Não é possível nem necessário descrever a composição de outra forma senão a de um produto de nuances narrativas folclóricas embasadas em uma melodia introdutória unilateral que induz o ouvinte a se perder pela sensibilidade do sombrio e da insegurança. Assombrosa também em razão das silhuetas lírico-interpretativas trazidas pela vocalista em meio ao seu timbre encorpado de nuances guturais, Skeleton Key passa a ganhar uma cadência sincopada. Ainda assim, ela não escapa de momentos em que a sua postura se mostra truncada, especialmente quando os uivos verbais assumem uma silhueta inteiramente fantasmagórica. É assim que a obra desemboca em um refrão de arquitetura conjuntural lexicalmente teatral.
Aqui existe um swing audacioso trazido por um violão que assume, sem demora, uma cadência minimamente acelerada. Induzindo à ideia de um ânimo surpreendente e sedutor, o instrumento é praticamente engolido por um aspecto instrumental que subitamente assume todo o contexto sonoro em andamento. A partir daí, The Road, em meio a backing vocals ululantes e cantarolantes, retoma a ideia de um morfinesco dramatúrgico inquietante. Com refrão explosivo e versos pulsantes, traz consigo dizeres que abordam a manipulação e o torpor em meio ao controle.
A partir de risadas ecoantes que se pronunciam de forma a fazer o ouvinte se hipnotizar pelo seu caráter de deboche sedutor, detalhe que muito traz de referência a introdução de Follow Me Down, single do The Pretty Reckless, a presente canção parece caminhar em meio ao cavernoso respaldado por uma umidade pegajosa. Ganhando contornos densos, dramáticos e até mesmo catedrálicos com o auxílio do sonar marcante daquilo que parece ser o órgão, Josaphina se destaca pelos pulsos graves, brutos e azedos do baixo como forma de amplificar o obscuro e o asco. De interpretação lírica desenhada como uma cantiga mórbida, a faixa se consagra como uma composição de puro assombro e obscuridade sarcástica.
Enquanto a base sonora faz com que o ouvinte se perceba à beira da pura embriaguez induzida, há um aspecto de ocultismo áspero ecoando na companhia do som seco do abre-fecha do chimbal. Entorpecente, mas agraciada por silhuetas dramáticas e levemente mórbidas, a faixa se apresenta com direito à presença de uma sonoridade aguda e áspera proveniente da guitarra, elemento que confere, de forma mais nítida, outra camada à melodia em andamento. Na companhia do vibraslap e seu trepidar levemente crocante como maneira de proporcionar mais texturas, Charm Cider traz consigo uma espécie de valsa entorpecente que serve de respaldo sensorial a uma narrativa folclórica de abuso e do nascimento de uma personalidade fria, repudiável e sanguinária.
Ao se deparar com Ghost We Keep, o ouvinte não se percebe diante de um disco comum ou, ainda, um material sônico padrão. Ele pode até trazer o folk como a sua roupagem sonora, aqui abordando ritmo, melodia e harmonia, mas não de uma forma convencional.
O folclórico entra com silhuetas de puras fábulas encantadas com gosto de morbidez, sarcasmo e deboche. Entre intimismos e frases sonoras que inspiram uma espécie de grandiosidade experimental, o disco se destaca pela exploração de texturas e, acima de tudo, pelo seu caráter unicamente teatral. Sempre sombrio e obscuro, diante de terrenos pegajosos e movediços, o material leva o ouvinte para histórias de um submundo trazido à superfície com detalhes manipuladores.
Perceptíveis principalmente no decorrer das quatro primeiras faixas da sua track list, o álbum também permite que o ouvinte perceba essas caracterizações em títulos como Pixelated Whorror, com sua estridência azeda e seu groove seco pulsante; a atmosférico-nauseante e sombria A Ride With The FourHouse Men In 1888; e a sincopada e encorpada Corpses Ball Room. Com elas também na conta, Ghost We Keep traz uma jornada pelo universo surreal de figuras esquecidas.
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