É como o som seco e manipulador do ponteiro do relógio fazendo seu trabalho de domínio do tempo. Um som tiquetateante que vem hipnotizante quase como um metrônomo, solitário, moldando os primeiros sinais da obra. Gradativamente, um toque agudo e curiosamente pipocante começa a formar e ocupar o âmbito melódico até chegar ao ponto de se evidenciar um riff de guitarra aveludado e com boas influências do blues. Swingado, esse detalhe rapidamente recebe a companhia de uma veia percussiva que amplifica generosamente a sensualidade atmosférica, mas com a devida sutileza, fazendo de The Time Is Running Out um instrumental atraente e sincopadamente preciso em virtude da performance da bateria.
A textura não é mais a mesma. O veludo dá lugar ao áspero e a energia sai de uma improvização para algo mais provocativo e rebelde. Ao se mover a partir de uníssonos entre bateria e guitarra, a canção é, surpreendentemente, preenchida por uma linha lírica pronunciada por uma voz masculina diante de uma interpretação sussurrante que induz à percepção tanto do sinistro quanto do invocativo. Desenhando uma esfera um tanto sombria enquanto engata em um processo de amadurecimento estrutural, a faixa é agraciada pela presença de um baixo de groove azedo entregando a dose ideal de densidade a partir da base melódica. Trazendo um aspecto de repulsa a partir da forma como as palavras são trazidas, Are We All In Abuse, na companhia de Kjetil Landsgard, brinca com as noções de asco e repulsa enquanto parece motivar o ouvinte a se impor.
Diante de um efeito digital, a bateria molda os primeiros sinais sonoros da obra com uma movimentação amaciada que sugere um swingar gracioso. Contudo, com a presença da guitarra e do baixo moldando a esfera melódica, o instrumento acaba assumindo uma postura mais maliciosa e malandra de forma a trazer certo quê de cinismo para a energia em andamento. Lembrando o aspecto sonoro de bandas como Audioslave, Path To A Scapegoat tem um viés funkeado, mas com uma densidade que a difere de um funk padrão. Inclusive, o próprio tom de voz do vocalista, fanhoso e com nuances nasais, fortalece essa similartiodade estética.
Existe tensão. Existe suspense. Existe o incerto. A partir da maneira com que a introdução pe construída, a obra acaba transpirando contornos de insegurança que capturam de imediato a sensibilidade do ouvinte. Com uma sonoridade de caráter levemente digital que traz consigo brisas sci-fis, Chasing The Truth usa do introspectivo como uma forma de fomentar a aparição de uma brisa de natureza melancólica permeando a atmosfera. Contudo, o interessante é perceber o movimento da composição, que sai desse lado sombrio e intimista para uma atmosfera que sugere algo como a superação e a redenção, comunicadas a partir do dedilhar agudo e suave na superfície das teclas do piano. Ao se mostrar mais melodiosa a partir desse ponto, a faixa ainda chama a atenção por dar vazão ao baixo em momentos nos quais o instrumento tem total protagonismo.

Durante a audição de um produto como Life Is… O ouvinte não é colocado apenas em contato com momentos de pura improvisação. Ele é posto em situações nas quais a reflexão é demandada e a maturidade é necessária. Dessa forma, os momentos em que se pede por uma ação mais imediata e enfática são melhor aproveitados em razão da eficácia de suas energias motivacionais.
Curto em número de faixas, mas não necessariamente em duração, o disco apresenta uma estrutura diversa em que caminha por instrumentais e composições nas quais o sombrio, o denso e o asqueroso são tão explorados quanto uma espécie de senso de elevação espiritual, mas não ao ponto de atingir o etéreo. E isso é perfeitamente nítido especialmente no decorrer de suas quatro primeiras faixas.
Ainda assim, Havig Hope é outro importante título na conjuntura da track list do material. Afinal, nessa faixa o veludo de nuances estridentes e vivas do saxofone manipulado por Hugo Lee salienta a versatilidade emocional proposta em Life Is… Um álbum que narra a jornada da vida do início ao fim de uma forma honesta e crua.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/5ZcDIUQj0vFdEl2K3676Ae
Facebook: https://www.facebook.com/rsm.prog.on
Bandcamp: https://rs-music.bandcamp.com/
YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCf2judiWTjlOGufCn9DCBpQ
Instagram: https://www.instagram.com/rsm.prog.on/