Olá headbangers viajantes, bem-vindos a mais uma viagem de todas as sextas-feiras no nosso querido quadro Heavy Metal Pelo Mundo, onde você conhece um pouco sobre a cena do metal em países com poucas, ou quase nenhuma tradição no estilo. 

E hoje, iremos mais uma vez explorar a cena pesada lá pela região do Oriente Médio, em um país conhecido pelo seu radicalismo nas questões religiosas. Nossa parada de hoje é o Irã. 

O Irã é um país localizado no continente asiático, mais especificamente na região conhecida como Oriente Médio, sendo a nação descendente do antigo Império Persa (o mesmo que enfrentou a Grécia nas Guerras Médicas, período onde se encontra a história dos 300 de Esparta).  

Sua capital é localizada na cidade de Teerã, a língua oficial é o persa, o Rial iraniano é a sua moeda, e o Islamismo é a religião oficial do país, influenciando diretamente nas leis. Na questão política, o Irã é gerido por uma República Islâmica Presidencial Khomeinista, ou seja, o país conta com um presidente e um Líder Supremo. 

Como dito, o Irã é mais um país oficialmente islâmico, ou seja, as leis do Estado são completamente alinhadas com as leis do alcorão, e por conta disso, qualquer que aja de forma fora dos “padrões” aceitados por eles sofre perseguição. 

Mas, antes de tudo vale desmitificar aqui a história de que é “proibido” tocar Heavy Metal no Irã. Não, não é proibido. 

“Ah Renan, mas e as notícias que a gente ver por aí de bandas que fogem do Irã para não serem presas?”. Nesses casos, essas bandas não foram presas por tocarem Heavy Metal especificamente, e sim por blasfêmia. Ou seja, o “crime” deles não é o estilo que tocam, e sim a temática abordada que certamente feriu valores do islamismo, e infelizmente as leis por lá são bem radicais para punir esses casos. 

Na nossa seleção de bandas iranianas vocês verão alguns exemplos desses casos. 

Confess 

Um exemplo de banda que precisou enfrentar as leis iranianas é a Confess. Formada em 2010, o grupo de Groove Metal apresenta em suas letras críticas contra a religião islâmica e contra o governo iraniano, o que certamente não deixou as autoridades do país nem um pouco felizes. 

Com isso, em novembro de 2015, os integrantes do grupo foram presos acusados de blasfêmia, tendo risco inclusive de pegarem a pena de morte. Além disso, a banda também foi indiciada por falar com rádios estrangeiras proibidas. 

É interessante ver que o Confess só escapou da pena de morte graças a lei Sharia, que diz que eles só receberiam a pena de morte se caso ofendessem o profeta Maomé, pois o mesmo não está mais vivo para se defender, mas como eles “apenas” blasfemaram contra Deus (Alá), eles poderiam ser perdoados. 

No fim, os integrantes foram condenados a 12 anos de prisão e 74 chibatadas. Mas no fim todos eles pagaram uma fiança de 30 mil dólares e se exilaram na Noruega, onde vivem até hoje. 

Atualmente o Confess tem apenas dois álbuns lançados, o “Beginning of Dominion” (2012) e o “In Persuit of Dreams” (2015), e atualmente eles estão produzindo seu terceiro álbum intitulado “Revenge at All Costs”. 

Confiram: 

Arsames 

Outro caso conhecido de banda que precisou fugir do Irã para não ser presa é o do grupo de Death Metal Arsames, formado em 2002. 

Na ocasião, em 2017, a banda foi presa enquanto ensaiava, acusada de “tocar músicas satânicas”. Lembrando mais uma vez que o grupo foi preso por “blasfêmia”, não por tocar Metal, por mais que isso seja um grande erro de interpretação por parte do governo iraniano, pois as letras da Arsames tratam principalmente da história do antigo povo Persa. 

De início, eles foram presos e liberados poucos depois de pagarem fiança, mas tiveram suas redes sociais derrubadas, não poderiam mais vender merchan em nome da banda e foram proibidos de darem declarações públicas. Tempos depois eles quebraram algumas dessas proibições, sendo condenados a 15 anos de prisão. 

Exatamente esse ano, a banda fugiu do Irã para não acabarem presos, indo para um país ainda não informado até o momento. 

Em sua discografia, a Arsames possui apenas um álbum lançado, o “Immortal Identidy” de 2010. 

Confiram: 

Angra Demana 

Chegando na área do Black Metal, temos a banda Angra Demana, formada em 2005. Em suas letras o grupo aborda sobre o Zoroastrismo, antiga religião dos povos Persas, a escuridão, e também questões anti-islâmicas, último tópico esse que fez a banda se juntar ao hall das que precisaram deixar o país para não acabarem presos, ou mortos pelo Governo. 

