A banda alemã Obscura faz uma mistura de heavy metal progressivo com death metal, assim, criando um som único e pessoal. Nesse momento, eles estão se preparando para sua turnê na América do Sul e o lançamento do primeiro álbum ao vivo, A Celebration I.

Para falar sobre os 20 anos da banda, a turnê que passará pelo Brasil no dia 29 de outubro e os planos futuros, o vocalista Steffen Kummerer concedeu uma entrevista para a Roadie Metal e você pode conferir tudo abaixo.

Vamos começar! Como você está e onde?

Steffen: Estou bem, estou aqui no meu estúdio na Alemanha, mais ao Sul, na verdade, perto de Munique. As coisas estão bem, estamos preparando tudo para nossa próxima turnê, então visitaremos o Brasil pela primeira vez e queremos estar preparados.

E está frio aí? Porque está extremamente quente aqui no Brasil, estamos tendo essas ondas de calor que não são normais, é sempre quente aqui, mas não dessa forma. Então meu conselho é: Se preparem porque vai estar bem quente aqui.

Steffen: Nós estaremos preparados, com certeza, não vejo a hora de chegar aí.

Foi minha primeira vez ouvindo a banda ontem quando eu descobri sobre a entrevista, o que é ótimo porque eu consigo conhecer novas bandas fazendo essas entrevistas. A primeira vez que eu ouvi Obscura me impactou, primeiramente por causa da melodia, do instrumental, o jeito que vocês compõe é mais técnico, mais progressivo. Quando você começou a banda era bem jovem, em 2002, como você decidiu usar esse estilo de música com as guitarras e tudo sendo bem rápidos e muito progressivo, mas com uma técnica impecável?

Steffen: Nós começamos a banda com uma mistura de interesses de todos os membros e não éramos técnicos ou progressivos no começo, foi algo que acabamos nos tornando. Eu peguei a guitarra pela primeira vez em março de 2002, e em outubro nós montamos a Obscura, foi a primeira banda que eu montei na vida e eu ainda mantenho. Eu comecei como um guitarrista medíocre eu tocava há meio ano e você vai aprendendo a tocar guitarra enquanto toca guitarra, podemos dizer. Tudo que fizemos com a banda desde o começo até agora é apenas evolução, a história do que estou fazendo e o meu instrumento, não foi a intenção de tocar músicas muitos complexas, era apenas a intenção de tocar música com meus amigos em um local, ficar juntos e se divertir. Foi a verdadeira intenção desde o começo, mas conforme a banda foi se tornando mais séria, é claro, você se senta, pratica, ensaia, aprende mais e mais. Nós não começamos como uma banda mais técnica ou progressiva, ela foi crescendo para isso porque nós nos interessamos em ver até onde podemos ir, não só na parte técnica, mas ritmo, escolhas na harmonia que não são utilizadas por alguma razão. E a banda se tornou o que é agora e conseguimos fazer turnês internacionais. Claro é que o nicho muito pequeno, mas as pessoas amam o que a gente faz e temos uma fanbase muito leal e podemos tocar para as pessoas que amam esse nicho tanto quanto a gente. Sou muito grato por isso.

O que também chamou a minha atenção é que a música é bem técnica, mas os vocais são mais cru, com screams e guturais, mais death metal. São meio que opostos, mas combinam juntos muito bem. Você disse que começou a acontecer conforme o tempo, mas foi intencional fazer essa combinação ou foi algo que você gostava e achou que encaixaria bem?

Steffen: Eu acho que não foi intencional, nós apenas unimos a música que amamos e, na época, estávamos ouvindo muito black metal, death metal e bandas com essa técnica vocal que surgiu na época então usamos. Mas também incluímos diferentes estilos, então você também encontrará vocais limpos, vocais mais rock n’ roll, nós temos alguns corais para entregar, vozes eletrônicas, apenas para usar um pouco de tudo e manter a música interessante. E para isso, às vezes, você precisa de uma paleta diferente, é como uma pintura, você não quer pintar tudo de azul. É legal na primeira e segunda vez, mas depois você precisa trazer uma nova paleta e mudar os estilos vocais. Às vezes temos vocalistas convidados. É apenas esse sentimento interno de que algumas coisas vão funcionar ou não. Até agora tem sido uma diversificada discografia, nós estamos nos preparando para trabalhar no nosso sétimo álbum agora depois de 22 anos, então é bem legal, nunca entregamos um álbum ruim ou um experimento destorcido, nunca mudamos nosso estilo, nós só vamos crescendo isso.

