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Heavy Metal: “Culturas negra e indígena no heavy metal nacional”

A riqueza artística e expressiva figurada através do Heavy Metal consegue unir de forma criativa, música, literatura, poesias, filosofias e ciência. O estilo várias vezes trouxe aos palcos fatos históricos e acontecimentos importantes da humanidade, transformando seus discos e shows em verdadeiras aulas. Um professor que levou essa ideia a sério foi o educador Willian Castilho de Moraes com seu trabalho “Culturas negra e indígena no heavy metal nacional” chegando a ter seu nome na academia pindamonhangabense de letras.

Willian Castilho de Moraes é professor graduado em história, músico e escritor, tendo dois livros publicados (Mãos Machucadas e Jaula Invisível). O trabalho, “Culturas negra e indígena no heavy metal nacional”, explora a importância da influência da música brasileira para a renovação do Heavy Metal mundial, usando como ponto de partida as composições das bandas Angra e Sepultura, já que as mesmas utilizam elementos musicais de origem nacional, tanto na incorporação de instrumentos quanto melodicamente, sem contar a temática das letras que explora a história dos povos indígenas e africanos.

Castilho diserta sobre a importância que os álbuns “Roots” do Sepultura e “Holy Land” do Angra tiveram para a valorização da cultura Brasileira, visto que ambos chegaram a cruzar o globo. Para isso (como um bom professor de história) Castilho narra o conceito dos álbuns e avalia historicamente seu conteúdo, “Roots” por exemplo traz letras de protesto direcionada a miscigenação brasileira, os primeiros habitantes do Brasil e o processo civilizatório imposto pelos portugueses sobre as tribos indígenas. Já “Holy Land” (apesar de seguir a mesma linha crítica de Roots) foca mais no Brasil em 1500, quando foi descoberto pelos portugueses que encontraram um povo nativo e “estranho” ao chegarem em terras tupiniquins.

“As bandas inovaram e criaram um heavy metal que só poderia ser produzido no Brasil. Roots e Holy Land marcaram o cenário musical nacional e internacional e se tornaram uma enorme influência para as bandas do estilo. As canções retratam nossas raízes sangrentas, marcadas pelo processo civilizatório dos europeus, ao imporem sua cultura aos chamados “selvagens” e escravizarem os negros da África, proibindo-os de manifestar sua cultura. As letras das canções retratam as origens do Brasil, valorizam nossa cultura e fazem uma homenagem àqueles que durante muito tempo foram excluídos, mas que participam de modo radical na formação do povo brasileiro”. (Trecho do trabalho)

Tive a oportunidade de conversar com Willian Castilho de Moraes sobre seu trabalho e a importância do mesmo no meio acadêmico, confiram:

Roadie Metal: Visto que um dos objetivos do trabalho é promover a valorização da cultura brasileira, destacando dois ícones do Heavy Metal nacional como propagadores dessa ideia (Sepultura e Angra), como você observa o subgênero “Metal Nativo” que se dedica exclusivamente a esse objetivo?

Willian Castilho de Moraes: Autêntico e inovador. Depois de Roots e Holy Land o Rock pesado brasileiro “descobriu” a verdadeira música brasileira, várias bandas começaram a adicionar elementos nativos ao seu som. Tanto Angra e Sepultura já tinham feito algo parecido antes dos dois álbuns, Never Understand (Angels Cry) do Angra é incrível e a Bateria de escola de samba em Refuse/Resist (Chaos A.D.) do Sepultura levanta até os mortos. O Metal é bem caracterizado pelas culturas mitológicas como a celta, grega e a nórdica, então por que não caracterizar a cultura brasileira? O Heavy Metal (assim como o Rock no geral) encaixa muito bem com outros estilos musicais como a música Erudita e Barroca. Outros elementos musicais como a música celta também já foi associada ao Metal, agora percussão e ritmos brasileiros foi um divisor de águas na história do Rock pesado. Essa fusão musical criou um estilo de Heavy Metal experimental sem ser considerado modelo de cópia. Quebrou barreiras e preconceitos, foi sucesso mundial. A Europa, EUA e Japão “se ajoelharam” perante ao Metal Brasileiro. As bandas criaram um estilo tipicamente brasileiro, acredito que a América Latina no geral é rica em ritmos dançantes feitos à base de instrumentos de percussão e nós brasileiros fazemos parte dessa estrutura musical a percussão é algo característico do nosso país. É como Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral diziam: “Nós brasileiros somos capazes de deglutir as formas importadas e misturar com a cultura nacional, dessa fusão será criado algo novo e experimental sem cair no modelo de Cópia”. Ao experimentar a fusão do Heavy Metal com elementos nativos, Angra e Sepultura acabaram por criar, sem exageros, uma nova linha de música brasileira, miscigenada, o que é próprio das características da cultura brasileira. A influência foi mundial, bandas brasileiras e internacionais incorporaram a percussão ao seu som. Hoje já temos bandas que podem ser consideradas como “Metal Nativo” como o Arandu Arakuaa uma banda ousada e original.

Roadie Metal: No trabalho você faz justas críticas a mídia Brasileira em relação a marginalização do Heavy Metal nacional, destacando inclusive a dificuldade que as bandas tem em se projetar artisticamente. Como está sendo divulgar sua tese (e estas bandas) em faculdades onde muitas pessoas desconhecem o estilo?

