Os cariocas do Dorsal Atlântica já tinham status de lenda, bem antes desse histórico registro que iremos dissecar aqui. Um dos precursores absolutos do gênero no Brasil, em uma época onde só em pronunciar o termo Heavy-Metal, além do estranhamento inicial, suscitava tabus dos mais bizarros, como satanismo, vadiagem, uso de drogas pesadas, etc. Resumindo, o terror do moral e dos bons costumes da família brasileira, que ainda por cima estava ainda “gradualmente” se desligando de uma ditadura militar das mais repressoras. Era um ato de coragem o simples fato de deixar o cabelo crescer e “mandar ver” com sua camiseta preta de banda e calça rasgada, e discos pouco difundidos (capas muitas das vezes pensadas para chocar) embaixo do braço, perante família e amigos. Imaginem TER UMA BANDA?

Crédito fotográfico: Paulo Gouvea Vieira

Começaram os trabalhos em 81 e deram muita “dor de cabeça” a vizinhança com o barulho! Simplesmente era o prazer em tocar canções de seus principais ídolos como Sabbath, Kiss, Motorhead, entre outros… As primeiras letras em português vieram de versões desses clássicos em ensaios. A intenção era desde o início fazer Metal Nacional em sua plenitude, e isso passaria pelo idioma. Em 1984, com formação definida (além dos irmãos Lopes Carlos “Vândalo” e Cláudio “Cro-Magnum”, havia o baterista Marcos “Animal”), conseguem gravar “Ultimatum”! Um split-album (5 músicas de cada lado) dividido com a Metalmorphose (também do RJ). Lançado no primeiro dia do Rock In Rio, em 85, o EP teve uma tiragem inicial de 500 cópias. Foi um dos primeiros lançamentos do gênero no país, juntamente com o debut da banda paraense Stress, e também posteriormente o split dos mineiros Sepultura e Overdose. Aliás, o Sepultura afirmou publicamente ter sido formado após terem ido a um show da Dorsal Atlântica (em Lambari, interior de Minas Gerais). PIONEIRISMO é a palavra de ordem! Plagiando os ideais da sétima arte, era “uma ideia e instrumentos na mão”, conseguindo esses resultados na RAÇA e em condições precárias…

Aliás, o Metal no Brasil foi sendo construído através de muitos shows independentes (e a formação imediata de “points” do gênero), e uma cena foi solidificada através de ações como essa. O susto da Rede Globo com a cobertura do primeiro Rock in Rio em se deparar com TANTOS fanáticos pelo estilo (denominando a eles a alcunha “metaleiros”), acabou tendo o mesmo efeito para o restante do Brasil. O choque com TANTA GENTE portando aquela “indumentária”, cabelos compridos e a “bateção de cabeça” com um som pouco “entendível”, fez as hordas conservadoras se chocarem profundamente!

Através desse “boom” favorável instaurado (pelo menos houve visibilidade), o primeiro disco “Antes do Fim” (1986, para muitos o grande clássico) foi extremamente bem recebido em seu violento Thrash-Metal de fortíssima pegada Hardcore, basicamente se tornaria uma marca registrada da banda (já acrescidos do novo baterista Toninho “Hardcore”). Mas a evolução sonora com tanta experiência adquirida nos palcos e novas influências, descambou para “Dividir e Conquistar”, lançado em 88. Apesar da fúria mantida, o direcionamento era já mais conceitual, com músicas mais longas (vários clássicos dentro do repertório) e melhor trabalhadas. O fato de ter selado a parceria com o selo carioca Heavy, fez com que a banda tivesse mais tempo para trabalhar no estúdio, e a “fervilhação” na cabeça de Carlos (o principal compositor) se intensificava com mais profundidade. Apenas fazer o povo “agitar” não lhe interessava, as mensagens seriam para conscientização a partir de então…