É incrível que você tem o seu estilo e vai melhorando, cada álbum é diferente. Nesses 20 anos, você viu coisas que mudou drasticamente na banda ou precisava mudar, e coisas que você decidiu que manteria dessa forma desde o começo dos anos 2000 e essa é a forma que quer manter a banda? Como você vê esses 20 anos de Obscura?

Steffen: A atitude nunca mudou, é sempre uma mistura do que queremos fazer e já que estamos trabalhando em um nicho, nós não escrevemos música para uma certa audiência, sempre escrevemos as músicas que amamos, então somos sempre verdadeiros com nós mesmos. E não quero mudar isso porque não temos, não somos artistas pop, não temos que entregar certos números ou ganhar certas quantias, não é nossa intenção. O que mudou muito é que: primeiro a comunicação, quando começamos na música, não tinha celulares, então era um pouco diferente e escrevíamos a nossa música em uma sala, hoje em dia não vivemos nem no mesmo continente. Alguns moram nos Estados Unidos, outros no México, eu na Alemanha, outros na Áustria, é ridículo, mas funciona muito bem. Escrever música mudou muito, mas também para melhor. Aprendemos a nossa lição em como fazer porque agora com o computador você pode fazer tudo, mas quando está no palco, você percebe que era uma má ideia. Se você escreve músicas muito complexas, dificulta nas turnês, mas se você mistura, tem o melhor dos dois mundos. Eu sempre soube que usar tecnologias, softwares, de alguma forma é tentadora, mas você precisa ter um equilíbrio. E com os anos, tocando com banda, melhor nós entendemos o que nos beneficia, nosso som, a banda e o que pode ser do futuro. Eu acho que sempre mantivemos a mais nova evolução tecnológica, mas também nunca mudamos. Eu não sei, nós tivemos eventos horríveis nos últimos anos, discutindo, e não falamos mais a respeito, mas quem sabe, eu tentarei. Eu acho que isso também é importante, você sempre terá que estar aberto para coisas novas, sempre tentar coisas novas. Mesmo que você odiar as suas ideias, vá em frente. Eu vi um cara com 90 anos que comprou um iPhone semana passada e testou todos os aplicativos, só um exemplo, mas se você mantiver sua criança interior e sua mente aberta, eu acho que nada vai dar errado. É isso que eu quero manter como banda e como pessoa.

É uma ótima filosofia. E todas essas mudanças, você teve na banda também, os novos membros mudaram algo na forma como você escreve suas músicas ou é do mesmo jeito, eles não interferem? O que ter esses novos membros traz para o Obscura?

Steffen: Eu dou as direções quando se fala de música, mas se tivermos um novo membro na banda, eu quero dá-lo a oportunidade de brilhar. Por exemplo, eu trabalhei com um baterista que gostava muito de diferentes tempos e estranhas assinaturas e a paleta de técnicas eram incríveis, então, é claro que eu quero mostrar isso. Eu também gosto de música que dá espaço para essas ideias. O último baterista que gravamos não tem limites quando se fala de velocidade. Ele consegue tocar super rápido, é absolutamente ridículo. E, com certeza, eu quero mostrar isso. São tantos músicos diferentes que eu trabalhei e minha filosofia é de mostras as forças de todos. Nós esperamos um certo som da banda, eu vou dizer que depois do terceiro ou quarto álbum nós achamos nosso próprio som para o nosso pequeno nicho e sabemos como a banda soa. Mas com a mudança de cada membro, muda um pouco, então pela minha perspectiva, cada álbum, não interessa quem escreve as músicas, mas cada membro que inclui algo. Se eu mudar o baixista, que não compõe nenhuma música, mas toca de uma forma completamente diferente que o anterior, o álbum inteiro será diferente.

