Entrevista: Doomshine – visões otimistas, Doom Metal, futebol e homenagens aos grandes nomes do Metal, exclusivo para a Roadie Metal

Fundada em 2001 na cidade de Ludwigsburg, Alemanha, a banda alemã Doomshine tem se consolidado com um dos nomes mais importantes do cenário Doom Metal europeu. Com três álbuns de estúdio, sendo o mais recente The End Is Worth Waiting For (2015, Metal On Metal Records), a banda formada por Timmy Holz (vocais, guitarras), Sven Podgurski (guitarras), Carsten Fisch (baixo) e Markus Schlaps (bateria) se destaca em meio a outras bandas do chamado Epic Doom Metal. Suas visões otimistas e de esperança são repassadas aos ouvintes através da trilha sonora típica do Doom Metal, com muita melodia e músicas progressivas. Nesta entrevista, os simpáticos Timmy Holz e Carsten Fisch contam, com muito bom-humor, como fazem para passar brilho e mensagens positivas em meio a uma música obscura, além de revelar várias curiosidades a respeito de suas letras cheias de trocadilhos infames. É claro que o Metal brasileiro também foi citado nesta conversa, exclusiva para a Roadie Metal.

Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar a banda pelo mais recente álbum, The End Is Worth Waiting For, que para mim, superou em todos os aspectos o anterior, The Piper At The Gates Of Doom. O que a banda tem feito desde o lançamento do último álbum até agora?

Carsten Fisch: Nós tocamos no festival “Hammer Of Doom” logo após o lançamento do álbum, o que foi excelente! Pelo lado dos shows, isso foi tudo desde então, infelizmente. Mas nós temos ensaiado quase toda semana, e também já começamos a trabalhar em novas composições; três delas já estão 90% prontas. Então você pode dizer que estamos fazendo o Doom caminhar, no nosso próprio passo “doomshiny”!

Como foi a recepção crítica e a opinião dos fãs da cena Doom europeia em relação a The End Is Worth Waiting For?

Carsten: Nós recebemos uma sólida nota 8,0 da revista Rockhard, por exemplo. E isto foi bem recebido, eu poderia dizer. E também obtivemos bastante feedback positivo por parte dos fãs, então nós estamos muito satisfeitos com a recepção. Alguns criticaram a arte da capa, mas isto foi um bom sinal para nós. Você sabe, a arte polariza (risos) !

O último álbum soa bastante coeso e uniforme. Mesmo assim eu gostaria de destacar algumas músicas para comentar com vocês. Como surgiu a ideia para as letras e a música de Celtic Glasgow Frost?

Timmy Holz: No momento, a ideia para o título veio no fim de um sonho, logo antes de acordar. Isso pode soar estranho mas eu via Tom G. Warrior, do Celtic Frost, parado sob as sombras de um gigante estádio de futebol, me observando e sorrindo pra mim. Intensamente, mas eu não me sentia assustado. Eu apenas me senti bem e acordei com aquele título, Celtic Glasgow Frost. Eu tomei isto como um sinal para combinar partes de letras do Celtic Frost ou títulos de suas músicas com detalhes sobre o clube de futebol escocês Celtic Glasgow. É um tributo à música e ao futebol em geral, mas isto é um começo agradável para um álbum de Doom Metal, não é?

Markus Schlaps, Sven Podgurski, Timmy Holz e Carsten Fisch

Witchburn Road é a música mais longa do álbum, com mais de dez minutos, que mostra suas habilidades como compositores de músicas longas e progressivas, com arranjos muito bem conectados. Como é para vocês compor músicas desta forma, longas e, ao mesmo tempo, empolgantes?

Carsten: Isto é um processo natural para nós. Nós não sentamos e dizemos: “Ok, vamos compor um monstro de 10 minutos”! Estas músicas evoluem em nossos ensaios e em nossas reuniões de composição. As vezes de um riff de guitarra, as vezes de uma ideia bruta de algum integrante da banda. Nossa intenção básica quando compomos é mantê-las empolgantes para nós. E nossas músicas geralmente evoluem durante um período que envolve muitos ensaios. E sim, eu acho que ajuda imensamente o fato de que temos uma variedade de gostos pessoais concernente à bandas de Metal, que nós trazemos para dentro do material do Doomshine.

Outro destaque é a música The Alchemist Of Snowdonia, que, pessoalmente, se tornou a minha favorita. Chamou muito a minha atenção o riff pesado e marcial, que permeia vários momentos da música; soa como Iron Maiden tocando Doom Metal. Gostaria que comentassem sobre esta música e sobre a participação especial do vocalista Sascha Holz.

