Heavy Metal Pelo Mundo: Estônia

by Bruno Rocha

Subam, todos a bordo! É chegada a hora de zarpar! Começa hoje a nossa grande jornada ao redor do globo (DO GLOBO!) e o bilhete de passagem é o quadro HEAVY METAL PELO MUNDO, quadro este que tem como escopo apresentar a cena, as bandas, a história e tudo o mais possível que envolve o Heavy Metal de algum país com média, pouca ou nenhuma tradição no estilo. Portanto, nossa jornada não terá escalas na Inglaterra, na Alemanha, na Finlândia, nos Estados Unidos, no Brasil, na Noruega ou em qualquer outro país do qual você consegue lembrar fácil de várias bandas. Nem insista!

Os voos serão regulares com partidas em todas as sextas-feiras e será visitado um país de cada vez. Os pilotos de nossa aeronave serão os redatores Bruno Rocha (este escriba que vos fala), Jéssica Alves, Mauro Antunes, Renan Soares e Vitor Sobreira, um a cada sexta-feira. Prontos? Apertem os cintos. Em caso de despressurização máscaras de oxigênio cairão sobre vossas cabeças.

A primeira escala desta longa jornada será em uma ex-república soviética que integra o Power-Trio dos países bálticos e que faz questão de resguardar suas tradições e orgulhos milenares. Bem-vindos a ESTÔNIA!

COMO ERA O HEAVY METAL NA UNIÃO SOVIÉTICA?

Quando o Rock e o Metal começaram a ser praticados na Estônia, o país ainda era uma república soviética. Então cabe um espaço nesta matéria para explanar como o estilo era tratado naquele gigante país enquanto ele existiu.

Durante o período ferrenho e fortemente regulador do regime soviético, o acesso à cultura dita “ocidental” era bastante restrito, quase que proibido. Até mesmo o Rock soviético era regulado pelo regime. As bandas deveriam seguir um certo tipo de sonoridade que pouco lembrasse o Rock ocidental e as letras deveriam ser escritas por um membro de uma espécie de sindicato de compositores gerido pelo governo. Além disso, as próprias bandas deveriam estar registradas em um cadastro oficial do Kremlin, sob pena de estarem atuando de forma ilegal, de sorte que seus integrantes poderiam ser passíveis de punições.

Mas haviam bandas que se rebelavam e praticavam Rock fora dos padrões soviéticos (E não é exatamente essa a essência do Rock n’ Roll?). Logicamente estas deveriam atuar em esquema de clandestinidade a fim de escapar de severas punições impostas pela URSS. O acesso a materiais de bandas gringas também era bastante cerceado e por isso os nossos guerreiros soviéticos também usavam de subterfúgios para conseguir ouvir um Black Sabbath, um Judas Priest, um Saxon ou um Slayer. Somente a partir dos anos 80 as regras para se tocar Heavy Metal na União Soviética foram abrandadas, tendo em vista a abertura gradual do regime local graças a Glasnost e a Perestroika e também ao grande apelo popular que algumas bandas outrora underground estavam obtendo, especialmente os moscovitas das bandas Aria e Tchernye Kofe, as primeiras bandas de Metal a conseguirem contrato com a gravadora estatal Melodiya, e do grupo de Pós-Punk Kino, um dos grandes nomes do Rock soviético de todos os tempos.

E NA ESTÔNIA?

A Estônia sempre foi uma nação com forte identidade cultural, apesar de possuir uma certa proximidade neste quesito com os países nórdicos, e ostenta uma história que remonta a 10000 anos atrás. Não obstante ter sido ao longo de sua história ocupado e anexado a alguns países, a Estônia manteve a tradição de cultivar sua cultura e mantê-la viva, mesmo que para isso fosse necessário mesclá-la com as inovações que vinham do exterior. O rock estoniano teve origem ainda nos anos 60. Na virada para a década de 70, alguns dos artistas mais bem-sucedidos migraram ou para a música Pop ou para o emergente Rock Progressivo, estilo para o qual o regime soviético fazia certa vista grossa em suas fiscalizações tendo em vista a erudição mais proeminente do gênero megalomaníaco. Dentre essas bandas de Rock Progressivo, um dos destaques era o Ruja, que tinha fortes influências de Hard Rock que podem ser atestadas, por exemplo, na música Tütarlaps Kloaagis abaixo, que é praticamente um Doom Metal. Também, o nome mais importante da história do Rock e do Metal estoniano começaria a explodir ainda nos anos 70, o músico Gunnar Graps, cujo legado será melhor dissertado alguns parágrafos mais abaixo.

