O que esperar do vocalista do Twisted Sister, um cara que sempre foi verborrágico (lembram do discurso dele contra a censura do PMRC nos anos 80?) e que, ainda hoje, posta quase o dia todo na sua conta do Twitter? Bem, com certeza um livro verborrágico que poderia ter uma destas duas características: (a) Um rockstar que conta vantagem o tempo todo e edita só o que lhe convém; (b) Um músico que fala as coisas comedidamente e nem sempre conta vantagem nem se acha o grande vencedor na vida.

Pois bem, a alternativa é uma mescla: (c) Um rockstar que lutou muito (mas muito mesmo) pra chegar onde chegou e, apesar de ter um ego enorme, é o primeiro a assumir seus próprios erros, contar em detalhes suas derrotas e mostrar que ser rockstar também é ser uma pessoa normal. Que precisa trampar todos os dias pra se manter em um mundo no qual as regras mudam a toda hora.

Um ponto bastante positivo nesta autobiografia é que Dee não perde tempo demais falando sobre sua infância como outros rockstars. A verdade é que se não há nada na infância que faça diferença mais tarde para o fã, ela não dá uma boa história. Snider conta o essencial para que a gente entenda quem ele se tornou e por quê. A partir disso já vai para o que interessa: como a música se tornou algo primordial na sua vida e ele para a história do hard rock.

Já no começo do livro percebemos que essa personalidade agitada e confrontativa que Dee tem até hoje já existia, e ele a usou para o seu bem, para a construção de um grande frontman e vocalista e, principalmente, para não desistir quando grandes obstáculos surgiram. Se já foi muito difícil para o Twisted Sister “acontecer”, o que Dee passou depois que a banda acabou foi muito pior. E hoje ele está aí, muito presente no mundo da música (e nas opiniões políticas no Twitter).

Como não poderia deixar de ser, desde sempre houve problemas de relacionamento dentro da banda, e Dee fala disso, às vezes com um pouco de acidez, mas nunca deixando com que o lado ruim seja o protagonista, como já li em autobiografias em geral, principalmente em alguns dos membros do Kiss. Mesmo assim deve-se levar em conta que estamos lendo o ponto de vista apenas dele, e que com certeza a versão dos outros integrantes seria diferente. Pelo menos o nível não vira baixaria em momento algum.

Dee Snider conta como aprendeu a cantar, a compor, a criar sua persona na banda e tudo isso é muito interessante para os fãs. Ele não fica falando sobre groupies e drogas (apesar de dizer que nunca foi adepto de nenhuma delas), mas poderia falar sobre os outros e não o faz. Mantém a classe. Aliás, Dee é um cara que não poupa elogios aos que merecem, sempre falando em detalhes sobre as pessoas corretas e positivas que o ajudaram. Também é o primeiro a admitir que errou muito durante a vida e a carreira. Não banca o Sr. Perfeito. Muito legal.

A história do Twisted Sister é contada do começo ao fim (do primeiro fim, pelo menos) e também as dificuldades artísticas e financeiras posteriores, com explicações de por que suas bandas Desperado e Widowmaker não deram em praticamente nada.

Um livro divertido, informativo, às vezes exagerado (como a gente gosta), às vezes sóbrio. Infelizmente não foi lançado em português ainda, mas se você quer ler uma autobiografia de qualidade e pode ler em inglês, vá em frente. Vale muito a pena.