Resenha: Angra- Fireworks (1998)

by Nildo Gomes

      Terceiro e último álbum de estúdio com a formação clássica, Fireworks nos brindou os ouvidos com mais uma amostra de que o virtuosismo, tanto instrumental quanto vocal, podem muito bem estar intimamente aliados ao feeling e expressividade que possuem o poder de prender o ouvinte. Juntamente à cozinha sempre coerente comandada por Luís Mariutti (baixo) e Ricardo Confessori (bateria), a dupla de guitarristas formada por Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro teve base consistente para desenvolver riffs, solos e dobras melódicas marcantes que ainda hoje são objeto de admiração e estudo, deixando assim, um campo fértil e perfeito para a inserção do já então consagrado vocal de André Matos.

      A primeira faixa, que leva o título Wings of Reallity, já vem com o poder de transportar o ouvinte a um clima de libertação com uma introdução marcante. Os elementos de música tipicamente brasileira, já se fazem presentes aos 0:48, o que traz à tona mais uma vez, a certeza de que estamos diante de um grande time de músicos versáteis.

      Na segunda faixa, Petrified Eyes, dentre os muitos elementos dignos de destaque, se sobressaem o vocal poderoso de André Matos já nos primeiros versos (atenção especial dos 01:11 aos 01:22), com drive na medida certa e seus já tradicionais agudos metálicos e bem apoiados. Para os amantes de harmonias intrincadas e surpreendentes, o trecho que vai dos 03:18 até 04:04 traz uma agradável oscilação entre escala menor harmônica e menor natural protagonizada por contrapontos entre guitarra e voz que desaguam numa dobra entre os guitarristas ao término desta intervenção.

    Por conseguinte, em Lisbon, logo de início já se pode pensar “sim, este é um genuíno álbum de Power Metal!” A introdução remetente à música clássica já deixa claro os rumos que a música tomará. Pode se dizer que a banda foi bem mais econômica, tanto harmônica quanto melodicamente, o que não necessariamente implica em queda de qualidade. O refrão da mesma que não me desmente!

    A quinta faixa batizada de Metal Icarus (incrível como a lenda de Ícaro é abordada em meio às temáticas líricas no Metal), traz guitarras agressivas e virtuosamente executadas, sem deixar-se perder no vício da técnica pela técnica. Com graves pesados por parte do baixo em contraste com os vocais extremamente agudos e de timbre brilhante, a música também traz um refrão daqueles que nos dão vontade de gritar a plenos pulmões, seja afinadamente (tarefa bem difícil) ou não. Aliás, qualquer coisa que se proponha a reproduzir instrumental ou vocalmente nessa música, constitui-se em tarefa Hercúlea.

     Na faixa seguinte, há de se destacar o conteúdo lírico, capaz de transportar o ouvinte a uma nítida cena de um espetáculo grotesco onde o sangue e a morte de gladiadores são personagens principais. A metáfora dos “demônios com mil olhos”, exemplifica bem o prazer mórbido que sentia-se outrora e ainda sente-se hoje diante da violência. No tocante ao aspecto harmônico, faz-se visível a capacidade dos músicos de criar o clima instrumental adequado ao que a letra se propõe a narrar. Com essa quantidade de elementos positivos, Paradise se apresenta como a faixa mais interessante do álbum.

     Algumas bandas nos fazem questionar se estamos ouvindo um álbum ou assistindo uma master class de música. Com uma introdução calcada em dobras melódicas de guitarra ao melhor estilo Iron Maiden, a oitava faixa que leva o nome de Mystery Machine, vem repleta dos elementos que já tinham consagrado o Angra como um pilar do Metal brasileiro. Destaque para o final da mesma, que se dá repentina e surpreendentemente, sem resolver a progressão harmônica, causando propositalmente a sensação de “faltou só um acorde e eles não terminaram de propósito!”.

      Na faixa que dá nome ao álbum, não rítmica, mas melodicamente, a música nordestina está lá! O modo mixolídio e as estruturas e disposições harmônicas típicas do mesmo, se fazem presentes mais uma vez. O que deixa bem claro ao mundo, sem necessidade de explicações verbalizadas, que trata-se de uma banda que apesar de ser Metal em sua proposta principal, não nega suas origens e leva orgulhosa a bandeira de nosso país por onde passa!

     Com uma introdução que remete a um clima bem oitentista, a faixa Extreme Dream vem com vocais bastante limpos e delicados (até pros padrões de André Matos). O solo, virtuoso e quase humanamente inalcançável se mostra como o menos expressivo do álbum, deixando um vazio em quem gosta de uma história bem contada dentro de uma melodia.

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     Em contraponto à faixa anterior, quando se ouve Speed, a sensação que fica é que se está degustando uma obra que faz jus ao nome que recebe. Haja velocidade! Se você é guitarrista, aí está uma ótima chance de desafiar a si mesmo. Já se você for vocalista, deixo um conselho: PULE A PARTE QUE INICIA AOS 04:40!!!! Sério, não ouça! É um daqueles momentos que nos fazem questionar se Matos no fim das contas não seria um homem que nasceu com laringe feminina! E nós não queremos que ninguém aqui desista de ser cantor, não é?

    Encerrando a audição, temos Rainy Nights, uma balada que vem contra tudo o que foi apresentado ritmicamente ao longo desse álbum. É uma daquelas músicas que você não pode ouvir apenas por ouvir, que não existirá plenamente em significado sem a interação de letra e instrumental. Daquelas que você pode colocar os fones e viajar, praticamente lhe dando um descanso após a tempestade trazida anteriormente. Vale a pena conferir e degustar faixa por faixa desta despedida de um Angra que jamais veremos novamente.

Faixas

1. Wings of reality

2. Petrified Eyes

3. Lisbon

4. Metal Icarus

5. Paradise

6. Mystery Machine

7. Fireworks

8. Extreme Dream

9. Gentle Change

10. Speed

11. Rainy Nights (Bonus)

Line Up

André Matos- Vocais, piano e teclados

Kiko Loureiro- Guitarra

Rafael Bittencourt- Giutarra

Luís Mariutti- Baixo

Ricardo Confessori- Bateria

  • 8/10
    - 8/10
8/10

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