Setembro começou e trouxe com ele o maior festival do planeta. Em seu primeiro dia de edição, o Rock in Rio veio pesado com uma mistura de nomes em ascensão e os já consagrados, um dia que mantém o saudosismo do velho, ao mesmo tempo em que abraça o novo. Apesar de carregar uma identidade como uma coisa só, o metal tem uma vasta gama de nuances que essa edição de 2022 soube explorar muito bem.

Independente do subgênero, o rock reinou absoluto em todos os palcos. Um dia para roqueiro nenhum botar defeito. Quem chegou cedo pode aproveitar para transitar entre os palcos sem grandes problemas. O sol estava a pino, mas nada do calor exagerado.

Black Pantera Convida Devotos

Fotografia: Angela Missawa.

A escolha pelo Black Pantera abrindo o dia do metal no palco Sunset foi muito certeira e é de uma magnitude imensa, não apenas para eles, mas para a toda a cena. Com show marcado para as 14h55, o trio que cada vez mais está em ascensão chegou com muito fogo e energia. Eles abraçaram com tudo e entregaram um show com muita garra. A escolha certeira mostra aquela essência de trazer o novo, fugindo da linha do tradicional, do batido e claro, fica mais do que expressivo nem só do tradicional vive o festival, e sim que está antenado no que tem de novo por aí. E ninguém melhor do que eles para mostrar o frescor do metal com as novas produções.

A gente abriu o festival com o poema de uma mulher preta, fizemos homenagem a Elza Soares, tocamos com os Devotos que é uma banda preta que está há mais de 30 anos na correria. É muita representatividade, estamos representando muita gente e a gente sabe quem são as pessoas que a gente está representando aqui hoje. Isso é muito importante.”, contou o baterista Rodrigo.

A dobradinha com o Devotos que subiu ao palco lá pelas 15h20 conseguiu trazer ainda mais peso e o primeiro show foi aquela pancadaria nervosa, tanto no palco quanto no público. Mas com respeito, claro. Inclusive, o vocalista puxou uma roda apenas de minas, para que as mulheres também pudessem curtir uma quebradeira a vontade.

Fotografia: Angela Missawa.

Set list: “Padrão é o Caralho”, “Mosha”, “Godzila”, “Taca o foda-se”, “Fogo nos Racistas”, “Execução na Av. 38”, “De Andada”, “Eu Tenho Pressa”, “Abre a Roda e Senta o Pé”, “Fé Demais”, “A Carne”, “Punk Rock Hardcore”, “Boto pra Fuder”.

As camisetas do Iron Maiden para todo lugar que se olhasse, de vários tipos, tamanhos e cores, denunciavam que o headliner trouxe seu público em peso. Esse é um feito incrível, já que eles fizeram uma turnê extensa pelas capitais e outras cidades. Mas, vamos falar deles mais pra frente.

E enquanto a pancadaria comia solta ali no palco Sunset, mais rock estava rolando em outros palcos do Festival. JP Bonfá abriu o Highway Stage as 15hs, que entregou shows mais curtos de meia hora, e foi seguido por Betta e Pedro Mahal + Buraco Blues.

Rock District trouxe uma sequência muito interessante. Sioux 66 ficou responsável pela abertura do palco, as 15hs, comemorando seus 10 anos de banda e a segunda participação no Rock in Rio. Um feito e tanto para eles que, mesmo jovem, já estão galgando seu lugar ao sol.

Terra Celta abriu o palco Rock Street Mediterrâneo com seu folk rock, as 15h15. Aliás, junto com Wallace Oliveira e Mariel & Crème de la Crème vão participar de todos os dias do festival.

Se já era difícil escolher por qual palco passar, a partir das 16hs a coisa ficou ainda mais difícil com a abertura dos palcos Supernova e Espaço Favela.

Metal Allegiance

Na sequência do Black Pantera Convida Devotos, Metal Allegiance tomou conta do palco Sunset. A superbanda formada pelo baterista Mike Portnoy (Dream Theater), Alex Skolnick (Testament), Mark Menghi (Machine Head) e Phil Demmel (Machine Head) e John Bush (Armored Saint). Quem também subiu no palco foi o Chuck Billy com todo o seu carisma em mais uma participação mais que especial. Foi um show muito especial por conta do calibre de seus integrantes e a possibilidade de ver tanta gente tão qualificada (pra não dizer foda!) em um palco só. Esse é o grande trunfo do Metal Allegiance, ainda que boa parte dos fãs não esteja tão familiarizado com as músicas.

