“Close to the Edge”, “Relayer”, “Fragile”,… é muito fácil listar os clássicos do Yes. Mas, será que é fácil porque todos reconhecem esses discos como obras-primas? Ou será porque a menção a eles já sai no piloto-automático? São discos incontestáveis, acima do bem e do mal, mas isso não significa que o brilhantismo do Yes ficou congelado nos anos 60 ou 70, épocas áureas do Rock Progressivo.

Os fãs, em sua maioria, tem essa ranhetice de fechar nichos dentro da obra dos artistas. Criam uma subdiscografia dentro da discografia. Longe de mim dizer que tudo que o Yes fez foi maravilhoso, mas também não quero entender que algum disco, apenas por não ter Steve Howe ou Rick Wakeman na formação, não mereça o status de clássico.

“90125”, o álbum que marcou o retorno de Jon Anderson à banda em 1983, após um breve intervalo de afastamento, durante o qual foi gerado o disco “Drama”, é uma obra com nove faixas impecáveis, aproximando-se do Pop sem resvalar no comercialismo barato e mantendo, em todo o seu decorrer, a personalidade do Yes. A banda que aqui atua transparece leveza, longe daquela aura solene que marcou, por exemplo, “Tales from the Topographic Oceans”, com suas quatro faixas de vinte e poucos minutos (álbum duplo em vinil, com uma faixa em cada lado). Ao longo do disco é gritante a tendência AOR no som, muito provavelmente em decorrência da atuação do guitarrista Trevor Rabin, hoje um consagrado autor de trilhas sonoras. A música “Changes” é um bom exemplo, pois começa com algo que lembra um pouco o Gentle Giant, pra depois soar como uma mistura de Yes com Journey. Outro grande destaque do álbum é a canção “Leave It”, cuja harmonia vocal estupenda é o fio condutor de toda a levada e que, ao vivo, era reproduzida fielmente, com a participação de todos nas vozes.

A relação de Anderson com o baixista Chris Squire, único membro permanente da banda, desde seu primeiro disco até a data de seu falecimento, sempre foi meio de altos e baixos, mas nesse disco a parceria entrou em sintonia para criar um trabalho que abrangesse diversas formas de expressividade do Yes, desde faixas mais melódicas e extensas, como “Hearts”, até pérolas Pop para as programações de rádio – tendência forte nesse disco – na linha de “It Can Happen” e de “Owner of a Lonely Heart”.

Tudo bem, “Close to the Edge” é álbum desafiador, grandioso, do tipo que projeta sua sombra na carreira dos músicos, mas não dá pra se fazer um disco assim ininterruptas vezes sem que se perca o foco da musicalidade e da criatividade. Mesmo monstros sagrados como o Yes precisam experimentar caminhos diferentes para a sua música, para poder mantê-la espontânea e estimulante para o público e para os artistas. “90125” representa a exploração de uma faceta da banda que, de certa forma, sempre esteve presente, porém diluída em faixas de mais extensão. O desafio é poder transitar por todos esses espectros e ser bem sucedido. Nesse álbum, sem dúvida, eles foram.

Formação

Jon Anderson – vocal

Chris Squire – baixo

Trevor Rabin – guitarra

Alan White – bateria

Tony Kaye – teclado

Músicas

1 Owner of a Lonely Heart

2 Hold On

3 It Can Happen

4 Changes

5 Cinema

6 Leave It

7 Our Song

8 City of Love

9 Hearts