Crédito fotográfico: Paulo Gouvea Vieira

Em 89, o Sepultura ganhava notoriedade mundial com “Beneath de Remains”, e o sinal de alerta foi ligado! Com o mundo inteiro alardeando o Brasil na cena Thrash-Metal, todas as bandas projetaram cantar em inglês e visar o mercado externo em busca de reconhecimento similar. E apesar de todo esse ensejo coletivo, o projeto conceitual do terceiro disco da Dorsal Atlântica, a primeira “ópera-thrash” que se tinha notícia, “Searching for the Light”, teve motivação particular, como descreve Carlos Lopes: “Todo projeto nasce de uma imensa necessidade de me superar como artista, o que costumeiramente cria(va) problemas para a banda. O projeto original consistia em lançar uma ópera em uma caixa com 3 LPs ao invés de apenas um álbum. A trilogia, planejada para ser desenvolvida de cinco a seis anos, consistiria de álbuns com temática voltada à busca do ser humano por “Iluminação”. Por questões econômicas repartiu-se a grande ópera em 3 álbuns: “Searching for the Light”; “Musical Guide from Stellium” e “Alea Jacta Est – a ópera do Cristo negro”. Quando imaginei o Searching, pensei em uma nova forma de tocar metal, como se o trio fosse uma pequena orquestra clássica executando rock pesado, mas fugindo de todos os clichês. Liricamente, concluí que não deveria escrever letras da maneira tradicional, mas sim contando uma história, como se estivéssemos musicando um livro, tanto que não houve preocupação com rimas, apenas com o conteúdo. O álbum foi composto para ser cantado exclusivamente em inglês.”

E assim, em meados de 1990, adentramos a nova década com um trabalho magistral, muitoooooo a frente do seu tempo. A sonoridade era densa e coesa, amplamente compatível com o conceito abordado nas letras (pela primeira vez em inglês), que abordam o cotidiano de um lugar futurístico, repleto de injustiça e desigualdade social, dominado por uma elite inescrupulosa, alicerçada por traficantes, bicheiros e criminosos do “colarinho branco”. Pois é, 30 anos depois, só temos que lamentar por termos mais uma referência ao Brasil que continua absurdamente atual. Sonoramente, apesar da vibe hipnótica que realça o poderio poético, concilia toda a técnica do “Dividir e Conquistar” com a agressividade e crueza do “Antes do Fim”. Mas realmente não parecia com nada que já tínhamos ouvido no gênero…

Sobre o processo de gravação e a posterior divulgação, Carlos pontua: “A história da gravação daria um livro. Naquele momento ainda não tínhamos produtor e quem fazia esse “serviço” eram os técnicos de gravação. Gravamos em uma fazenda no interior do Estado do Rio de Janeiro que pertencia a um dos filhos da Lili Marinho, esposa do dono da Globo, que inclusive apareceu na gravação, ele mesmo, acredite se quiser. Quem também gravou no mesmo estúdio e na mesma época foram os Cascavelletes, do saudoso Júpiter Maçã. A gravadora, a carioca Heavy, que financiou a gravação, fez tudo o que podia dentro de suas limitações. E mesmo assim, com um selo de suporte, eu continuava a trabalhar na divulgação, contatando os jornalistas na grande imprensa, como nos jornais O Globo e Jornal do Brasil onde tivemos muita exposição, inclusive foi por causa desses veículos que começaram a nos levar mais a sério.”

A estreia do “Searching” nos palcos foi em um show arrebatador com o Ratos de Porão no Circo Voador. E a grande expectativa criada pelo público headbanger, foi que com toda a evolução alcançada, o grupo estaria mais do que pronto para o mercado internacional, já que também não havia mais a dita “barreira da língua”. O ensejo parecia se tornado real com a parceria do selo americano Wild Rags. Mas infelizmente as coisas não ocorreram como deveriam… “O selo estadunidense Wild Rags interessado em lançar o LP juntamente com uma história em quadrinhos em inglês. Era uma época tão inocente que eu havia enviado os originais dos quadrinhos pelo correio e a gravadora nos devolveu o material (também pelo correio) quando desistiu de editá-lo. De bom, esse foi o nosso primeiro LP lançado internacionalmente, mas os tais shows no
exterior prometidos pela Wild Rags jamais ocorreram, e a história em quadrinhos nunca foi lançada. Através de zines estrangeiros, ficamos sabendo que o dono do selo, não repassava os royalties das vendagens para seus artistas. Uma das bandas mais indignadas, bancou anúncios em diversas publicações, que denunciavam o selo como um “rip-off”, vulgo 171″, desabafa Carlão sobre essa decepção, que se estende a todos nós.

