Parando para pensar bem, não lhes parece estranho que nós, aqui no Brasil varonil, conheçamos tanto sobre os cenários musicais de países como Noruega, Canadá, Finlândia ou Suécia, e, para regiões do mundo tão mais próximas de nossa realidade, seja histórica ou geográfica, nos sejam praticamente desconhecidos esses cenários? Qual é, realmente, a profundidade de nosso relacionamento com a música pesada de Portugal? E dos diversos países da América do Sul???

Não é culpa, porém, apenas de nossa parcela de displicência. A nossa submissão aos ditames da mídia acaba por apontar para onde o nosso foco deve ser direcionado e, se não houver alguma iniciativa própria em buscar a informação, ela não lhe surgirá de bandeja, mesmo dentro de nossa realidade atual, onde o excesso de informação é a regra.

Na América do Sul, o nosso vizinho mais apto a nos apresentar material tende a ser a Argentina, pela proximidade, pela parceria econômica e cultural, ou mesmo pelo status do país dentro do contexto geopolítico mundial. E, desde muito tempo, pipocam nomes relevantes vindos de lá, como Rata Blanca, Almafuerte, A.N.I.M.A.L. ou mesmo da recente combinação entre Brasil/Argentina/México, o De La Tierra. De nomes mais antigos, sempre costumam ser mencionados o Riff e o V8, objeto desta resenha.

É inevitável que eu faça alguns paralelos aqui e, em termos de comparação, a audição do primeiro álbum do V8, “Luchando Por El Metal”, me soou bastante similar ao Metal paulista daquele mesmo período, 1983. Aquela sonoridade transitória partindo do Patrulha do Espaço e chegando até o Harppia, nos deixando com a sensação de que as diferenças de sotaque estavam presentes apenas na língua cantada, mas não no ritmo ou na forma geral como a música soava, inclusive em termos de qualidade de produção dos discos.

Seu segundo álbum, “Un Paso Más En La Batalla”, já se evidencia mais fortemente dentro do Heavy Metal propriamente dito, deixando de lado algumas passagens mais na linha Hard Rock que o disco anterior possuía. Trata-se de um álbum essencial, de Metal oitentista rápido e direto, sem grandes voos instrumentais, mas com um excelente vocalista, na pessoa de Alberto Zamarbide, que abrilhanta as faixas com um timbre ríspido e convicto. Não à toa, está na ativa até hoje, junto com a banda Primal, na Califórnia.

Complementado pelos músicos Ricardo Iorio, outra lenda do Metal argentino, no baixo, Gustavo Rowek, na bateria, e o já falecido guitarrista Osvaldo Civile, o V8 já ganha a simpatia de imediato quando abre o disco com uma música que tem o título “Deseando Destruir Y Matar”. Aliás, pelo título das canções, já podemos vislumbrar que os temas preferidos do V8 são aqueles voltados ao horror e a rebeldia e, daí, se destacam faixas incríveis como “La Mano Maldita”, “Camino Al Sepulcro” e, principalmente, “Ideando La Fuga” e “Momento De Luchar”, uma das melhores.

O V8 lançaria ainda um disco antes de se separar, mas seus músicos ainda permanecem bastante ativos no mundo da música e, a banda original ocupa hoje o lugar de lenda naquele país, sendo frequentemente relembrada através do lançamento de compilações ou box sets e inspirando os novos músicos de Metal que surgem no sul do hemisfério.

De fato, muda-se apenas a língua falada, mas a linguagem do Heavy Metal é o verdadeiro esperanto. É universal.

Formação:
Alberto Zamarbide (vocal);
Osvaldo Civile (R.I.P. 1999) (guitarra);
Ricardo Iorio (baixo);
Gustavo Rowek (bateria).

Faixas:
01 – Deseando Destruir y Matar
02 – Siervos del Mal
03 – La Mano Maldita
04 – Cautivo de un Sistema
05 – Lanzado al Mundo Hoy
06 – Ideando la Fuga
07 – Camino al Sepulcro
08 – Momento de Luchar