Resenha de Show: Deicide em Fortaleza/CE (11/08/2017)

DEICIDE
Abertura: ENCÉFALO e SIEGE OF HATE
Let’s Go Bar – Fortaleza/CE, 11 de agosto de 2017
Imagens: Rubens Rodrigues

 

Fazendo valer sua tradição de ser um dos polos do Metal Extremo brasileiro, a capital do Ceará, Fortaleza, recebeu no dia 11 de agosto uma das autoridades do Death Metal mundial, os norte-americanos do Deicide. Na terceira parada de seu giro pela América Latina, a banda que já havia se apresentado em Belo Horizonte no dia 09 e em Novo Hamburgo no dia 10 continua promovendo o mais recente álbum de estúdio, o bem-recebido In The Minds Of Evil.

Além da banda liderada pelo vocalista/baixista Glen Benton, as bandas locais Siege Of Hate e Encéfalo foram escaladas para se apresentarem no evento, que ocorreu no Let’s Go Bar, na poética e boêmia Praia de Iracema. Para os amantes e apreciadores das artes extremas do Heavy Metal do Ceará e de estados vizinhos, a noite do dia 11 de agosto foi uma verdadeira exposição de amostras do que existe de melhor no ramo atulmente, a nível mundial.

Com a abertura das portas da casa marcada para as 21:00, o público neste horário ainda não era expressivo. E continuou assim até depois das 22:00, momento em que a banda Encéfalo subiu ao palco para descer nos presentes seu Thrash/Death Metal agressivo, técnico e com muita pegada. Formado por Luiz Henrique (vocais, contrabaixo), Lailton Sousa (guitarras) e Rodrigo Falconieri (bateria), o powertrio aproveitou a ocasião para fazer a van-premiere de algumas de suas novas músicas, que estarão presentes no terceiro full-length da banda, DeaThrone, que tem previsão de lançamento ainda para este ano. Em pouco mais de quarenta minutos, o Encéfalo não perdoou as poucas pessoas que chegaram cedo para vê-los e provou através de composições como Echoes From The Past, Blessed Be The Wrong Choice e These Final Rotten Days que seu novo álbum será o mais extremo e técnico da banda fundada em 2002. A garra do guitarrista Lailton Sousa e a desenvoltura do baixista Luiz Henrique são alguns dos detalhes que fazem da Encéfalo um dos destaques da cena cearense. E o que falar de Rodrigo Falconieri? Parecia até que ele havia encarnado o demônio, tamanha sua técnica e velocidade em seu kit de bateria. Sinto pena de quem perdeu.

Rápida foi a troca de bandas no palco após o fim do concerto do Encéfalo, e antes mesmo das 23:00 a banda Siege Of Hate, ou S.O.H., para os íntimos, começou a fazer sua parte para tornar a noite alencarina mais pesada e extrema. Fundada em 1997, o S.O.H. é renomado como uma das mais importantes bandas da cena Death/Grindcore nacional, inclusive com reconhecimento no exterior. A banda formada atualmente por Bruno Gabai (vocais/guitarras), George Frizzo (contrabaixo) e Saulo Oliveira (bateria) celebra o relançamento de sua primeira demo, Return To Ashes (1997). Mas seu setlist abarcou composições de toda sua história, tanto da demo quanto de seus três álbuns de estúdio, incluindo o mais recente, o aclamado Animalism (2012). Ainda, o S.O.H. apresentou uma nova música, Era Do Ódio, que estará presente no novo álbum da banda, que Bruno anunciou que será o primeiro todo cantado em português.

