Desde o seu início imediato, a canção desfila um equilíbrio nos quesitos de produção e mixagem que chegam a impressionar. Explorando perfeita sintonia entre os aspectos da harmonia, do ritmo e da melodia, a faixa combina o dulçor ácido e tremulante do teclado com uma guitarra de riff aveludado e uma bateria pulsante e tilintante que oferece um bom embasamento folk. Instrumental e com elementos de conotação psicodélica unidos à textura cuidadosamente ríspida do shaker, Cowboy Armageddon se configura como um prelúdio marcante.
Trazendo consigo uma interessante silhueta sensual a partir da maneira com que a guitarra explora o seu riff, a composição é tomada por um escopo rítmico de pulsos mais firmes e enfáticos que acompanham uma desenvoltura harmônica linear que, ainda assim, consegue preencher os espaços sônicos restantes com boa versatilidade. Liricamente guiada por uma voz masculina de nuances azedas, a faixa-título consegue encapsular a verdadeira essência rebelde e desafiadora do álbum: como a tecnologia mantém o indivíduo dentro de um mesmo ambiente manipulativo.
Aqui, o Motihari Brigade alça voos mais ousados e audaciosos em relação às canções anteriores do álbum. Isso acontece simplesmente pelo fato de que não apenas porque a bateria assume uma identidade eletrônica, mas pelo motivo de que o sintetizador adquire grande destaque no desenho sônico explorado. Apresentando esse instrumento diante de bons holofotes desde o início do escopo melódico, a faixa alcança um swing mais dançante que chega a flertar, em certos aspectos, com a paisagem da new wave. De versos líricos puxados já a partir do refrão, Chatbot Don’t Like It continua a linha reflexiva da faixa anterior ao salientar que o chatbot não gosta daqueles que questionam seus termos de serviço, trazendo, uma vez mais, a manipulação como centro da narrativa.
Com uma harmonia vocal afiada e completamente sincronizada, a canção, sem qualquer sinal de dificuldade, esboça desesperança e até boas doses de uma melancolia pegajosa. Ainda assim, no tom de seus cantores existe um sinal de resiliência e resistência que motiva o ouvinte a continuar de cabeça erguida e a enfrentar o domínio tecnológico. Combinando duas guitarras sob efeito lap steel e um ritmo cuidadosamente sincopado, Save Ourselves traz elementos tipicamente folkeados, como o já citado lap steel e, agora, a textura levemente áspera do shaker. Dessa forma, a canção explora simplesmente a ideia de um novo salvador para tirar a humanidade do caos em que se encontra.

O que Problematic apresenta ao ouvinte, durante sua track list total de 13 faixas, é uma história linear que esboça um posicionamento questionador, audacioso e desafiador por parte do Motihari Brigade. Tomado pelo folk e pela música raiz estadunidense como a base de sua esfera rítmico-melódica, o disco ainda se destaca por fornecer harmonias muito bem trabalhadas, sejam elas instrumentais ou vocais.
Caminhando livremente entre a introspecção, o torpor, o expansivo e o reflexivo, o disco não é um material que serve apenas ao simples divertimento de sua audiência. Eis aqui um convite sônico para uma análise mais contundente sobre a relação social com a tecnologia, de forma a avaliar a força que ela exerce sobre os atos e os comportamentos individuais.
Ainda que tais aspectos estejam mais presentes no decorrer das quatro primeiras músicas do disco, é certo que outros títulos têm semelhante força na disseminação dessa mensagem. The Great Refusal, além de ter um baixo marcante e em evidente protagonismo, reforça a ideia de manipulação no universo tecnológico; e Ten Years After, com seu blues em formato tradicional, se aventura na reflexão da repetição dos atos governamentais em diferentes décadas perante diferentes cenários. Com elas também na lista, Problematic enfatiza seu espírito desafiador de pensamento crítico na era do algoritmo de curadoria artificial.
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