Resenha: The Almighty – Crank (1994)

by Marcelo Sant'Anna

Os escoceses do The Almighty surgiram no final dos anos 80 em Glasgow e faziam um Hard Rock vigoroso, que foi influenciado pelo estilo Glam daquela década, proporcionando certa notoriedade na Escócia e até Reino Unido. Porém, com a chegada dos anos 90 e todas as mudanças que essa década trouxe, o som dos caras acompanhou a “evolução” natural e ficou bem diferente.
Em Powertrippin’ de 1993 eles já tinham mostrado sinais dessa mudança, mas, foi em Crank que eles apagaram suas pegadas no Hard Rock, adicionando então boas doses de Hardcore e Punk ao seu som e praticamente se tornaram outra banda. Inclusive o visual da banda mudou também, ficando mais sóbrio e com direito aos cabelos curtos do vocalista.

Crank parece ser uma mistura de Therapy? com Helmet, e a única coisa que ainda faz lembrar a banda dos anos 80 é a voz característica e marcante do vocalista/guitarrista e líder da banda, Rick Warwick (que inclusive, viria assumir os vocais no retorno do Thin Lizzy no (então) distante ano de 2009). Crank (que é o quarto álbum) chegou ao 15º lugar na parada de Rock do Reino Unido. Foi um tremendo sucesso, que os fez participar dos principais festivais de rock do mundo á partir daquele ano. The Almight junto as bandas Terrorvision, Therapy? e Paradise Lost fizeram muito sucesso entre os anos de 93 a 96, levando o underground do Reino Unido para o Mainstream do Rock em nível mundial.

Com a belíssima produção de Chris Sheldon (Foo Fighters, Anthrax, Terrorvision, Therapy?, Pixies, Skunk Anansie, Garbage, Roger Waters, dentre outros) Crank chama a atenção pela ausência de baladas, solos curtos de guitarra e baixo em destaque. Apesar de Crank ser um álbum bastante homogêneo, existem faixas que acabam se sobressaindo das demais.

Por mais que o nome possa sugerir algo extremamente violento, Ultraviolence é uma bela escolha pra abertura do álbum, direta, rápida e que mostra bem a pegada de Crank por completo. Mas não chega ser algo tão violento como o título sugere.

Em Wrench o começo cadenciado e groove já te cativam, o ritmo “repetitivo” do riff da guitarra base lembra mesmo o já citado Helmet. A letra questionadora e proferida de maneira pausada traz um clima tenso para o ouvinte. Wrench foi single e teve vídeo exibido á exaustão na MTV2 e principalmente no Headbangers Ball do Reino Unido.

The Unreal Thing mantém a pegada rítmica cadenciada de Wrench e no refrão cresce e deixa a música de certa forma mais comercial.

Chegamos então ao ponto alto do álbum. Com Jonestown Mind nas rádios e MTV a banda ficou nas primeiras posições nos charts de Rock de 1994, The Almighty finalmente chegava ao Mainstream do Rock mundial. E com razão, essa música é perfeita e empolgante, o instrumental muito bem elaborado e refrão grudento te faz querer ouvir em looping por diversas vezes seguidas. Essa faixa que conta com a participação de Andy Cairns (vocal da irlandesa Therapy? que não participa do vídeo clip e por esse motivo o baixista Floyd usa o símbolo ? do Therapy? na cabeça, dublando sua parte na música). Outra curiosidade é que Jonestown Mind foi inspirada na bizarra história do pastor Jim Jones que foi o líder da Seita Templo dos Povos e que induziu seus seguidores ao suicídio em massa na cidade de Jonestown (Guiana), em 18 de novembro de 1978.

A introdução com o contra baixo do Floyd já mostra que o ritmo vai ser pra cima em Welcome to Defiance que se transforma num Hardcore mais quebrado, estilo que aliás, domina a maior parte de Crank.

Way Beyond Belief é outra que começa mais cadenciada e com destaque para o timbre da guitarra do Pete e sua levada “country” (bizarra) no pré refrão, e mesmo assim sem perder a sonoridade pesada.

Em Cheat que fecha o álbum (na versão em vinil) é outro hardcore bem no estilo do The Almighty, pois a guitarra tem uma dinâmica que de maneira subliminar lembra um country esquisito, mas evidentemente não é country!Resultado ótimo e criativo.
Existe uma faixa que não aparece no tracklist do CD. Shitzophrenic, que na realidade é apenas um “noise experimental” com distorções de guitarra e um piano ao fundo, só pra constar ela não faz parte da versão em vinil.

Abaixo a versão oficial de Jonestown Mind em vídeo, porém, infelizmente não existe essa versão em alta definição publicada pela banda ou gravadora no Youtube. Essa é a melhor qualidade encontrada e que tem apenas uma entrevista curta antes.

Crank é com certeza um dos álbuns mais importantes da década de 90 para o Rock. E pode parecer repetitivo, mas os anos 90 foram realmente a década da mistura e do ecletismo dentro do rock, tornando assim uma Era tão importante para a música em geral. Crank conseguiu ser sucesso de público e crítica sem ter músicas suaves e apelativas comercialmente, eles foram na contra mão da sua carreira inicial (que fazia algo bem no estilo Poison). Desse modo, essa resenha é uma homenagem a esse clássico do Rock Moderno.
Em 1996 The Almighty viria a lançar o também (ótimo) Just Add Life (mas desta vez com nome Almighty apenas) que os manteria em evidência por mais um tempo e depois entrariam em pausa com retornos esporádicos e sem muita relevância.

The Almighty – Crank
Data de lançamento: 1º de outubro de 1994
Gravadora: Chrysalis

Tracklist:
01 – Ultraviolent
02 – Wrench

03 – The Unreal Thing
04 – Jonestown Mind
05 – Move Right In
06 – Crank and Deceit
07 – United State of Apathy
08 – Welcome to Defiance
09 – Way Beyond Belief
10 – Crackdown
11 – Sorry for Nothing
12 – Cheat
13 – Shitzophrenic (faixa escondida)
Line Up:
Ricky Warwick – Vocais e guitarra
Pete Friesen – Guitarra
Floyd London – Contra baixo
Stump Monroe – Bateria
Músicos convidados:
Andy Cairns – Vocal adicional em Jonestown Mind
Eileen Rose – Vocal adicional em United State of Apathy

Nota 8,5

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