Assistir o Siege Of Hate ao vivo é testemunhar uma aula de destruição e de sons pesados e densos. Gabai, Frizzo e Saulo esbanjam garra, atitude e velocidade em suas composições Death/Grind com pitadas de Hardcore. Todavia, mesmo com a provocação dos integrantes e com a destruição que o S.O.H. causava em cima do palco, o que é de costume para quem acompanha a banda ao vivo, o público em geral continuava morno. Simplesmente não haviam rodas ou moshes, tanto no set do S.O.H. quanto no da Encéfalo. Antes da música Hipochrist, o baixista George Frizzo pediu para que o público se agitasse bem mais, pois o mesmo estava muito parado. A atitude de Frizzo foi apoiada pelo baterista Saulo, que por diversas vezes se levantou de sua banqueta para gesticular ao público, como atacante que quer acordar a torcida de seu time. Por outro lado, a casa já estava quase com sua capacidade máxima atingida quando o S.O.H. estava no palco. Tanto que Bruno Gabai agradeceu a todos aqueles que chegaram mais cedo para prestigiar as duas bandas de abertura, pois, segundo ele, é disso que a cena local mais precisa.

Após o fim da apresentação da S.O.H., o som mecânico rolava solto e as pessoas aproveitaram para se recarregarem com seus líquidos alcoólicos e catuaba selvagem. Enquanto isso, o Deicide, a atração principal da madrugada já do sábado, se posicionava no palco e fazia seus últimos ajustes. A casa quase veio abaixo quando Glen Benton e Cia. apareceram finalmente a postos.

Pontualmente a meia-noite, sem introdução e sem porra nenhuma, a não ser um berro poderoso do Homem Da Testa Marcada conclamando todos à desgraça, a banda estadunidense formada por Glen Benton (vocais, contrabaixo), Kevin Quirion, Mark English (guitarras) e a lenda Steve Asheim (bateria) começava sua aula de Death Metal rápido, negro e satânico com Scars Of The Crucifix, do álbum homônimo de 2004, que foi seguida por When Satan Rules His World, do clássico Once Upon The Cross, de 1995. A qualidade do som estava impecável, com todos os instrumentos bem audíveis e equalizados. Aí sim! Neste momento, com a casa lotada de headbangers sedentos por Death Metal, o público começou a se agitar como se esperava, e as rodas começaram a se abrir pelo espaço.

Após a faixa-título de In The Minds Of Evil ser tocada, a empolgação do público atingiu seu ápice em They Are The Children Of The Underworld, instante em que rodas violentas começavam a pogar em frente ao palco. A partir daí, o Deicide já estava com o público em sua mão, dados os gritos de “Deicide, Deicide…” que reverberavam no Let’s Go Bar a cada intervalo entre músicas. Death To Jesus, Oblivion To Evil e Trifixion sacramentaram o poder da fogo da banda em Fortaleza. Glen Benton se mostrava feliz com a apresentação e, apesar de sua conhecida postura séria e concentrada, consegue ser um frontman carismático, inclusive tirando brincadeiras com o público em alguns momentos. Steve Asheim dava seu show particular atrás de seu kit de bateria com sua técnica e velocidade, mais que notórias.

Cabe um destaque particular para a dupla de guitarristas. Desde que os irmãos Hoffman deixaram o grupo em 2004, uma sucessão de guitarristas do mais alto gabarito ocuparam os postos, até os atuais, Kevin Quirion, dono de uma mão-direita precisa e solos sujos, e o novato Mark English, ingresso no Deicide em 2016, senhor de muita técnica e responsável por belíssimos solos durante todo o show.

Mark English

Kevin Quirion

Mais um pandemônio foi criado durante a trinca End The Wrath Of God, Serpents Of The Light e Blame It On God. Foi o momento onde o vocalista incorporou a gaiatice cearense e, com rosto sarcástico, olhou para o camarote e mostrou o dedo do meio em riste para algumas pessoas que lá estavam, fato que forjou uma reação de risos por parte de quem estava na pista. Depois disso, a seriedade voltou com Dead But Dreaming.

Se Glen incorporou a gaiatice cearense, ele e toda a banda sofriam com o calor típico da Terra Onde O Sol Reina. Os cabelos de Glen pregavam em sua calva, algo que o guitarrista Kevin Quirion não precisava se preocupar, porque nem cabelo tem. Steve Asheim já se mostrava ofegante, sem contudo perder o pique para conduzir o tanque Deicide. O novato guitarrista Mark English era de uma elegância ímpar em cima do palco. O gesto do frontman de estender os braços e de pender a cabeça para um dos lados foi a deixa para a música Once Upon The Cross, durante a qual um fã emocionado subiu próximo ao palco para reverenciar O Homem Da Cicatriz Do Crucifixo. Kill The Christian e Deicide pavimentaram o caminho para a reta final do concerto, que foi fechado com Sacrificial Suicide, Homage For Satan e Dead By Dawn, com participação maciça dos gritos do público, o que fechou de forma memorável aquela madrugada.

