Ela pode até ser construída sob uma base suja, mas o que acontece é que, quanto mais evolui em sua estrutura, mais a composição denuncia a sua postura emocional introspectiva. Agraciada por abundantes brisas melancólicas, The Windshield, ainda que regida por guitarras distorcidas que criam uma base ligeiramente ácida, consegue soar macia e, curiosamente, aconchegante, mesmo com sua feição entristecida. Inclusive, no instante em que Gil Rodriguez entra com seu timbre rouco semelhante àquele de Lemmy Kilmister, a faixa se percebe abraçada por uma dose generosamente extra do soturno.
Seguindo um caminho semelhante, mas não idêntico àquele traçado pela obra anterior, Flick Of The Wrist foca na construção de ambiências mais melódicas no que tange à significância léxica da palavra. Conseguindo alcançar a delicadeza e o melancólico a partir da performance suave da guitarra de Zach Sealover, a faixa adquire uma postura suspirante que induz o ouvinte a entender a existência do suspiro como método de alívio. Explorando o nostálgico sob uma lente triste, a faixa se vale de uma linearidade estético-estrutural que, curiosamente, não interfere na noção de movimento adquirida pelo espectador.
Não é necessariamente um blast beat, mas a forma como Sean Harris golpeia a superfície da caixa de forma sequencial, dá a ideia de uma técnica semelhante. Por meio dela, a canção mergulha em umj instante de crueza e intensidade ocasionado pela presença de uma guitarra distorcida um tanto bruta e crua. Surpreendentemente, porém, a canção ganha uma guinada de vivacidade com a presença eufórica de instrumentos de sopro abrilhantando o seu ambiente harmônico-melódico. Diante disso, é possível de se observar certo flerte com um ska punk semelhante àquele executado pelo The Mighty Mighty Bosstones, até porque, até mesmo o baixo de Ryan King é percebido de forma clara e latente em meio ao seu groove grave e levemente estridente. É assim que a faixa-título sugere a mensagem de resiliência e determinação associada a um senso profundo de gratidão.

Still Here é um álbum que, apesar de ser pautado em uma temática punkeada, crua, bruta, áspera, elétrica e estridente, tem momentos de intensa melancolia, tristeza e ímpetos nostálgicos que transformam toda a experiência sônico-sensorial alcançada pelo espectador. Esse detalhe, inclusive, destaca a natureza profundamente emocional do material.
Com suas nove faixas, ele combina guitarra elétrica, bateria pulsante, baixo estridente e uma conjuntura de sonoridades extras que engrandecem a sua aparência. Mesmo soando linear e harmonicamente minimalista, o disco tem seus momentos de pico, como acontece durante a experimentação ska na faixa-título. Não é de se surpreender, portanto, que as suas três primeiras faixas carreguem, de forma mais clara, toda a sua alma.
Ainda assim, para torná-la mais firme e consistente, Still Here conta com outros importantes títulos. Westerberg, também com uma animada camada de metais contribuindo para uma vivacidade sensualizada; e a dramática Love Kills, que conta ainda com o sobrevoo lamentador do violino de Sam Camacho, evidenciam que o álbum é, definitivamente, o produto emocionalmente mais profundo feito pelo Ghost In The Willow até o momento.
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