Ficou nítido que faltou ao disco amparo consistente para que houvesse a logística merecida em sua divulgação, e não o fizesse entrar para a história apenas com ares “cult”. O entendimento pelo público acabou sendo bastante prejudicado também porque o encarte era acrescido das letras com suas respectivas traduções (e ainda explicações sobre o conceito), e infelizmente muitas “bolachas” acabaram chegando as lojas sem esse item essencial. Acabaram sendo publicadas em português na revista Rock Brigade, o que foi ótimo para promover o ideal do disco para milhares de leitores. É sempre bom lembrar que ainda era um mundo sem internet, não havia Google Translate, né?

Página dos quadrinhos referentes ao conceito de “Searching for the Light”

A belíssima capa foi outro show a parte, e também merece ser contada com detalhes aqui: “A capa original do “Searching” seria uma foto de ovelhas desgarradas seguindo outras mais perdidas ainda, uma ideia inspirada no filme “Anjo Exterminador” do diretor espanhol Luís Buñuel. As ovelhinhas foram preteridas em função de uma imagem mais contundente: a foto de um ator dentro de um tubo de metal, que nos pareceu, ao ser revelada, como a idealização de um útero ou de alguém que buscasse a luz. O fotógrafo André Barcinski não gostou da foto que escolhemos para a capa oficial. Ele preferia uma sequência feita com o personagem correndo entre trilhos de trem. A capa, como a conhecemos hoje, simbolizou muito bem o conceito do trabalho, exatamente como a do “Antes do Fim”, havia feito o seu papel antes. Na época, o mesmo André resolveu ser mezzo-empresário e divulgador informal da DORSAL durante o lançamento e promoção do “Searching” e ele nos ajudou bastante.”

Aliás, agradecer encarecidamente ao Carlos Lopes pela entrevista concedida para esse especial pela Roadie Metal, com relatos tão enriquecedores sobre essa obra! Vamos então ao panorama musical do disco??? Uma introdução super trabalhada (baixo de Cláudio se destaca) precedendo um riff irresistível antes de começar o “esporro”. Os trabalhos começam de forma maravilhosa, essa é a única faixa do disco com refrão. E QUE REFRÃO! Impossível não gritar junto já na primeira audição o título: “Hierarchic Democracy” sai das entranhas, e funcionava ferozmente ao vivo não era a toa, já que é uma das melhores faixas da banda! A voz de Carlos está mais empostada e menos berrada, realmente existe uma preocupação em “mastigar” as letras para o maior entendimento do ouvinte.

Outra introdução com um belo e ganchudo riff introduz “Fighting in the Gangs”, onde a levada é bem cadenciada e tensa, com uma quebrada de ritmo irresistível. Outra grande faixa, com um belo trabalho de bateria de “Rabicó Hardcore“! “Misery Spreads” começa a história de Ian, que vive em um lugar (descrito nas canções anteriores) similar ao nosso país, só que bastante estilizado (tendo inclusive uma espécie de Carnaval mais bizarro). Outra simbiose de Metal e Hardcore de primeiríssima, com mudanças abruptas de convenção e solos muito bem elaborados. Carlos destruindo nas guitarras! Realmente um início avassalador. Em “Not to leave the power”, o “bicho continua pegando”, os riffs são de ataque e Ian começa o questionamento em buscar conhecimento sobre o que existe do outro lado do muro que divide a sua moradia do desconhecido. Fim do lado A!