Setlist: “The Accuser”, “Bound By Silence”, “Can’t Kill the Devil”, “Gift of Pain”, “Dying Song”, “Room for One More”, “Only”, “Into the Pit”, “Alone in the Dark”, “Pledge of Allegiance”.

Crypta

Fotografia: Angela Missawa.

A cada hora que passava mais pessoas chegavam na Cidade do Rock e nesse ponto já era difícil transitar pelos palcos. A briga foi boa e o metaleiro raiz não perdeu em nenhuma possibilidade de escolha. Caso ele não se empolgasse com Metal Allegiance, ele podia muito ir para o Palco Supernova que estava rolando ninguém mais ninguém menos que a Crypta.

Com o espaço lotado de pessoas penduradas na grade suando litros, a nova banda de Fernanda Lira e Luana Dametto quebrou tudo na abertura do Supernova. Elas estão em turnê do primeiro álbum “Echoes of my soul”, lançado em 2021, fazendo muito barulho por onde passam, inclusive tocando em outros festivais grandes como o Vagos Metal Fest e o Wacken. E no Rock in Rio não foi diferente, apesar de curtinho, elas mostraram porque estão onde estão e angariando uma legião de fãs por onde passam.

Fotografia: Angela Missawa.

Setlist: “Kali”, “Dark Night of the Soul”, “Under the Black Wings”, “Starvation”, “Shadow Within”, “From the Ashes”.

O Espaço Favela também começou os trabalhos às 16h30, dificultando ainda mais a vida do metaleiro. Revengin trouxe o metal sinfônico para o Rock in Rio. Nesse mesmo horário, o Eminence assumiu o palco do Rock District.

Sepultura + Orquestra Brasileira

Fotografia: Angela Missawa.

Pouco menos de uma hora depois foi a vez do palco Mundo abrir sua programação. Enquanto a noite começava a cair e o céu ganhava ares alaranjados em meio as montanhas que faziam a moldura do palco, Sepultura abriu o palco Mundo do dia do Metal com ninguém mais ninguém menos que a Orquestra Sinfônica Brasileira. Eles abriram com Stravinsky e na sequência “Roots Bloody Roots” que levou todo mundo pra lá num piscar de olhos.

Esse sentimento de estar aqui com vocês de novo é indescritível, muito obrigado, valeu! Principalmente com esse show espetacular e único com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Fuck You”, disse Andreas que foi ovacionado pelo público.

Fotografia: Angela Missawa.

Apesar do começo com uma porradaria de leve, o set foi inspirado em fortalecer a música brasileira, algo que sempre esteve nas raízes da própria banda que sempre gosta de inovar quando possível. Portanto “Kaiowas” foi uma escolha certeira e que combinou lindamente com a proposta da Orquestra. Assim como, “Agony of Defeat” e “Guardians of Earth”, do último lançamento, ganharam um plus na parceria da apresentação.

Fotografia: Angela Missawa.

Setlist: “Rite of Spring: Part 1, Adoration of the Earth: Introduction”, “The Rite of Spring – Adoration of the Earth – The Augurs of Spring / Dances of the Young Girls”, “Roots Bloody Roots”, “Kairos”, “Machine Messiah”, “Ludwig Van”, “Kaiowas”, “Valtio”, “Agony of Defeat”, “Refuse/Resist”, “The Four Seasons – Winter in F Minor, RV. 297: II. Largo”, “Guardians of Earth”.

No palco Supernova, Surra trouxe seu thrash/punk nacional, as 17h30. E as 17h55, Affront quebrou tudo com um thrash metal de qualidade. Noturnall chegou com tudo às 18h30 no Rock District. Ou seja, independente para qual lado se andava ali no festival, só tinha coisa boa. Mas não se engane, era humanamente impossível conciliar todo mundo. Uma porque além de quase no mesmo horário, os palcos eram realmente longe um do outro. Ponto positivo era que um som não influenciava no outro. Ponto negativo foi que não deu para acompanhar tudo, uma lástima em meio a tanta banda boa tocando ao mesmo tempo.

Living Colour + Steve Vai

Fotografia: Angela Missawa.

Living Colour trouxe um respiro para o palco Sunset trazendo sua mistura de jazz, hard rock e heavy metal funkeado. Eram 18h25 e muita água para rolar ainda nos palcos do Rock in Rio desse fatídico 2 de setembro. A primeira parte do set ficou bem definido com duas faixas de seus principais álbuns, agradando os fãs da banda. Mas não se engane, quem não conhecia o grupo embarcou e curtiu junto. Como não curtir ao som da guitarra de Vernon Reid? Qualquer roqueiro que se preze parou para admirar. Se não parou, deveria.