Os rockeiros estonianos estavam a par do que acontecia no estilo mundo afora, mesmo que com alguns anos de atraso. Com a chegada dos anos 80, o Rock Progressivo perdeu adeptos e o Punk Rock assumiu o posto de estilo mais popular do underground estoniano. Dentre as bandas de maior destaque estavam o J.M.K.E. e o Röövel Ööbik, que ser aproveitaram da Perestroika para expandirem mais ainda as suas popularidades até mesmo Europa adentro. Nesse ínterim, o Metal estoniano começou a se desenvolver tendo como principais bases o Thrash e o Death Metal. Desse período até os anos 90 as influências da música tradicional estoniana começaram se tornar elementos característicos dos arranjos metálicos daquele país, parasitando estilos como o Thrash Metal e o Death/Doom.

Conheça a seguir algumas das principais bandas do Metal estoniano. No fim desta matéria você poderá ouvir uma música de cada uma destas indicações.

GUNNAR GRAPSI GRUPP

Antes de falar desta banda em si, precisamos primeiro apresentar o seu mentor, o músico Gunnar Graps. Seu nome tem tanta relevância para o som pesado local que os integrantes do Metsatöll, o principal nome do Metal estoniano da atualidade, costumam afirmar que ele está para a Estônia assim como o Black Sabbath está para o mundo. A mídia local também gosta de compará-lo a Mick Jagger e a Alice Cooper. Só por aí deu para perceber o tamanho da importância do cara? Pois muito bem. Sua carreira musical começou nos anos 60, todavia Graps começou a despontar na União Soviética durante os anos 70 com sua Magnetic Band, que praticava um Jazz Rock com influências de Reggae e Soul. Em 1980 a União Soviética resolveu organizar o seu próprio festival oficial de Rock (!) em Tbilisi, capital da Geórgia. Na prática, o festival funcionou como um concurso para premiar as melhores bandas sob o escrutínio de jurados. A Magnetic Band foi a co-vencedora do festival, empatada em pontos com os veteranos moscovitas do Mashina Vremeni. A popularidade do Magnetic Band na URSS era tamanha que o jornal norte-americano The Washington Post escreveu em 1982 uma matéria sobre Gunnar Graps. O merchandising gratuito por cortesia dos ianques foi suficiente para despertar a ira do alto escalão soviético, que resolveu tomar a iniciativa de cassar o registro da Magnetic Band, tornando-a, com efeito, ilegal.

Entretanto, nosso herói báltico não se deu por vencido. A banda estava proibida de atuar, mas Gunnar Graps não. Logo ele fundou outra banda, o Gunnar Grapsi Grupp em 1984. Desta vez orientado para o Hard Rock e para o Heavy Metal, o Gunnar Grapsi Grupp acabou se tornando o pioneiro do estilo na Estônia. Com a abertura política da URSS, a nova banda de Gunnar Graps sofreu menos em termos de fiscalização estatal e tão logo o músico se tornou novamente um nome reconhecido no país. O ano de 1988 viu o lançamento do único full-length do Gunnar Grapsi Grupp, Põlemini, através da gravadora estatal Melodiya. No ano seguinte Graps se mudou para os Estados Unidos a fim de expandir para as Américas a sua popularidade, mas tudo que ele conseguiu em terras ianques foi um emprego de mecânico. Quando voltou à Estônia, agora um país independente, sua popularidade já não era mais a mesma dos áureos tempos. Graps faleceu em 2004 vítima de um ataque cardíaco, mas seu legado enquanto força do Rock e do Metal estoniano permanecem irretocáveis.