Já com a adição do novo integrante, o baterista GUGA

E começamos “hardcorizando” a segunda metade em “Only one of them (Must be left) + Gathered prisioners”, é onde a agressividade se faz mais presente na sonoridade do disco. Mas nos deparamos com uma quebra de ritmo surpreendente, onde os três destilam toda a técnica aprimorada em quase 10 anos de estrada. Todo esse “caos” descreve a fuga do nosso herói através de um trem (lembram da ideia para a capa?), uma espécie de esporte transmitido pela TV. Me remeteu ao filme “The Running Man”, protagonizado por Arnold Schwarzenegger. Até o protagonista se deparar com lugares onde jamais imaginou que existisse. A confusão de Ian continua em “Childish boots and steps”, quando os habitantes do estranho lugar começam a narrar fatos, onde a veracidade é rapidamente absorvida por sua mente bombardeada de novas informações em tom de denúncia. Mais uma pauleira, onde os vocais de Carlos expressam absurdamente a confusão de toda a narrativa.

Um dos melhores riffs da história do Metal “brazuka” até então, desponta em “The ones left screaming”. Realmente a descrição da saga de Ian até ele atravessar o “muro moral” é incrível! O solo de Carlão é um primor, antecedendo uma passagem bem doom, arrastada, envolvente até a frase final que determinará o fim abrupto desse primor de canção! A saga operística se encerra em “History starts (To take a route)”, a faixa mais longa (onde soa bem “experimental”, podemos assim dizer) do petardo, onde ocorre o triste desfecho do mártir Ian, e a vitória da oposição (em uma eleição iniciada nas faixas anteriores) nesse lugar onde ocorrem situações escabrosas, como turistas assassinos que matam os moradores… Uma epopeia de injustiça social! Termina com um fraseado acústico, denotando a tristeza da conclusão.

Trinta anos se passaram, e essa grande obra de arte não merece apenas ser comemorada, mas rememorada e amplamente divulgada. Percebo os entusiastas do gênero “babarem ovo” de trabalhos de bandas gringas que não chegam nem aos pés do que descrevemos aqui. Principalmente pelas condições no qual ele foi concebido! A própria Dorsal Atlântica apesar de todo o prestígio, não conseguiu avançar como merecia dentro do mercado, e após abrirem (e serem tratados de forma desrespeitosa pela produção) uma edição do Festival Monsters of Rock, encerraram atividades ao final do século que nos dava adeus. Aliás, achei no mínimo curioso ter surgido um rótulo posteriormente no novo milênio (METALCORE), onde no meu entendimento, o Dorsal merecia essa alcunha para si, já que as bandas em questão que o “adotaram” passam longe dessa verdadeira simbiose entre os dois gêneros.

O retorno se deu em 2012, quando começou o advento do financiamento coletivo (o dito crowdfunding). Três discos arrebatadores (IMPERDÍVEIS!) foram lançados em sequência nesse processo ( “2012”, “Imperium” e “Canudos”), mas não voltaram a fazer shows, se tornaram oficialmente uma banda de estúdio. A motivação se dá apenas no terreno da criação, com a mente incansável de Carlos Lopes não se cansando em denunciar as mazelas do país, suas opressões e a surreal desigualdade social, que provoca dor e sofrimento a maior parte da população. No momento, a banda está em campanha para a realização do projeto “Pandemia”, que como o nome descreve, será mais um marco na história da Dorsal Atlântica.

É inevitável não se fazer um parâmetro de “Searching for the Light” com o conceito abordado atualmente: “O Brasil é uma eterna fonte de inspiração, seja para o bem como para o mal. Não é o pior país do mundo e nem o melhor, mas é o nosso. E nascido aqui tem que pagar o karma. As letras de “Pandemia” analisam a conjuntura nacional através de uma distopia inspirada em “Revolução dos Bichos” e “1984” do escritor George Orwell. Em Brazilândia, uma sociedade dividida entre os reis equinos, o povo canino e os símios militares, um jumento é eleito como Primeiro Ministro através de um golpe. O eleito infecta a população com o vírus da ignorância e seus fanáticos seguidores destroem terreiros de Candomblé e incendeiam laboratórios, faculdades e livrarias em nome do Deus Sumé.” Para saber mais sobre o projeto “Pandemia” (a campanha está em andamento!) e tudo sobre a lenda Dorsal Atlântica, links abaixo. E ouvir na íntegra “Searching for the Light” também!

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