Estou perguntando muito sobre mudanças, acho que esse é o tema da minha entrevista. Vocês também mudaram de gravadora, agora estão com a Nuclear Blast, e vocês lançaram o álbum A Valediction. Como foi essa experiência, algo muda com a nova gravadora, ou você tem a liberdade de fazer o que você quer? Até o processo de composição, qual foi a sua inspiração para escrever esse álbum? Como foi o processo de gravação?

Steffen: Gravar foi algo novo para nós porque todo o álbum foi produzido durante a pandemia, então na Europa tudo estava fechado, não tenho certeza como foi no Brasil.

Aqui também.

Steffen: Aqui tudo estava muito restrito e não podíamos nem gravar no mesmo estúdio, tivemos que cancelar os dias de estúdio que foram agendados. Tudo teve que ser reagendado. Foi uma dor de cabeça. Tivemos que gravar em diferentes estúdios. No fim, todos os arquivos foram enviados para o Estúdio Fredman, na Suécia, e eu fui para lá para trabalhar na mixagem e ajustar pequenas partes. No final, o álbum soa muito bem e, apesar de não estar no mesmo local que os outros caras, o que foi algo que eu senti muita falta, a qualidade do álbum é absolutamente a mesma. O que é ótimo! O que tocamos é muito técnico e requer muita preparação, então a maior parte das decisões artísticas, você faz na pré-produção enquanto conversa com os membros da banda, trabalha novos arranjos e tudo. No estúdio, você foca em entregar a melhor performance possível. Durante a pandemia, claro, você podia conversar por Skype, mas quando é sobre gravações, eram engenharias diferentes. No final, nó entregamos os samples para Fredrik Nordström e, assim, foi um pouco diferente gravar o álbum dessa forma, mas é entregue exatamente a mesma coisa para a audiência. Quando falamos sobre o novo álbum, que estamos trabalhando nesse momento, eu acho que podemos trabalhar com uma combinação dos dois. A pandemia nos ensinou que não precisamos estar na mesma sala para gravar, compor e produzir um álbum.

É o lado bom da tecnologia! E agora vocês estão lançando um novo álbum, que é ao vivo. Eu ouvi antes da nossa entrevista, é incrível, parabéns. O que mais me chamou atenção foi que era um álbum ao vivo, mas é tão impecável, perfeito, que soava como um álbum de estúdio. Eu ouvia as pessoas nos shows gritando, mas o resto da gravação soava como se viesse de estúdio. Como foi o processo de gravação durante os shows? E o que eu mais estou interessada sobre isso é que vocês decidiram usar as gravações da América do Norte. A maioria das bandas fazem shows ao vivo em grandes festivais na Europa, mas vocês decidiram usar a América. Foi uma jogada de marketing ou foi para mostrar a energia dos fãs americanos? Por que vocês decidiram gravar na América do Norte?

Steffen: A gente tem o plano de gravar e lançar mais desses álbuns ao vivo. Esse chama A Celebration I, então haverá um Celebration II, III e IV.

Essa era uma das minhas perguntas. (risos)