Falando em guitarra, Living Colour trouxe uma participação igualmente de peso. Steve Vai chegou com Rock and Roll num cover sensacional de Led Zeppelin, que animou 99% do público. Logo em seguida, veio a homenagem a outro guitarrista de peso e as cordas tilintaram ao som de Crosstown Traffic eternizado pelo mestre Jimi Hendrix. Claro que não poderia faltar jamais o clássico Cult of Personality. E se a leveza ficou por conta da música, a banda não deixou de trazer seu discurso político como sempre fez, trouxe cartazes escritos a mão em bom português com as palavras: vote e democracia.

Fotografia: Angela Missawa.

Setlist: “Middle Man”, “Desperate People”, “Ignorance Is Bliss”, “Wall”, “This Little Pig”, “Type”, “Time’s Up”, “Rock and Roll”, “This Is the Life”, “Crosstown Traffic”, “Cult of Personality”.

Enquanto isso, duas bandas de peso dividiam o público. Quer dizer, dividir não seria a palavra já que cada uma delas tem um estilo diferente e um público próprio. As 18h30 Noturnall se apresentava no Rock District e Matanza Ritual subia no palco Supernova.

Gojira

Fotografia: Angela Missawa.

Ainda que tenha sido a segunda opção, a escolha por Gojira no Rock in Rio foi mais tiro certeiro. Essa não foi a primeira vez da banda no festival, eles estiveram por aqui em 2015, então já vieram mais que preparados. Mas as 19h25 o telão do palco Mundo começou a contagem com 178, fazendo com que o público se dirigisse para lá. “Muito obrigado por nos receber esta noite. Nós somos Gojira.”, disse Joe Duplantier.

O set montando pela banda favoreceu mais o último lançamento abrindo já com a primeira faixa do Fortitude, mas até por ser um show curto, e um set de festival, sucessos de “Magma” e “From Mars to Sirius” entraram com menos intensidade e, claro, “L’Enfant sauvage”, que completou dez anos em junho deste ano.

Fotografia: Angela Missawa.

É um mundo complicado o que estamos vivendo. As vezes desejamos que pudessemos pular para o futuro com uma consciência mais evoluída crescendo ao redor do planeta. E nós temos essa fantasia doida de construir um foguete para sair lá fora no espaço para encontrar um novo planeta, um novo mundo, um lugar melhor para estar, mas não encontramos um, até agora só temos esse Planeta Terra. E cabe a nós transformá-lo num lugar melhor. Essa música se chama ‘Another World’”, contou Joe mantendo a essência de conscientização que ele tem e traz muito forte nas letras do Gojira.

Para finalizar, “Amazonia”, trouxe um groove metal e uma pegada de instrumentos indígenas, com a sonoridade inspirada no Sepultura, que tocaram antes deles no mesmo palco.

Fotografia: Angela Missawa.

Setlist: “Born for One Thing”, “Backbone”, “Stranded”, “Flying Whales”, “The Cell”, “Grind”, “Silvera”, “Another World”, “L’enfant sauvage”, “The Chant”, “Amazonia”.

Aliás, se formos pensar na programação do palco Mundo isolada, ela seguiu uma linha conceitual, com Sepultura e a orquestra, depois Gojira e seu metal introspectivo e conscientizado, e faria mais sentido ter o Dream Theater na sequência.

Enquanto o Sunset trouxe bandas com energia em alta, começando pelo Black Pantera, seguindo com Metal Allegiance, Living Colour que manteve a energia, mas acrescentou uma vibe mais dançante e finalizando com Bullet For My Valentine que jogou a energia lá no alto e empolgou o público.

Já Iron Maiden como headliner distoou dessa organização de lineup e realmente combinaria muito mais com o Megadeth, ou alguma outra banda clássica que mesclasse na medida energia (Sunset) e emoção (Mundo). Não que Iron Maiden precise combinar com nada, afinal, a quantidade imensa de camisetas da banda já ditava o tom do festival.

Voltando a programação.

Quem fechou o palco Supernova, inclusive um dos mais pesados da edição, foi Ratos de Porão com show começando as 19h30. Oitão tocou no palco Rock District as 20hs enquanto Gangrena Gasosa levava seu Saravá Metal para o Espaço Favela. Aqui a coisa foi injusta mesmo, já que Ratos de Porão merecia um palco maior e um horário mais “favorável” por tudo que construiu na história musical brasileira. É até compreensível a opção de inclui-los no Supernova por conta do estilo porradaria que esse palco teve, mas que mereciam, isso com certeza.

