Roadie Metal Cronologia: Paradise Lost – Draconian Times (1995)

A trajetória discográfica do Paradise Lost sempre me traz à lembrança a figura de uma parábola, movendo-se em determinado sentido, até encontrar o vértice e iniciar o movimento oposto simétrico. Matematicamente, é claro que isso seria inexato, pois embora a banda tenha se colocado em um percurso de retorno para o Doom Metal, ela não está replicando o que já produziu e, tampouco, irá gerar irmãos gêmeos de seus primeiros registros.

“Draconian Times”, seu quinto álbum, encontra-se na primeira curva da tal  parábola, incutindo coerência nas mudanças que vivenciaram ao longo de uma década. Lançado em 1995, o disco está emblematicamente no ponto intermediário dessas mudanças. A banda que gravou “Gothic” não poderia ter feito “One Second” e “Host”, mas a banda que gravou “Draconian Times”, sim.

Essa evolução, felizmente, foi muito fluída, e o disco que viria a ser apontado, pela maioria, como o maior clássico da carreira desses ingleses, surgiu no período em que o Metal, como um todo, passava por indefinições e inovações. A onda de Seattle começava a perder força, o Iron Maiden lidava com a mudança de vocalista e bandas emergentes como Fear Factory, Moonspell, Opeth, White Zombie e Down lançavam alguns de seus discos mais emblemáticos, definindo os padrões noventistas. Dentro desse cenário, não bastava apenas replicar os êxitos estabelecidos no essencial “Icon”, mas ampliar tudo que aquele disco já prometia.

Essa meta foi alcançada, pois “Draconian Times” mostrou uma banda que alargava suas possibilidades sem alienar-se de suas principais características. Alguns recursos foram dispensados, como a utilização dos vocais guturais, em favor de outras formas de abordagem por parte de Nick Holmes, chegando em muito momentos a lembrar demasiadamente os maneirismos de James Hetfield, tal qual percebe-se em “Elusive Cure” e “I See Your Face”. Não foi, porém, uma mudança súbita, pois a banda já vinha percorrendo esse caminho.

A primazia da melodia, que sempre esteve presente em seus arranjos, ganhava mais força, e os arranjos trabalhados, nesse sentido, funcionavam com plena eficiência, tal qual demonstra o piano no começo de “Enchantment”, faixa que inicia o disco abrindo mão da utilização de solos  e com a pulsação de versos fortes, em tons épicos de dolorosa superação, fazendo uma trinca vigorosa com as duas canções seguintes, “Hallowed Land” e “The Last Time”. O estreante baterista Lee Morris, que foi o mais longevo ocupante dessa cadeira na história da banda, assume a responsabilidade pela contundência do ritmo nessa última e mostra os motivos pelos quais foi contratado.

A pequena vinheta com a voz do maníaco Charle Manson foi essencial para tornar mais natural a mudança de ritmo entre o andamento mais lento de “Forever Failure” e as que lhe precederam. O guitarrista Gregor Mackintosh, compôs isoladamente o disco inteiro, deixando a função de preenchimento das letras por conta de Nick Holmes, perfazendo uma das grandes duplas criativas de nossa época. A parceria entre os dois funciona com sintonia e variedade, pois embora a banda lide mais profundamente com os temas de dor e tristeza, há espaço para outros sentimentos. Assim, uma música como “Yearn For Change” não apenas insinua doses de otimismo, como de fato sua letra transmite isso. Mas esse é um estado transitório dentro do universo do Paradise Lost, pois “Shades Of God” surge na sequência, trazendo de volta os tons de cinza, através da negação da fé.

Para cada “Once Solemn”, com levadas mais dinâmicas, há uma “Jaded”, reafirmando os aspectos Doom do grupo. “Draconian Times” é um álbum que exala equilíbrio e isso justifica seu êxito. Há o peso e a calmaria, a dor pungente e o alívio sereno, reflexos de uma época que, erroneamente, entrou para o imaginário popular como um período de baixa produtividade  e relevância. Lamentável equívoco, pois os anos noventa, ao contrário do que tantos pregam, revigoraram o Metal e deram-no uma densidade tamanha que sustenta-o até os presentes dias. “Draconian Times” é uma das pedras angulares da renovação do estilo.

Formação

Nick Holmes – vocal

Gregor Mackintosh – guitarra

Aaron Aedy – guitarra

Steve Edmonson – baixo

Lee Morris – bateria

Músicas

  1. Enchantment
  2. Hallowed Land
  3. The Last Time
  4. Forever Failure
  5. Once Solemn
  6. Shadowkings
  7. Elusive Cure
  8. Yearn for Change
  9. Shades of God
  10. Hands of Reason
  11. I See Your Face
  12. Jaded
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Sobre: Anderson Frota

Anderson Frota

"Anderson Frota é baixista da banda Asmodeus, de Fortaleza, e escuta rock e metal desde os 14 anos, indo desde os Beatles até o Napalm Death, desde o Yes até o Cannibal Corpse"

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