Resenha de show: Claustrofobia (15/12)

by Flávio Farias

Domingo de sol no Hell de Janeiro combina com praia… E parece que foi essa a opção de muitos headbangers cariocas, ainda que desse tempo para que o fã de Metal pudesse curtir a praia de dia e no início da noite pudesse comparecer ao antigo Teatro Odisseia, agora rebatizado de Espaço Kubrick, para acompanhar o festival Metal Massacre, estrelado pelo CLAUSTROFOBIA e com o suporte de mais três excelentes bandas: REPRESSOR, FORKILL e INVOLUNTARIUM. Bom, azar destes que preferiram ignorar o evento, cujo preço da entrada era bastante convidativo ($40 na hora) e a se lamentar pelas bandas que tocaram, que certamente, mereciam uma casa mais cheia. Porém, os que se dispuseram a comparecer, testemunharam uma grande noite do Metal underground carioca.

REPRESSOR

A abertura se deu com o REPRESSOR, destilando seu Thrash Metal bem executado, com influências modernas e cantado em português em um set bem curto. A banda apresentou seu novo play, chamado “Agonia“. Mesmo com um som um tanto quanto embolado, deu pra perceber que os caras têm futuro. A casa ainda estava muito vazia, mas mesmo assim, poucos se aventuram a abrir o moshpit.

Repressor ao vivo. Foto: Flávio Farias

Setlist REPRESSOR:
Ganância
Cabral
Reizinho
Arapuca
Mecanismo
Berserker

FORKILL

Com a casa um pouco mais cheia, mas ainda longe de ficar abarrotada, o FORKILL foi a segunda banda a se apresentar. E os caras subiram no palco arregaçando seu Thrash Metal old-school. Era a minha primeira vez escutando a banda (N. do R: vergonha, eu reconheço) e me impressionou muito a qualidade do som e o profissionalismo dos caras.

Ao apresentar a terceira música do set, “Keepers of Rage“, o vocalista e guitarrista Igor Rodrigues mandou um recado aos fundamentalistas cristãos de que eles não são tolerados. E neste Brasil atual em que eles (os fundamentalistas) têm dado as cartas, é importante uma voz de oposição se fazer presente.

E pela primeira vez o mosh abriu de forma mais violenta, vamos assim dizer. Os músicos são donos de uma técnica absurda em seus respectivos instrumentos e isso se reflete nas músicas, todas elas com um poder letal. E o som já estava melhor, o que contribuiu com a bela apresentação. Que showzaço. 

Forkill fazendo a galera abrir o mosh. Foto: Flávio Farias

Setlist FORKILL:
Warlord
Let There be Thrash
Keepers of Rage
Emperor of Pain
Killed at Last
When Hell Rises
Vendetta
The Joker

INVOLUNTARIUM

O INVOLUNTARIUM foi a terceira banda a se apresentar. Estreando nova formação, o quarteto executou um set curto e bem brutal. Seu som é bem moderno, flertando muitas vezes com estilos como o Djent e muitas passagens explorando o pula-pula, das bandas de New Metal. E inclusive, a banda executou a música “People = Shit“, do SLIPKNOT.

O som não é ruim, mas a banda não empolgou tanto aos presentes quanto o FORKILL, mas todos prestaram atenção ao que a banda executou no seu retorno aos palcos. Talvez fosse a melhor opção a ordem entre as duas bandas ter sido alterada previamente. O baterista Daniel se destacou, socando seu kit de bateria com toda a sua força e tornando a sonoridade dos caras extrema.

Involuntarium no palco. Foto: Flávio Farias

Setlist INVOLUNTARIUM:
Próximo Ato
Redenção
Regresso
Liberdade das Expressões
People = Shit
Tormento

CLAUSTROFOBIA

Enfim o CLAUSTROFOBIA subiu ao palco com sua rispidez sonora simplesmente violenta. As rodas se abriram automaticamente com os primeiros riffs do guitarrista Marcus D’angelo… aliás, rodas tão insanas quanto o som dos caras, seguramente a melhor banda de Thrash Metal em atividade no Brasil. Em um show mais intimista, comparado com a correria que foi a curtíssima apresentação na edição deste ano do Rock in Rio, deu para perceber melhor o poder de destruição do agora power-trio do interior paulista.

