram em 2004. As composições do Metsatöll sempre primaram por andamentos quebrados conectados à agressividade do Thrash.

Em 2005 é lançado Terast Mis Hangund Me Hinge 10218, uma regravação da primeira demo, em qualidade bem superior. O acréscimo do número 10218 justifica-se por este ser o ano 2005, mas na contagem do tempo dos ancestrais estonianos. Em 2008 sai “Iivakivi” (Pedra Sagrada), ainda pela Nailboard Records. Este álbum não se mostra tão agressivo, pois a guitarra de Rabapagan foi praticamente engolida pelo baixo melodioso de Kuriraivo. Mas este disco não deve ser descartado por quem deseja conhecer a discografia da banda.

Varulven, KuriRaivio, Markus “Rabapagan” e Marko Atso

De Iivakivi, confira a faixa 4, Sõjasarv, onde Varulven usa o instrumento de cordas “Hiiu Kannel”, uma espécie de rabeca com timbre bem azedo e atordoante!

De gravadora nova, a mais estruturada Spinefarm Records, o Metsatöll lança em 2010 o álbum Äio. Aqui as guitarras estão em melhores condições de audição, trazendo de volta a devida agressividade que suas composições exigem, mas ainda há uma disputa com o baixo. Em 2011 sai Ulg (Uivo). Este álbum mantém o peso do anterior, mas a performance de Varulven é o grande destaque ao longo de todo o álbum. Além de seus inusitados instrumentos, sua voz ultra-grave cria harmonias excelentes e étnicas com a forte voz de Rabapagan. Há de se destacar também as artes usadas nas capas do álbuns. Belas pinturas tribais que chamam muito a atenção, remetendo aos dias antigos dos estonianos.

Do álbum Ulg, ouça e veja o clipe eletrizante de Küü (serpente), e se sinta lutando ao lado dos antigos estonianos!

Mas é em 2014 que os Folk/Thrasers da bela Estônia lançam seu melhor trabalho, Karjajuht. Com uma qualidade sonora acima da de seus anteriores, este play traz aos ouvidos um Thrash Metal vigoroso, muito bem equilibrado com as incursões folclóricas de Varulven e, se me perdoam os baixistas, com o baixo no seu devido lugar. Técnica, peso e clima épico enchem de riqueza as composições. Confira o clipe da faixa nº 1, Külmking.

O Metsatöll mantém até hoje a formação estabilizada em 2004, e, com muito merecimento, é um nome conhecido e respeitado em seu país, graças a muito trabalho e qualidade no que se propõem a fazer. Ganharam o respeito do povo estoniano ao resgatarem com perícia as histórias e as lendas de seus ancestrais.

Para encerrar, confira uma curiosa apresentação ao vivo do Metsatöll: em 2013 eles foram ao Afeganistão e tocaram para uma base militar que lá estava instalada. A música é Kivine Maa, do álbum Ulg. Aproveite e conheça o instrumento “Jew’s Harp”, com o qual Varulven conduz a música.