Resenha: Aporya – Dead Man Do Not Suffer (2017)

O Doom Metal é um gênero tão frio que se torna compreensível o fato de que ele não seja popular no Brasil, um país tropical e de pessoas idem. Entretanto, como a música rompe barreiras, quer sejam naturais, quer psicológicas e de personalidade, o Brasil tem sim nomes fortes que representam com louvor o Gênero Maldito. Cabe ainda lembrar que o Doom Metal nacional foi concebido no Nordeste, mais precisamente na Bahia, graças ao The Cross. Uma região quente e de paisagens desoladoras. Mas, dada a garra do nordestino, tão dura quanto um iceberg, o Doom Metal tem força aqui. Basta pesquisar e você se surpreenderá com a qualidade do Doom nordestino.

Pois bem. Uma das representantes do gênero no Nordeste é a banda Aporya, do estado da Paraíba. Formada por Tiago Monteiro (vocais, Flamenhell) e pelo fundador Cristiano Costa (todo o resto) em 2016, a banda chegou em 2017 lançando seu primeiro full-length, o conceitual Dead Man Do Not Suffer. As letras das canções aqui compostas se baseiam na temática da morte e nos sentimentos que sua passagem causa nas mentes de quem assiste sua ação. Musicalmente falando, o grupo aposta num Death/Doom ora agressivo, ora introspectivo, conseguindo obter uma boa variação entre suas facetas sonoras e de ritmo.

Explica-se.

O álbum abre com o som de um projetor de filme sendo ligado, seguido por um belíssimo solo de guitarra por parte de Cristiano, algo que será latente ao longo de toda a audição do álbum. As bases de teclado reforçam o sentimento depressivo que a música exala. E olha que isto foi apenas a intro Blood Rain, e mal se nota que ela tem um comprimento de 3:40. Em seguida, a banda detona qualquer quarteirão com o Death Melódico de Cry Of The Butterfly. Os arranjos e dobras de guitarra desta música remetem o ouvinte ao trabalho típico do Amon Amarth.

O trabalho de guitarras de Cristiano Costa se sobressai a todo momento, seja em solos, seja em ritmos. Além de ser um guitarrista técnico, ele é dono de um senso de composição apurado, conseguindo transpassar todo o sentimento melancólico que o Doom Metal exige. Os vocais de Tiago Monteiro são cavernosos e angustiantes, mais parecendo uma pessoa em seus momentos finais de depressão e de vida.

Da faixa 03 em diante, o Doom Metal prevalece. Os ritmos lentos conduzem o álbum rumo a atmosferas densas e soturnas. Nota-se influência de Paradise Lost, Anathema e Saturnus (vide a faixa The Sad Tragedy (I’m Crushed Down) ), mas a banda consegue pegar essas influências e moldá-las de acordo com a sua personalidade, algo essencial para qualquer banda hoje em dia.

Little Child In The Grave é emotiva e viajante, enquanto a música One More Day mais parece uma balada oitentista, tendo em vista as dobras de guitarra. Mas, com a devida concentração, consegue-se captar a essência triste de mais esta grande composição. Pain And Loneliness é soturna e arrastada, pavimentando o caminho para a faixa-título, uma composição primorosa que encerra de forma colossal e fúnebre este álbum. Nos últimos segundos do disco, pode-se ouvir o projetor de filme sendo desligado, fazendo o elo com o começo do disco.

A produção e a mixagem de Dead Man Do Not Suffer ficaram a cargo do próprio Cristiano Costa, que conseguiu deixar todos os instrumentos soando nítidos, mas com um destaque maior para as guitarras. Os vocais de Fábio soam naturais, tão naturais que mais parecem ventos que escoltam a morte e deixam a mente do ouvinte em rodopios.

Penso que, para balancear melhor as coisas, uma composição tão agressiva quanto Cry Of The Butterfly poderia figurar também mais para o meio do álbum, que me pareceu uma balança: uma música bastante pesada logo após a intro, e composições lentas e introspectivas ocupando todo o resto do álbum. Afora este detalhe, temos aqui um grande álbum de Death/Doom: melódico, técnico, pesado e atmosférico. Técnica aliada a feeling e senso de composição é uma combinação infalível, que o Aporya conseguiu explorar aqui com primor.

Sem tomar conhecimento do Sol causticante do Nordeste, várias bandas conseguem criar e externar a frieza e a introspecção do Doom Metal nesta região. O Aporya é só uma amostra da riqueza do estilo que se encontra nas Terras Áridas. Se só essa amostra já se apresenta tão valiosa e perfeita, imagine se formos atrás do pacote completo. Que o Aporya não morra; pelo contrário, tenha vida longa e mostre para o Brasil e para o mundo a qualidade de nosso Doom, que não deixa nada a dever para os grandes nomes do estilo.

 

Dead Man Do Not Suffer – Aporya (independente, 2017)

Tracklist:
01. Blood Rain
02. Cry Of The Butterfly
03. The Sad Tragedy (I’m Crushed Down)
04. Little Child In The Grave
05. One More Day
06. Pain And Loneliness
07. Dead Man Do Not Suffer

Line-up:
Tiago Monteiro – vocais
Cristiano Costa – guitarras, baixo, bateria, teclados

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Sobre: Bruno Rocha

Bruno Rocha

"Cearense de Caucaia, estudante e professor de Matemática, cafélotra e torcedor do Ferroviário. Desde a adolescência caminha nas veredas da música pesada e desde então é um aficionado e pesquisador de seus diversos gêneros e épocas. Tem preferência pelo Doom Metal, mas flutua facilmente de Burzum a Kraftwerk, passando por Stratovarius e por Genival Santos. Também atende pela Blitz Metal e pelo Whiplash."

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