Resenha: Cirith Ungol – King Of The Dead (1984)

É claro que todo mundo gosta de ouvir um trabalho bem produzido. Um disco que tenha um som límpido, claro e cristalino. O chato é que, às vezes, a produção é tão apurada que acaba tirando um pouco da autenticidade da coisa. A maioria das bandas, com pouco dinheiro disponível no começo da carreira, optavam por gravar seus discos no estúdio mais barato que conseguissem, no horário menos concorrido, e concluíam tudo em 2 ou 3 dias. De Black Sabbath a Venom, passando por Twisted Sister, quase todos vivenciaram isso e, por consequência, deixaram para a posteridade os melhores discos já feitos! Obras impecáveis, de pura crueza e urgência, que contagiam pelo clima e peso próximos aos de uma apresentação ao vivo, porque era praticamente dessa forma que eram feitos. Para usar uma palavra mais em voga, pode-se dizer que esses álbuns tinham um som mais “orgânico”. Em quantos discos atuais você consegue ouvir, por exemplo, algo tão natural e humano quanto o simples som de deslize rápido dos dedos, em atrito com as cordas da guitarra quando muda de um acorde para outro???

Quando o Cirith Ungol gravou “King of the Dead” já não era mais estreante. Estava em seu segundo disco, mas reconheça-se que, apesar de hoje ostentarem o status de banda cult, o grupo nunca decolou de fato. Angariou fãs, é claro, e fez boa música, mas não chegou a conseguir firmar uma carreira autosustentável. Infelizmente, qualidade musical e sucesso comercial são conceitos que nem sempre caminham juntos… “King of the Dead”, disco de 1984, é, portanto, o típico trabalho realizado por uma banda pequena, através de uma produção econômica. Essa condição, porém, joga a favor do resultado final obtido. A rispidez generalizada deixou o som mais pesado, mais sombrio, e esse clima faz com que as músicas do grupo, que navegam na linha “guerreiro bárbaro empunhando uma espada”, ganhem mais dramaticidade, mais força de interpretação, pois soam tão rústicas tal qual eram rústicos os tempos nelas narrados.

Ao começar a ouvir o álbum é impossível não sentir alguma estranheza com o vocal de Tim Baker. O sujeito tem uma voz áspera, aguda e anasalada que soa diferente de qualquer outro vocalista que você já tenha ouvido. Demora um pouco para se acostumar, mas, depois de um certo tempo, percebe-se que o disco não teria o mesmo impacto se fosse de outra forma. O grupo só consegue funcionar com essa característica. Soa diferenciado da mesma forma que, por exemplo, Geddy Lee soava, no primeiro disco do Rush.

Mas não é somente ao Rush que o som do Cirith Ungol nos remete. Os riffs executados trazem muitos elementos que nos fazem lembrar algo como um Black Sabbath americanizado e, quando eu digo americanizado, quero dizer que o resultado é a mistura do som do Sabbath com o som das bandas ianques do fim dos 60 e começo dos 70, tal qual Cactus, Iron Butterfly e Mountain. Um som lisérgico, de uma época em que não haviam limitações bem definidas entre o que era Hard Rock e o que era Rock Progressivo. Um som que cativa não só pela vibração dos riffs pesados e gordurosos, mas também pelo prazer de ouvir solos de guitarra executados da forma correta, com começo, meio e fim, complementando o clima da música, e não uma massa amorfa de notas aremessada de qualquer forma em cima de uma base. “Death of the Sun”, “King of the Dead” e “Atom Smasher” são, portanto, músicas que não seriam estranhas caso tivessem sido lançadas 15 anos antes de seu tempo.

Na fusão da temática épica com a pegada Doom, anos antes que isso se popularizasse, foi que o Cirith Ungol diferenciou-se de seus colegas de estilo: se o Manowar transmitia imagens sonoras de guerreiros cavalgando rumo à batalha gloriosa, o Cirith surgia como o guerreiro retornando para o lar, coberto de sangue e de sujeira, mas com a guerra vencida e com os espólios conquistados!

 

Formação

Tim Baker – vocal

Jerry Fogle – guitarra

Michael Vujea – baixo

Robert Garven – bateria

 

Músicas

01.Atom Smasher

02.Black Machine

03.Master of the Pit

04.King of the Dead

05.Death of the Sun

06.Finger of Scorn

07.Toccata in Dm

08.Cirith Ungol

Compartilhe:

Tags

Sobre: Anderson Frota

Anderson Frota

"Anderson Frota é baixista da banda Asmodeus, de Fortaleza, e escuta rock e metal desde os 14 anos, indo desde os Beatles até o Napalm Death, desde o Yes até o Cannibal Corpse"

Você talvez também goste...

Comentários

Inscreva-se em nosso Feed

Esteja atualizado com tudo que acontece na cena Rock/Metal!

Siga-nos!

Comentários Recentes

Siga-nos os bons!