Todo mundo já sabe, mas não custa nada lembrar. Os anos 90 foram um período difícil para as bandas de Heavy Metal de estilos tradicionais, muito por conta do advento do Grunge na primeira metade da década e do Nu Metal na segunda, além de mudanças providenciais em formações clássicas. Mas a década de 90 também foi uma época de experimentações e ousadias musicais; algumas delas bem-sucedidas e aprovadas, outras delas condenadas pelo tribunal dos fãs. Uma das bandas que sofreu com este período turbulento foi o Candlemass, principalmente na segunda metade da década, lançando álbuns sem sua essência clássica somente para agradar gravadoras. Mesmo assim, um compositor do gabarito de Leif Edling não deixaria de compor trabalhos no mínimo ótimos no início deste período, sabendo se atualizar e forjar seu Doom Metal com os moldes do som da nova década.

O limiar dos anos 90 viu o Candlemass consolidado como uma das mais importantes bandas de Heavy Metal surgidas nos últimos anos, devido ao seu pioneirismo no chamado Epic Doom Metal, onde o grupo explora seu Doom Metal ensinado pelo Black Sabbath e pelo Pentagram, mas com músicas longas e repletas de arranjos mais trabalhados, adornados por vocais operísticos e dramáticos. Os álbuns Epicus Doomicus Metallicus (1986), Nightfall (1987), Ancient Dreams (1988) e Tales Of Creation (1989) são clássicos irrepreensíveis não só do Doom Metal, mas do Metal em geral. Um dos responsáveis pelo sucesso da banda sueca foi o vocalista Messiah Marcolin, graças a sua poderosa e dramática voz e sua figura caricata. Todavia, a eterna briga de egos entre Messiah e o baixista e líder Leif Edling resultou na saída do cantor em 1991. O vocalista Thomas Vikström recebeu a árdua missão de substituir não só a voz, mas também o carisma que fazem de Messiah Marcolin o vocalista mais saudoso por parte dos fãs do Candlemass. Sua estreia se deu no quinto álbum de estúdio do grupo, Chapter VI, lançado em 25 de maio de 1992 pela poderosa gravadora Music For Nations.

As mudanças que o Candlemass trouxe para a nova década já começam pela capa. A tradicional logomarca em letras góticas que estampava fragmentos de pinturas etéreas foi substituída por uma fonte mais simples que sobrepujava um fundo escuro com rabiscos. E não ficava só por aí.

Produzido por Leif Edling e por Rex Gisslén, a sonoridade de Chapter VI é menos densa e mais artificial e moderna, em comparação com os registros anteriores, sem contudo deixar de lado o peso característico da banda. Sobre o novo cantor, cabe aqui um comentário: para se credenciar a vaga de vocalista do Candlemass, o cantor precisa ser, em suma, “top de linha”. Registrar vocais altos e performáticos como os que as músicas do Candlemass exigem é para poucos (o atual vocalista não é um deles, me perdoem. Mas quem sabe é Leif Edling, que não parece estar mais nem aí para a banda). Prova disso é a escalação de nomes que por lá já cantaram, como Johan Längqvist, Messiah Marcolin e Robert Lowe, a Voz do Doom. Três vozes únicas, profundas e passionais. Thomas tem um estilo diferente destes três. Sua voz rouca nos remete a Tony Martin (ex-Black Sabbath). Junto com a voz de seu novo vocalista, Leif resolveu fazer experimentações em seu Doom Metal, deixando de lado a abordagem predominantemente épica e apostando em um lado mais tradicional, bastante similar ao que o Black Sabbath estava fazendo na mesma época.

Leif Edling, Lars “Lasse” Johansson, Thomas Vikström, Jan Lindh e Mats “Mappe” Björkman

A porrada The Dying Illusion abre o disco de maneira pesada e rápida, com riffs que são similares aos usados no Power Metal e com forte presença de teclados, algo que era novidade no som do Candlemass e que apareceria fortemente no restante do disco. A curta e eficiente Julie Laughs No More mostra um lado mais acessível da banda, fruto de atitude rara de Edling: dividir composições. Neste caso, com o guitarrista solo Lars “Lasse” Johansson. A dupla também assina a faixa 6, Aftermath, e a faixa 8, The End Of Pain.

Lasse, por sinal, é um dos maiores destaques de Chapter VI. Seus solos neoclássicos recheiam as composições deste disco com muita maestria. Exemplo disso é sua participação em Where The Runes Still Speak, um épico de mais de oito minutos que é a composição deste álbum mais próxima do Candlemass clássico dos anos 80, dado seu riff soturno e ritmo lento. The Ebony Throne tem um belo riff, que é manchado por um desnecessário timbre ovnístico de teclado que o dobra quatro oitavas acima. Destaque aqui para a condução em pedais duplos do baterista Jan Lindh. Um riff à la Celtic Frost seguido de uma dobra de guitarras em ritmo marcial conduz a excelente Temple Of The Dead.

Mas uma composição da dupla Edling/Johansson é a sabbathiana Aftermath, onde Vikström mostra toda sua destreza com agudos. Em seguida, a cadenciada e pesada Black Eyes destaca o trabalho de guitarras de Johansson e do guitarrista-base Mats “Mappe” Björkman. The End Of Pain marca o fim do álbum Chapter VI, sem dor alguma, mas sim com um Doom mais groovado, o que não me impediu de lembrar das músicas cadenciadas do Stratovarius, também pela cama de teclados que cria uma atmosfera de suspense.

Após o lançamento de Chapter VI, o Candlemass entrou em turnê com seu novo vocalista, que foi bem recebido pelos fãs. Mas a baixa vendagem do álbum, aliado a vontade de Leif Edling de querer explorar novas facetas musicais, fez com que a banda se separasse no ano de 1994. Apesar de essa vontade já se mostrar exaltada neste disco, Chapter VI mostra um Candlemass versátil, ousado, diferente e muito bom! O peso e a essência que são marcas registradas da banda sueca estão lá, intactos, tão-somente com uma roupagem mais atualizada para a década. De uma forma ou de outra, o melhor mesmo é ver o Candlemass praticando o que sabe fazer melhor: Epic Doom Metal.

Chapter VI – Candlemass (Music For Nations – 1992)

Tracklist:
01. The Dying Illusion
02. Julie Laughs No More
03. Where The Runes Still Speak
04. The Ebony Throne
05. Temple Of The Dead
06. Aftermath
07. Black Eyes
08. The End Of Pain

Line-up:
Leif Edling – contrabaixo
Thomas Vikström – vocais
Lars Johansson – guitarra-solo
Mats “Mappe” Björkman – guitarra-base
Jan Lindh – bateria