Quando fomos para a América Central, também gravamos tudo, então tentamos um sistema de gravar tudo e todos os dias. Tudo que fizemos no show foi gravado e, no fim, nós escolhemos as melhores músicas de cada show. Tínhamos um grande arquivo com tudo com o plano de lançar mais tarde. Com os Celebrations, nós sempre quisemos lançar um álbum ao vivo para cada continente. A ideia por trás é, simplesmente, não fazer apenas, como você comentou, um festival, que você tem uma tomada. Na América do Norte, nós fizemos duas turnês grandes e gravamos mais ou menos 80 shows e conseguimos escolher as melhores audiências e shows que não tivemos dificuldades ou algo do tipo. Na América do Norte, eu acho que nos primeiros anos, foi difícil para as pessoas se conectarem com a maioria dos nossos álbuns. Nós assinamos com a Relapse Records em 2008 e o primeiro álbum, Cosmogenesis, foi lançado em 2009, nós fizemos a nossa primeira turnê lá, e esse foi o primeiro lançamento internacional da banda. Nós pensamos: “Ok, vamos marcar aqui onde tudo começou”, em uma visão profissional. Claro que fizemos turnês anteriormente, mas não nesse nível. Então quisemos fazer isso, queremos lançar álbum ao vivo da América Central, América do Sul, Ásia, Europa, mas eu acho que é mais interessante mostrar diferentes países, não apenas do continente. E incluir a audiência, nossa fanbase, um pouco mais. Se você assistir os videoclipes que lançamos até agora, por exemplo, Emergent Evolution, há algumas semanas, foi gravado no México e você também vê cenas do lugar. Então separamos em 1/3 de cenas da banda, a audiência e o país, as impressões que tivemos de lá. E eu acho que isso é algo que poucas pessoas fizeram anteriormente, até onde eu sei. Isso é uma conexão entre o país, a banda, o público e todos eles celebrando a música. Eu acho que isso é legal. Acredite, com álbuns ao vivo, é um projeto divertido que queremos fazer, também dar algo em retorno porque não tem nada melhor do que se ver, como fã, em uma gravação ao vivo da sua banda favorita. Algumas pessoas nos escrevem e falam: “Eu me vi em Nova Iorque”, ou Los Angeles, ou outro lugar. É um projeto muito divertido e só fazemos por isso. Não faz sentido, é só diversão.

Isso é ótimo! Eu adorei! Eu ia mesmo te perguntar sobre o clipe, eu assisti e tinha uma noiva na rua, é incrível que vocês mostram a cultura, o dia a dia. A forma como vocês usaram para filmar, a fotografia, era meio insano. Como vocês decidiram gravar o clipe dessa forma? Eu achei que foi ótimo porque conectava com a velocidade da música, mas quando você assiste o clipe, é diferente do que já foi feito.

Steffen: Nós temos um cinegrafista viajando com a gente desde 2021, ele é um talentoso videomaker e fotógrafo. Ele está viajando para todos os lugares com a banda. Nós nos conhecemos há anos, ele escreve para revistas e esteve conosco, eu acho, há 10 anos. Mas decidimos fazer algo novo, porque quisemos desconectar um pouco, queríamos mostrar o público lá fora que para esse tipo de música, você não irá ver pessoas sentadas em uma cadeira e assistindo aos instrumentos. É um show do rock de verdade com suor, cabelos voando, as pessoas pulando, stage diving, tudo. Foi incrível e queremos continuar, então ele também viajará com a gente para a América do Sul e fazer a mesma coisa que já fazemos. Gravar todos os shows com um sistema de áudio e ver o que tiramos disso.

Eu me lembro de um videoclipe do After Forever, Being Everyone, no começo dos anos 2000 que eles gravaram aqui no Brasil e meio que tem o mesmo estilo: é o show e mostra várias partes do Rio de Janeiro. Eu era adolescente e me lembro que ficamos loucos porque o metal é algo muito europeu, mas nós também amamos heavy metal, nós vamos aos shows, compramos os álbuns e tudo mais. Porém, às vezes, não somos vistos para o mundo. Quando você faz algo como no México, é incrível, porque estão mostrando que estamos aqui, também somos fãs, estamos curtindo o show e a energia é caótica porque mostra o quão apaixonados somos pelas músicas. E que, às vezes, somos deixados de lado por parte de muitas bandas e festivais, então é legal ser visto como: “Estamos aqui e amamos a sua música”. É um excelente videoclipe, parabéns! Me deixou muito feliz assistindo.

Steffen: Queremos fazer isso em muitos outros países, então você não deveria se sentir de fora. Queremos mostrar que isso é mundial. Você verá os mesmos vídeos da Ásia, Sul da Europa, Leste da Europa, eu não sei onde iremos viajar, eu adoraria ir para todos os lugares: Índia, China, África. São tantas coisas para fazer, o que é incrível fazer isso da minha vida. Você pode sempre tentar.

Obrigada pela entrevista, desculpa tomar demais o seu tempo e te vejo no Brasil em outubro.

Steffen: Sim, iremos tocar em São Paulo em um mês. Foi um prazer, tchau Tamira.

Obscura toca em São Paulo no dia 19 de outubro no Carioca Club, você pode adquirir o ingresso aqui.

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