Podemos considerar a existência de, pelo menos, três tipos diferentes de biografias: a primeira é a autobiografia, onde o autor conta a sua história em primeira pessoa, geralmente apoiado por um escritor profissional, que ajudará a formatar o texto adequadamente; a segunda é a biografia autorizada, onde a personalidade ou banda retratada tem a sua história contada por um escritor contratado. Esse formato nem sempre funciona tão bem, pois não é raro que fatos, fases ou atitudes polêmicas sejam suavizadas na narração. É o que se costuma chamar, no jargão popular, de biografia “chapa branca”.

Por fim, há a biografia não autorizada, onde o autor assume a tarefa de desenvolver o seu texto mesmo que não possa contar com a colaboração dos envolvidos, mesmo que não consiga realizar todas as entrevistas que planejou, mesmo que tenha que se debruçar sobre todo o acervo vídeo e bibliográfico que puder obter, no sentido de traduzir uma linha cronológica fiel aos fatos.

Pelas dificuldades que esse último formato apresenta, não é raro que o texto fique sobremaneira mecânico, burocrático, e eu já tive oportunidade de ler alguns livros dessa espécie, onde tive que usar de toda a persistência para chegar até o final. Dito isso, posso afirmar que “Chris Cornell – A Biografia” é, sem qualquer dúvida, uma das melhores biografias não autorizadas que já li, contrariando todos os pré-conceitos colocados na minha definição!

Corbin Reiff, o autor, tem trabalhos junto a algumas das principais publicações musicais do planeta, tais quais Rolling Stone, Billboard, SPIN e Ultimate Classic Rock, entre outras, além de ter acompanhado de perto uma boa parte do movimento musical de Seattle durante sua mais áurea fase. Não foi preciso ir muito longe para que o livro me capturasse, pois, logo no primeiro parágrafo do capítulo de introdução, a forma como ele descreve que tomou conhecimento da morte de Cornell foi muito próxima da minha própria experiência, visto que acordei cedo naquela manhã do dia 18 de maio de 2017, liguei meu notebook e, ao me deparar com a notícia, tratei de apurá-la para, imediatamente, escrever uma nota para os leitores da Roadie Metal, fazendo isso ao mesmo tempo em que lamentava a partida do artista que registrou um dos discos mais importantes de minha vida, o álbum “Badmotorfinger”, lançado pelo Soundgarden em 1991.

A escrita de Reiff é cativante e, através da excelente tradução de Marcelo Vieira, traz o leitor para um lugar de destaque no transcurso dos fatos. O autor não busca simplesmente arremessar-nos dentro de uma torrente de informações, mas tem a delicadeza de iniciar cada novo capítulo como se descrevesse um fotograma distante e fosse, gradualmente, através de um zoom, aproximando-nos do momento retratado. O capricho da edição nacional feita pela Editora Estética Torta também auxilia nessa imersão, pois a capa dura, em preto, branco e cinza, juntamente com a pintura lateral das páginas, já entrega uma embalagem que mistura beleza e tristeza, tal qual foram tantas das composições de Cornell.

A informação de que esse não é um livro sobre o Soundgarden, e que não foca em contar a história da banda, pode ser tida como uma meia-verdade, pois não haveria como não cobrir a vida de Cornell sem abordar diversos detalhes sobre a carreira e as composições do grupo que ele fundou e consagrou, bem como também o Audioslave. Tal qual numa montanha-russa, há uma sensação constante de ascendência até o momento culminante que foi o álbum “Superunknown”, de 1994. A partir daí, as emoções vão se alternando entre vitórias e revezes, ganhos e perdas, encontros e desencontros de sentimentos que parecem tentar nos preparar para as súbitas guinadas que dominaram o decorrer do último dia desse artista que nos deixou cedo demais, mas que entregou a sua arte com toda a intensidade que possuía na alma. Esta biografia faz jus a esse legado.