Passou rápido. O concerto do Deicide durou pouco mais de uma hora, tempo mais que suficiente para que se confirmasse o que já é confirmado a quase três décadas: com Deicide não tem frescura. É o mais puro Death Metal, reto, veloz e demolidor. Outro motivo de satisfação é constatar que nossas bandas fazem parte deste mesmo grupo seleto o qual o Deicide faz parte. Encéfalo e Siege Of Hate entregaram concertos cheios de energia, fúria e técnica. Por outro lado, falta ainda que o público se conscientize que a cena local precisa do mesmo apoio que este mesmo público dá para as bandas internacionais. Ficou nítido que a grande maioria foi somente para ver o Deicide. Até aí, entendo que ainda esteja normal. Mas o ceticismo e a indiferença se fizeram presentes até mesmo com quem estava no local assistindo as bandas locais. Fica o aviso e, quem sabe, a conscientização para o público de Fortaleza. Sem hipérboles, afirmo que os shows de Encéfalo e Siege Of Hate foram no mesmo nível do show do Deicide, a menos de qualidade sonora. Quando o Deicide começou a tocar, mais parecia um sampler da gravação original do estúdio.

Pois bem. Após alguns eventos que se transformaram em frustrações devido a cancelamentos de última hora e ameaças da Prefeitura em cancelar outros graças a sua controversa “Lei do Silêncio”, o evento que este copista relatou serviu para deixar Fortaleza de alma lavada e de sangue quente, pronto para mais. Desta vez, o silêncio serviu para si próprio, e quem dominou foram os ecos das artes extremas.

 

Saulo Oliveira e George Frizzo (S.O.H.)

Rodrigo Falconieri (Encéfalo)

DEICIDE

Set-list:
Scars Of The Crucifix
When Satan Rules His World
In The Minds Of Evil
They Are The Children Of The Underworld
Death To Jesus
Oblivious To Evil
Trifixion
End The Wrath Of God
Serpents Of The Ligth
Blame It On God
Dead But Dreaming
Once Upon The Cross
Kill The Christian
Deicide
Sacrificial Suicide
Homage For Satan
Dead By Dawn
Line-up:
Glen Benton – vocais, contrabaixo
Kevin Quirion – guitarras
Mark English – guitarras
Steve Asheim – bateria

 

ENCÉFALO

Set-list:
All The Hate in My Soul
Despair
Echoes From the Past (Nova)
Endless Suffering
Annihilation Contempt to the Majesty (Nova)
Blessed By the Wrong Choice (Nova)
These Final Rotten Days (Nova)
Line-up:
Luiz Henrique – vocais, contrabaixo
Lailton Sousa – guitarras
Rodrigo Falconieri – bateria

 

SIEGE OF HATE (S.O.H.)

Set-list:
The Truth Behind
Grinding Ages
Brave New Civil War
Say Your Prayers
God Killing God
Obscene Truth
Forthcoming Holocaust
Hypochrist
Catharsis
The World I Never Knew
Era do Ódio (Nova)
The Walls Built Inside Us
Self-defense Contradictions
Judas Sanctified
Siege of Hate
Line-up:
Bruno Gabai – vocais, guitarras
George Frizzo – contrabaixo
Saulo Oliveira – bateria

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Sobre: Bruno Rocha

Bruno Rocha

"Cearense de Caucaia, estudante e professor de Matemática, cafélotra e torcedor do Ferroviário. Desde a adolescência caminha nas veredas da música pesada e desde então é um aficionado e pesquisador de seus diversos gêneros e épocas. Tem preferência pelo Doom Metal, mas flutua facilmente de Burzum a Kraftwerk, passando por Stratovarius e por Genival Santos. Também atende pela Blitz Metal e pelo Whiplash."

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