AGGRESSOR

Com a proximidade do fim da década de 80, os estilos mais extremos de Metal estavam se tornando os mais populares entre a emergente comunidade headbanger estoniana. Um dos principais grupos de Death Metal do país surgiu nesse período, o Agressor. Fundado em 1989 na capital estoniana, o Aggressor surgiu com a ideia de tocar Thrash Metal, o que ficou nítido na demo de estreia lançada em 1991. Pouco tempo depois, a banda já havia migrado de mala e cuia para o Death Metal, em prol de tocar um som com afinações baixas e regado de influências de Slayer e de Autopsy. Lançou dois full-lengths, Procreate The Petrifactions (1993) e Of Long Duration Anguish (1994), antes de mudarem de nome, para No Big Silence, e de sonoridade, dando uma guinada para o Industrial, confirmando sinais que já eram percebidos de modo tímido no segundo álbum. Em 2015 a banda voltou a adotar o nome de Aggressor e também resolveu ressuscitar sua antiga sonoridade. Em 2019 exumaram e lançaram a demo Indestructible, que havia sido gravada em 1990 e enterrada desde então. Procreate The Petrifications é considerado pelos entendidos de Heavy Metal daquela região como o principal álbum de Death Metal já lançado na Estônia. Ouça e sinta-se esmagado com tanta pressão, peso e maldade.

RATTLER

Mais um representante do Thrash/Death Metal estoniano aqui neste artigo. O Rattler, capitaneado ferozmente pelo seu vocalista Ruslan “Creator”, tem como característica peculiar as referências ao Shamanismo através de suas letras e de alguns elementos musicais atrelados ao Death Metal técnico e cadenciado que eles praticam. Criado em Tallinn em 1990, o Rattler sobreviveu em sua primeira passagem pela Terra até 1998, sendo trazido à vida novamente em 2014. Em sua primeira encarnação foi lançado o full-lenght Sanctum Regnum (1993), que mostrava uma banda preocupada em emoldurar o clima de suas letras com longas passagens e com produção porca. Em sua segunda encarnação, foi lançado o álbum Warrior’s Way, em 2014, que apresentou de forma mais pungente as referências ao Shamanismo.

METSATÖLL

Sem dúvidas o nome mais reconhecido do Metal da Estônia, como se fossem uma espécie de Sepultura local. Fundado em 1999 na capital Tallinn, o então power-trio se motivava a praticar um Epic Doom Metal com alguns traços opacos da música estoniana. Esses traços foram grandemente reforçados com a entrada do multi-instrumentista Lauri “Varulven” Õunapuu no ano 2000, um especialista autodidata em instrumentos típicos estonianos. Dentre os mil instrumentos que ele toca, destaca-se o torupill, a versão estoniana da gaita escocesa, mas que possui um timbre mais limpo que a sua irmã celta. Graças a habilidade de Varulven de tocar vários instrumentos e a técnica apurada dos demais integrantes do grupo, o Metsatöll logo se tornou uma banda de Prog/Thrash/Folk Metal, nomenclatura essa que não se mostra exagerada, pois elementos dos três estilos convivem harmoniosamente na música dos lobos estonianos, aparecendo de forma equalitária formando um triângulo equilátero. Com sete full-lengths lançados, hoje o Metsatöll tem presença frequente no mainstream local, em grandes festivais da região e até já tocaram em um lugar incomum para concertos musicais: as bases militares norte-americanas no Afeganistão. O Metsatöll também já trouxe seu Metal étnico ao Brasil no ano de 2018, ocasião em que visitaram quatro cidades. Ainda, o Metsatöll já foi a atração de uma matéria escrita por este humilde colaborador e publicada em 2017 aqui mesmo na ROADIE METAL.

