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Resenha: Van Dorte – Epilogue (2017)

Com o advento do Pós-Punk no fim dos anos 70 através primordialmente do Joy Division, os anos 80 testemunharam um emergir de bandas praticando um som mais acessível que o Punk propriamente dito, mas com uma carga emotiva forte, geralmente triste, depressiva ou de desespero. Bandas como The Cure, Siouxsie And The Banshees, Bauhaus e The Sisters Of Mercy inauguraram ou desenvolveram o estilo que ficou conhecido como Rock Gótico, trazendo todos os elementos descritos acima em suas músicas.

Vieram os anos 90, e com eles, o surgimento do Metal Gótico, que, apesar de compartilhar o sobrenome com seu parente dos anos 80, são estilos de sonoridades distintas. Todavia, o Paradise Lost, considerado o pioneiro do Metal Gótico, foi tornando seu som mais acessível no decorrer da década de 90, de modo que trabalhos como One Second (1997) e Host (1999) podem ser chamados de Rock Gótico. Essa era mais comercial do Paradise Lost fez escola, e, de banda em banda, um dos alunos mais aplicados destes ensinos está sendo o grupo paulista Van Dorte.

Fundada em 2010 na capital paulista, o grupo pratica o som que eles mesmos denominam de Dark Rock. A fim de referenciarmos o som da banda formada por Feleex Duarte (vocais, piano), Alexandre Carmo (guitarras), Dione Rigamonti (teclados) e Thiago Rodrigues (contrabaixo), tome por exemplo o Paradise Lost da fase One Second e Symbol Of Life, com aquela aura negra e atmosférica perpetrada por The Sisters Of Mercy, The Cure, Depeche Mode, HIM e por bandas industriais alemãs como Oomph. Sem ser exatamente uma cópia de alguma destas bandas, o Van Dorte consegue entregar músicas ora negras, ora mais comerciais, sem nunca deixar de lado a melancolia que é o elemento essencial de suas composições. Bandas nacionais como Anno Zero também já fazem algo similar, mas o Van Dorte se destaca pelo o que o texto a seguir explica.

Lançado em fevereiro de 2017, o debut do Van Dorte, Epilogue, traz onze composições produzidas por Marcelo Oliveira. Juntos, banda e produtor conseguiram entregar um trabalho com ótima qualidade de som, onde todos os instrumentos estão bem nítidos aos ouvidos. Não só isso, pois o piano, elemento importante nas músicas do Van Dorte, convive bem com as bases pesadas e enérgicas de guitarra. A voz de Feleex Duarte não é marcante como a de Andrew Eldritch (The Sisters Of Mercy) ou forte como a de Dave Gahan (Depeche Mode). Em compensação, seu timbre se encaixa bem na proposta sonora do grupo, e o cara consegue reforçar esta afirmação com a sua interpretação sempre bem encaixada, segura e sem exageros.

O álbum Epilogue alterna momentos mais pesados e agressivos com outras partes mais calmas e atmosféricas. Faixas como The Blame e Fragile Dreams são amostras do repertório pesado/acessível do grupo paulista, enquanto outras músicas como Breathe Now e Like Acid evocam atmosferas negras em vários momentos de seus comprimentos. Claustrofobia traz um pouco da influência Industrial citada. Juntamente com estas músicas mais enérgicas, temos músicas como Don’t Make Me Say Goodbye, completamente movida a voz e piano, onde Feleex entrega uma interpretação emotiva e competente.

O contraste entre o peso gélido das guitarras e a voz emotiva de Feleex aparece novamente em In The Dark, que vem seguida da pesada, lenta e tenebrosa My Pretty Vision, que mais parece uma trilha sonora de uma solitária pessoa a caminhar em uma calçada deserta a noite, com pouca iluminação artificial. Os singelos arranjos de teclados só ajudam a criar a tal imagem aqui descrita e a fizeram se tornar o destaque do álbum, sem demérito para as demais faixas. Tudo neste álbum tem seu importante papel e nada é descartável. E olhe que para um álbum de onze faixas, tal constatação é digna de louvor.

Como nem tudo é perfeito em um debut (e ninguém é louco de esperar isso), em lugar nenhum este redator encontrou maiores informações sobre a parte técnica de Epilogue. Não se sabe, por exemplo, quem gravou cada instrumento do disco, em especial a bateria, muito bem tocada com peso quando se exigiu e com groove quando se fez necessário. Como este é o trabalho de estreia do Van Dorte, espero que estas arestas sejam corrigidas no futuro, pois são de extrema importância. Também não ocorre o nome do artista que criou a arte de capa, que mais parece coisa inspirada na série de jogos de terror psicológico “Silent Hill” e é a perfeita imagem visual, inocente e desolada, que metaforiza o som do álbum.

Fora estes revezes, parabéns a dupla Feleex e Alexandre, que atualmente se fazem acompanhar de Dione Rigamonti nos teclados e Thiago Rodrigues no contrabaixo, por entregar um som que, apesar de não ser original, é muito bem trabalhado e executado. E o melhor, com paixão, pois música tecnicamente bem trabalhada e ainda capaz de evocar sentimentos no ouvinte, não é qualquer um que tem a capacidade de criar. Vida longa ao Van Dorte, um dos destaques brasileiros do Dark Rock/Rock Gótico.

Epilogue – Van Dorte (independente, 2017)

Tracklist:
01. Epilogue
02. The Blame
03. Claustrofobia
04. Breathe Now
05. Like Acid
06. Don’t Make Me Say Goodbye
07. Fragile Dreams
08. In The Dark
09. My Pretty Vision
10. Your Frequency
11. Evil Side

Line-up:
Feleex Duarte – vocais, piano
Alexandre do Carmo – guitarras

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Sobre: Bruno Rocha

Bruno Rocha

"Cearense de Caucaia, estudante e professor de Matemática, cafélotra e torcedor do Ferroviário. Desde a adolescência caminha nas veredas da música pesada e desde então é um aficionado e pesquisador de seus diversos gêneros e épocas. Tem preferência pelo Doom Metal, mas flutua facilmente de Burzum a Kraftwerk, passando por Stratovarius e por Genival Santos. Também atende pela Blitz Metal e pelo Whiplash."

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