Bullet For My Valentine

No palco Sunset, a última atração começou as 20h30. Bullet For My Valentine pegou o público que ainda estava anotando a placa do caminhão (Gojira!) que tinha atropelado todo mundo ali e elevou a energia ali. Claro, que são estilos muito diferentes e teve gente que optou por ficar lá no Palco Mundo aguardando os headliners.

Mas, quem fez isso perdeu um show e tanto. Emocionados pela primeira vez no festival, Bullet protagonizou um grande show. Optaram por um set confortável com as clássicas e o público respondeu cantando, gritando e pulando junto, aquele termômetro que mostra que a escolha foi certeira.

Setlist: “Your Betrayal”, “Waking the Demon”, “Piece of Me”, “Knives”, “4 Words (To Choke Upon)”, “The Last Fight”, “All These Things I Hate (Revolve Around Me)”, “Shatter”, “Tears Don’t Fall”, “Scream Aim Fire”.

Iron Maiden

Iron Maiden subiu no palco para fazer o que faz de melhor. Há quem diga que foi o melhor show da turnê e apesar de acusações do som estar baixo, quem estava perto dos stands que ficam embaixo da área vip pode ouvir sem problemas os acordes de “Senjutsu”.

Verdade seja dita, deve ser difícil montar o set list de uma banda como Iron Maiden. Claro que cada fã tem sua preferida que gostaria de ver ao vivo. Mas e para quem está vendo pela primeira vez? Como deixar de fora os clássicos tão aguardados?

Diante disso, é uma escolha até que confortável começar com o trabalho novo. Quem não estava ali tem tempo de chegar mais perto para ouvir “a preferida” e quem já estava pode ir se aquecendo.

O headliners entregaram um show excelente. Bruce sempre simpático e é louvável o esforço que eles fazem para não decepcionar os fãs conquistados a base de todo o trabalho ao longo dos anos. Um grupo de fãs que acompanhou a turnê deles por aqui bradou a quatro ventos que o do Rock in Rio foi a melhor apresentação de todas.

Sim, eles seguem a linha de shows coreografados assim como quase todas as bandas clássicas. E isso é bom, porque passa uma sensação de que todo show é importante e que os fãs sim importam. E é essa entrega que o Iron Maiden faz no palco e mostra porque eles fizeram a própria história do metal.

Setlist: “Senjutsu”, “Stratego”, “The Writing on the Wall”, “Revelations”, “Blood Brothers”, “Sign of the Cross”, “Flight of Icarus”, “Fear of the Dark”, “Hallowed Be Thy Name”, “The Number of the Beast”, “Iron Maiden”, “The Trooper”, “The Clansman”, “Run to the Hills”, “Aces High”.

Dream Theater

Fotografia: Angela Missawa.

Passava a meia-noite e Dream Theater subiu no Palco Mundo. Aliás, um telão com imagens bucólicas e psicodélicas ao som de “Pink Soldiers”, de Jung Jae-Il, indicava a abertura da Top of The World Tour. Isso chegou com um atraso de meia hora e o público se dividia entre os que estavam no gargalo e os que estavam sentados na grama aguardando. Foi um longo dia para o metaleiro no Rock in Rio, especialmente aqueles que tiveram que literalmente correr os 385 mil metros quadrados para curtir ao máximo a programação.

Outra coisa, DT, como é carinhosamente chamado, é do tipo de banda que pode sim ser ouvida com os olhos fechados, afinal o que vale ali é a qualidade sonora e alta técnica dos músicos. Fato curioso que o público feminino estava em peso em frente ao palco, curioso e raro no meio do metal, tão dominado por homens.

Tirando os sorrisos largos que James LaBrie e John Petrucci lançam ao público durante o show, a interação mesmo só veio depois da segunda música. “É tão bom estar de volta, é tão bom estar fazendo isso, olhe para isso, este é o espírito humano, bem aqui na nossa frente. Isso é incrível, obrigado a todos. Esta é Endless Sacrifice.”, disse LaBrie.

Fotografia: Angela Missawa.

Setlist: “Alien”, “6:00”, “Endless Sacrifice”, “Bridges in The Sky”, “Invisible Monster”, “The Count Of Tuscany”, “Pull Me Under”.

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