WHISPERING FOREST

Outra banda oriunda da capital Tallinn, o Whispering Forest é sempre lembrada como uma das principais representantes do Doom Metal estoniano, ainda que suas atividades tenham se encerrado no começo dos anos 2000. Atuando nas veredas do Death/Doom, o Whispering Forest trafegava pela via gótica do estilo, lembrando os pioneiros do Gothic noventista como Theatre Of Tragedy ou mesmo o antigo The Gathering. Mas o Whispering Forest impunha uma forte identidade ao seu som lançando mão de elementos de música estoniana e de vocais guturais masculinos típicos do Black Metal. O grupo lançou seu único álbum de inéditas em 1997, intitulado Of Shadows And Pale Light, que foi regravado e relançado em 2000 sob o título Pale Light 2000. Desde então, a floresta nunca mais sussurrou.

FORGOTTEN SUNRISE

Seria um pecado passível de danação eterna para este escriba tratar do Whispering Forest e deixar de lado o Forgotten Sunrise, tendo em conta a importância proporcional que ambas as bandas possuem no desenvolvimento do Death/Doom estoniano. Fundado em 1992, o Forgotten Sunrise lançou a demo Behind The Abysmal Sky em 1993 e o EP Forever Sleeping Greystones no ano seguinte. Este último trabalho explora uma faceta Death/Doom mais atmosférica do que os conterrâneos do Whispering Forest, com maior proeminência de teclados e afinações baixas que tornam o clima ainda mais negro, fruto de influências “mydyingbrideanas”.  Mas um vírus que se espalhou entre as bandas de Death/Doom e Metal Gótico na segunda metade dos anos 90 chegou na Estônia e afetou com gravidade o Forgotten Sunrise; eles se tornaram um grupo de música eletrônica com direcionamento Industrial/EBM. A partir de seu segundo EP, autointitulado e lançado em 1998, a banda assumiu esse posicionamento musical, o qual eles mantêm até os dias atuais, ora trafegando pelo Darkwave, ora voltando ao Industrial/EBM “da pesada”. Porém engana-se quem imagina que o Forgotten Sunrise renegou de vez seu passado Death/Doom. Vira e mexe a antiga formação do grupo se reúne ao vivo para rememorar os velhos tempos de Heavy Metal e os antigos trabalhos permanecem em catálogo junto aos mais recentes.

REDNECK RAMPAGE

A última indicação desta matéria vem da cidade de Räpina, que possui pouco mais de 2000 habitantes e que fica perto da fronteira com a Rússia. O Redneck Rampage, como seu nome delata, pratica um Heavy Metal bastante animado e festeiro, com influências de Southern Rock e de Groove Metal. É como se o Lynyrd Skynyrd imprimisse muito peso em suas guitarras. Fundado em 2007, o grupo coleciona em sua discografia um EP e dois full-lenghts, sendo o mais recente Caveman Chronicles, lançado de forma independente em 2018. Metalzão do interior, sô!

VAMOS EMBORA!

Nosso passeio pela Estônia chega ao fim aqui. Se você quiser voltar e conhecer mais e mais sobre o Heavy Metal estoniano, fique à vontade para fazê-lo quantas vezes você bem entender. Em entrevista concedida aqui no Brasil, o multi-instrumentista do Metsatöll, Varulven, afirmou que a cena Metal nos países bálticos é pequena. Talvez ele tenha se valido de uma modéstia desmedida. Pesquise e descubra o quão variado é o Metal báltico, em especial o estoniano. Quem sabe no futuro voltaremos para esta região para falar também dos países-irmãos da Estônia, a Letônia e a Lituânia. Que tal?

Na próxima sexta-feira a redatora Jéssica Alves assumirá o comando de nossa aeronave e nos levará para conhecer o Heavy Metal de algum outro país que não tenha lá tanta tradição no Metal, mas que com certeza reserva agradáveis surpresas em seu underground. Até lá!

LINKS PARA CONHECER MAIS SOBRE O METAL ESTONIANO

https://estonianmetal.com/
https://www.metal-archives.com/lists/EE
https://sunbleach.net/2018/05/21/estonian-death-metal-primer/

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