Atualmente, a banda reside na Áustria, e em sua discografia possui o álbum “Dissolve Into Darkness” (2012), e o mais recente EP “Tryptych of Decay” (2019). 

Confiram: 

Farzad Golpayegani 

Agora vamos falar finalmente de uma banda que não teve problemas com o Governo Iraniano. Farzad Golpayegani é um guitarrista originário da cidade de Teerã, capital do Irã, em seu projeto solo o músico tem a proposta de apresentar um Metal Progressivo completamente instrumental. 

Sua jornada na música começou em 2001, e de 2002 para cá ele lançou oito álbuns. E é interessante observar que todos os seus títulos (tanto de músicas quanto de álbuns) são números. 

Segundo o próprio Farzad, isso é porque na concepção dele, a música deve ser entendida por si só, e não por referência aos seus títulos. 

Confiram: 

Frequency of Butterfly Wings 

Formada em 2009, a Frequency of Butterfly Wings apresenta um Death Doom Gótico cheio de melancolia e atmosfera sombria. Em suas letras, o grupo fala sobre lutas internas da mente humana. 

Compõem a sua discografia o álbum “The Butterfly Effect” (2011), e o EP “The Weight of Existence”. 

Confiram: 

War Angel 

Quando formada oficialmente em 2013, a War Angel se chamava Demonic Ritual, tendo lançado um único álbum chamado “Holocaust”, em 2015. 

Até que em 2017, o grupo decide mudar o nome para War Angel, adotando uma sonoridade mais puxada para o Heavy Metal Tradicional, com letras falando de guerra. 

Sua discografia é formada pelos álbuns “Symphony of the War”, de 2017, e o “Tales of the Damned”, o mais recente lançado nesse ano de 2020 através da Tough Records. 

Confiram: 

Angband 

Seguindo na vertente mais melódica, a Angband começou em 2004 como um projeto instrumental do baixista Mahyar Dean (que na época se focava mais na guitarra), tendo depois expandido para a forma cantada. 

Atualmente, a Angband apresenta um Power/Progressive Metal, onde suas letras falando principalmente sobre questões da mente humana. 

A banda possui quatro álbuns lançado, sendo o “IV” o mais recente, tendo sido lançado nesse ano de 2020 através da Pure Steel Records. 

Confiram: 

Farshid Arabi 

E para fechar com chave de ouro, temos aqui uma banda que canta na língua nativa iraniana, sendo ela o Farshid Arabi, encabeçado pelo guitarrista e vocalista de mesmo nome. 

O projeto se iniciou em 2003, e desde então possui quatro álbuns lançados, os quais não arriscarei dizer os nomes, pois os mesmos são todos em persa. 

Confiram: 

Normalmente, eu encerro meus textos falando sobre festivais de Rock/Metal que ocorrem no país destrinchado, mas infelizmente, no caso de hoje isso não acontecerá. 

Como vocês perceberam, não é lá muito fácil fazer Metal por lá, e no Irã os shows só podem ser realizados com uma autorização prévia do Ministério da Cultura, e para que o mesmo seja realizado, o material apresentado terá que passar por uma censura, e vocês imaginam que não é qualquer coisa que é aprovada. 

Mas acreditem, esse cenário já foi pior, principalmente nos anos 70 quando as restrições para a música em geral (principalmente dos estilos vindos do Ocidente) eram bastantes duras, quando até a venda de instrumentos era proibida. Mas felizmente, isso começou a mudar a partir dos anos 90, na gestão do presidente Mohammad Khatami, tendo a partir dali o país iniciado uma abertura cultural mais ampla, mesmo que ainda com bastantes restrições. 

Em 2013 houve mais um pequeno avanço nessa questão, após a banda Pinclavier ser a primeira autorizada a realizar um show de Rock cantado em inglês, pois antes disso só bandas que cantavam na língua nativa conseguiam liberação para se apresentarem. Avanço esse ocorrido após a posse do presidente Hassan Rohani. 

Certamente, o Irã ainda tem muito o que melhorar nessa questão, e qualquer avanço maior é complicado por conta das fortes leis em vigor ligada aos dogmas islâmicos, e até chegar no “ideal” certamente ainda vai demorar. Mas ainda assim, é bom ver esses pequenos passos serem dados por lá, a exemplo também do fato de recentemente as mulheres passarem a poder disputar competições esportivas, e também irem a jogos de futebol. 

No mais, encerramos aqui mais uma viagem do nosso quadro “Heavy Metal Pelo Mundo”, espero que tenham curtido o tour de hoje e até uma próxima.