Claustrofobia em ação. Foto: Larissa Fernandes


Pinu da Granada” foi novamente o ponto alto da apresentação dos caras, um som que mescla passagens mais arrastadas durante quase toda sua extensão e terminando com uma porrada violenta em que a banda flerta intensamente com o Death Metal. O mosh respondeu com a mesma violência deste som.


A nova “Vira-Lata” acabou de quebrar o que restou do espaço Kubrick com seu peso avassalador e “Metal Maloka” mesmo com uma mudança brusca em sua execução, em relação ao CD, ficou fantástica, pois ganhou em brutalidade.


Tivemos um anti-clímax que foi a retirada do pano de fundo da banda no meio da apresentação. Eu não entendi bem a razão, mas parece que estava por cima da logo da casa, que tem uma imagem de uma pessoa. A retirada gerou vaias de parte do público. As vaias, obviamente não eram para a banda e sim para a casa. Mas logo os caras voltaram a tocar e tudo foi esquecido. Porém, ficou estranho a banda continuar o seu set sem o pano de fundo.


A surpresa do set ficou com a execução do cover (abreviado e sem os vocais) de “Children of the Grave“, de um tal de BLACK SABBATH. Mr. Tony Iommi ficaria muito feliz em saber que sua música foi executada uns dez tons abaixo (N. do R: exagero da minha parte, obviamente).


Logo depois os caras chegaram com “Peste” com seu peso ainda mais brutal ao vivo, mostrando que literalmente, o CLAUSTROFOBIA é pior do que febre, CLAUSTROFOBIA é peste.


E a maior surpresa para alguns, não para este que vos escreve foi a troca de função dos irmãos Marcos e Caio. O baterista assumiu a guitarra e o vocal enquanto que o irmão partiu para a introdução épica eternizada por Iggor Cavalera em “Territory“. Sim, caro leitor, a banda encerrou a apresentação em terras cariocas tocando este clássico do Metal nacional. A banda de vez em quando faz isso ao vivo e o resultado ficou bem satisfatório. E nós nem nos importamos com o fato de Caio não ter tocado o solo de Andreas Kisser. Seria pedir demais, ali era a banda se divertindo, após uma turnê cansativa e que teria o seu ponto final exatamente no bairro da Lapa.

Caio fazendo um “bico” na guitarra durante Territory. Foto: Freddy Krill


Terminada a apresentação, a banda atendeu aos que permaneceram no local, batendo papo e tirando com fotos, inclusive com a ROADIE METAL. Simpatia que contrasta perfeitamente com a rispidez do som da banda.

Claustrofobia e este redator ao final do show. Foto: Akio Monteiro

Eu já tinha falado sobre a perda de uma guitarra na banda e de como essa mudança fez com que a banda dobrasse a sua letalidade ao vivo. Tive essa impressão na apresentação que os caras fizeram na edição deste ano do Rock in Rio e você pode ler a resenha AQUI, mas nunca é demais exaltar como a banda ficou mais agressiva, mesmo com um integrante a menos.

Já do lado de fora, após tomar algumas cervejas com uns amigos e encarar os pedintes que frequentam os bares do reduto da boemia carioca, eis que encontro o frontman Marcus D’angelo e disse à ele que lembrei da sua música “Curva” (N. do R: presente no disco “Download Hatred” e que conta a história dos “malas” que não nos deixam tomar uma cerveja sossegados nos bares da vica) quando os inconvenientes que chegavam, uns atrás do outro, à minha mesa no bar. E ele soltou uma gargalhada, certo de que tinha razão quando escreveu essa letra.

Setlist CLAUSTROFOBIA:
Intro
Swamp Loco
Bastardos do Brasil
Thrasher
Pinu da Granada
Terror and Chaos
Download Hatred
Vira Lata
Metal Maloka
Children of the Grave
Peste

Paga Pau
Territory

Enfim, uma excelente noite em que o Heavy Metal foi celebrado em uma cidade que a cena agoniza, mas se mantém viva graças à paixão de alguns poucos bangers. Por mais eventos como este em 2020 e que o público se conscientize de que ele é tão importante quanto as bandas.

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