A guitarra se apresenta com uma identidade sonora leve, melodiosa e com um toque de swing que ocasiona uma interessante fusão entre as naturezas do soft rock e do reggae. Fresca e contagiante, a sonoridade alcançada é capaz de indicar fluidez com uma simplicidade invejável que, conforme avança em meio à sua desenvoltura, ganha traços harmônicos oriundos de um teclado reprodutor da acidez adocicada do hammond, além de um escopo rítmico agradavelmente sincopado. Com um lirismo vivenciado por uma voz masculina de caráter adocicado associado à sua afinação, CRUEL WIND se mostra uma obra construída diante de rimas verbais muito bem combinadas que narram um ecossistema de desesperança, desmotivação e instabilidade.
A bateria puxa a introdução por meio de golpes precisos na superfície oca de seus tons. A partir dos repiques neles empregados, o instrumento acaba servindo como uma espécie de recepcionista em relação à guitarra distorcida que, entre raios suspirantes de asperesa, começa a preencher a esfera melódica. Combinando sensualidade, provocação e traços que comunicam uma interessante fusão entre hard rock e southern rock, os quais se mostram a partir da presença do efeito slide, a presente composição ainda se felicita de uma harmonia que engrandece a sua paisagem. Diante da acidez doce do hammond, a faixa auxilia na obtenção de uma paisagem interiorana, mas que é capaz de reciclar o clima libidinoso dos anos 80. Agraciada por um baixo groovado que quase se esconde em razão de sua completa sinergia para com o escopo rítmico, MIDNIGHT TRAIN explora a temática padrão de independência e liberdade metaforizada na ideia de uma estrada vazia convidativa para o abuso da velocidade.

Ainda que o escopo rítmico seja trazido de forma a mostrar uma essência sincopada, a canção é governada por um andamento mais pausado, o que pode sugerir a presença do drama. No entanto, com o auxílio da presença de efeitos espaciais e, consequentemente, psicodélicos, o que acontece é a produção de um senso introspectivo curiosamente associado à sensualidade. Surpreendentemente, porém, ao primeiro sinal de vida do enredo lírico, o ouvinte se depara com uma voz feminina não apenas fresca, mas delicada e equilibrada no dulçor. Explorando, a partir daí, uma interessante superfície sensual, Keep Me Hanging On tem linhas de baixo em que as cordas parecem ser esticadas de forma a trazer um som encorpado, mas contorcido, sugerindo brisas de funk e um enaltecimento no caráter do swing.
Contando ainda com títulos como 1991, que, aqui, conta com a presença de Gabriel Just, que transforma a canção em uma espécie de faixa que poderia muito bem ter saído do repertório de John Coltrane; e a melancólica-introspectiva YOU TRIED YOUR BEST, Midnight Trains traz uma conjuntura de obras que destaca sensibilidade, profundidade emocional e uma combinação eficiente entre melodia, harmonia, ritmo e letra.
Misturando sensualidade nos sentidos tanto da maciez como da própria ideia de provocação libidinosa com ideias de melancolia, introspecção e reflexão, o EP convida o ouvinte a caminhar por terrenos sonoros que variam muito bem do southern rock ao hard rock. Com notas de blues e pitadas psicodélicas que engrandecem a sua sonoridade a partir da identidade do teclado, o material não é tido como um produto de natureza comercial. Ainda assim, ele é o resultado de uma arte obtida através da paixão e da dor.
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