Willian Castilho de Moraes: Um desafio. As pessoas ficam super curiosas para saber do que se trata. Os Headbangers agradecem a iniciativa da divulgação do estilo. Existe um folclore muito grande em cima do Metal, o que mais me chamou a atenção nas palestras (Faculdades e escolas) foi a associação que as pessoas tem do estilo com o Tinhoso. Para muitas pessoas o Heavy Metal era algo criado para o “mal” e foi muito glamoroso para mim fazer cair por terra esse tipo de preconceito. Muita gente me dizia que ia chegar em casa e procurar bandas de Metal no You Tube. O prestígio de se poder falar de Heavy Metal nas escolas e faculdades me deixou perplexo, pois gerava muita curiosidade nas pessoas e no final elas vinham me agradecer por terem aprendido sobre Rock pesado.

Roadie Metal: O trabalho foi premiado pela Universidade Unisal com o prêmio José Luiz Pasin. Como foi a premiação? E como o mesmo foi recebido pela cena Heavy Metal de sua cidade?

Willian Castilho de Moraes: Tenha muita consideração pela Unisal, eles incentivaram de uma maneira fantástica a construção desse trabalho. Para a universidade foi inovador, algo totalmente novo, pois até a minha turma ninguém tinha falado de cultura brasileira e Heavy Metal na história da universidade, pelo menos até onde eu e meus professores sabemos. Foi um trabalho ousado. As apresentações na Unisal geravam debates sadios e interessantes. Na minha cidade na área educacional e cultural foi um espetáculo. Chegamos a apresentar o trabalho na Academia Pindamonhangabense de Letras. Falar sobre Rock pesado na Academia de Letras foi Histórico. Fizemos história, o apoio de professores e dos acadêmicos para a apresentação na Academia e nas escolas de Pinda foi fundamental. O trabalho também foi apresentado em outras universidades da região como UNESP (Guaratinguetá) e Dehoniana (Taubaté). Infelizmente em algumas apresentações o número de “camisetas pretas” era pouco, mas quem sabe eles apareçam nas próximas apresentações, pois o meu objetivo é continuar apresentando a obra.

Roadie Metal: O trabalho cita a origem do Heavy Metal destacando cronologicamente algumas bandas e a criação dos subgêneros, até tornar-se mundial. Atualmente (a exemplo do Sepultura e Angra) quais bandas internacionais você julga ter ajudado nesta globalização usando ritmos e instrumentos típicos de seu país?

Willian Castilho de Moraes: É difícil citar todos os artistas. Sempre acabamos esquecendo um ou outro. Mas para mim quem foi influenciado por Roots e acabou incorporando elementos de percussão em seu som foi o gigante do metal Slipknot. Eles são um dos principais divulgadores do metal com percussão. A banda Korn também adicionou elementos de percussão ao seu som. A referência do Hard Rock mundial a banda alemã Scorpions no seu DVD Live in the Jungle gravado no Brasil incorporou instrumentos típicos brasileiros ao seu som. Se pesquisarmos encontraremos muito mais.

Roadie Metal: Muito obrigado pelas respostas e parabéns pelo trabalho e prêmio. Deixo aqui um espaço para suas considerações e indicações, Abraço!!

Willian Castilho de Moraes: Agradeço a todos de coração pela força e apoio no processo de criação e divulgação do trabalho. É muito prazeroso poder falar de Rock pesado nas escolas e universidades. Sem sombra de dúvidas estamos divulgando o Metal de alguma maneira na região do Vale do Paraíba, fiquei muito honrado em ser entrevistado por vocês fica aqui o meu agradecimento. Para os fãs de música deixo um recado de que devemos acabar com a cultura da “herança colonial” que o Brasil tem, o que seria isso, na época do Brasil Colônia acreditava-se que tudo o que vinha da Metrópole era melhor. Hoje os brasileiros acreditam que tudo o que é importado é melhor, se vem do exterior é melhor do que o nosso, esse pensamento tem que cair por terra. Nem sempre tudo o que vem de fora é melhor, nenhuma cultura está só no mundo, o próprio Rock n’ Roll é um estilo de música importado, que nós Rockeiros amamos. Amo de paixão muito da cultura internacional, mas acredito que também devemos valorizar a nossa. A cultura brasileira é rica e muitas vezes até melhor do que a do exterior, é preciso valorizar mais a cultura nacional. O Brasil possui bandas excelentes vale a pena pesquisar.

É inegável a importância que estes dois álbuns trouxeram para o Heavy Metal nacional, tanto por sua riqueza artística como histórica. Trabalhos acadêmicos como esse são extremamente importantes pois consegue atingir um público que muitas vezes desconhecem esse estilo que tanto amamos.

Link para o pdf com o trabalho completo: https://drive.google.com/drive/folders/0B7b0zTx66qnfTUpSNHpqaUJQVk0

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Sobre: Fabrício Castilho

Nascido em 29 de novembro de 1980 na cidade de Pindamonhangaba, estudou musica durante 2 anos na FASC (faculdade de musica santa Cecília). Durante a juventude esteve de forma ativa no cenário metálico do vale, fazendo parte do projeto MAD METAL, que dispunha de um programa de radio que também era exibido online, alem de um programa de TV chamado VALE METAL exibido pela TV Vivax de Taubaté. Como musico Fabrício tocou no Brasil todo com a banda STEELGODS, vindo até mesmo a abrir um show do vocalista Jeff Scott Soto (ex- Yngwie Malmsteen ). Com a STEELGODS Fabrício gravou a demo “the first demo álbum”. Fabrício também participou durante três anos como vocalista das bandas, EXCALIBUR e SPACECRAFT, nessa ultima a banda contava através de musicas a historia do rock. Atualmente Fabrício leciona aulas Particulares de Baixo, violão e canto, alem de estar em processo de pré- produção de um disco conceitual chamado Olitizack.

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