Timmy: Iron Maiden tocando Doom Metal… Isto soa muito bem! Apesar de eu não ver conexões com o Iron Maiden aqui nós levaremos esta ideia para usar no futuro! As letras são uma homenagem às bandas que nos influenciam, basta olhar para as linhas e você encontrará nossas favoritas. The Alchemist Of Snowdonia representa a mágica e a energia da música, o poder que ela tem de alterar o seu humor de um segundo para o outro. Meu amado irmão Sascha foi convidado para fazer um vocal mais agressivo para pregar a mensagem das palavras “Flash your brain by killing technology”. Isto se refere a uma história verídica que aconteceu em 1987 quando eu estava deitado em minha cama com uma dor de cabeça horrível, e meu irmão veio com o novo álbum do Voivod na época, Killing Technology. Ele iluminou meu cérebro com aquele disco e minha dor de cabeça foi embora. Amor de irmão!

The End Is Worth Waiting For é um álbum mais curto e direto que o seu antecessor, The Piper At The Gates Of Doom, apesar de manter as mesmas características. Isto foi planejado durante o processo de composição do novo álbum ou foi natural?

Carsten: Nós decidimos por isso logo, que nosso foco seria um álbum mais compacto. Eu sempre digo que o Queensrÿche precisou somente de 17 minutos para me deixar surpreendido com o seu EP (risos) ! Mas nós buscamos por um álbum sólido, entre 50 ou 60 minutos, assim como os álbuns de Metal que nós crescemos ouvindo. E eu também mixei o álbum com este espírito em mente.

No que se refere às letras do Doomshine, elas trazem várias ideias otimistas, na contra-mão do que é geralmente abordado no Doom Metal. Como é escrever este tipo de letra tendo como trilha sonora uma música melancólica como é o Doom Metal?

Timmy: Nós trazemos esta tendência otimista desde a fundação do Doomshine. As vezes mais, as vezes menos. Isto se refere ao balanço do mundo em que nós vivemos, sobre o Doom e o “Shine” (“brilho”, em português). Estes princípios de afirmação da vida vieram à tona em nosso último álbum. Nestes tempos em que o mundo parece que vai entrar em colapso de alguma forma, é mais importante agora do que nunca que nós lutemos contra estas ameaças destrutivas que nos rodeiam. Está tão fácil destruir algo! Por que não existe esta mesma motivação para CONSTRUIR algo novo, algo bom, algo que faça as pessoas viverem suas vidas felizes ao invés de esgotá-las? Nós enxergamos a escuridão, mas ela não é total. Isto é o porquê de nós abordarmos frequentemente pontos otimistas. Este é o momento certo de citar Warrel Dane, vocalista do Sanctuary: “Eu escolho otimismo, grite o seu nome”!

Me impressiona muito o modo como vocês refletem suas influências musicais, ao mesmo tempo em que vocês impõem sua identidade musical. As influências de Solitude Aeturnus, Candlemass e da NWOBHM são evidentes; por outro lado, é fácil identificar uma composição do Doomshine. Como vocês conseguem isso e o quão desafiador é compor desta forma?

Carsten: Para nós é bastante natural. Nós não pensamos muito nisso; compomos músicas que nós gostamos de ouvir, e colocamos nossos corações em cada nota. E então você tem uma música do Doomshine. Talvez isto também seja um fator de que nós geralmente não queremos nos limitar, com relação a “o que é Doom e o que não é”. No final, temos uma música Doom, mas nós não nos afastamos para escrever uma música sobre futebol ou sobre um planeta (risos) ! Nós queremos criar algo novo, sem renegar nossas raízes.

A banda foi formada em 2000 com o nome “Sleep With The Devil”, mudando este nome em 2001 para Doomshine. Como surgiu o nome “Doomshine” e qual foi o motivo da mudança?

Carsten: Nosso primeiro nome foi uma decisão apressada para que nos apresentássemos em um determinado show. Nós precisávamos de um nome, até que a música Gates Of Babylon veio no pensamento de alguém, então nós também tínhamos esse nome. Com nossa formação estabilizada, nós quisemos ter um nome que refletia melhor a nossa música. Como nós combinamos temas obscuros com alguns elementos mais claros e positivos desde o começo, alguém veio com “Doomshine”, que é uma brincadeira com “Moonshine” (brilho da lua), pois contém ambas as palavras “Doom” e “Shine”. Encaixou como uma luva!

Em 2004 foi lançado seu debut, o excelente Thy Kingdoom Come. Qual foi a inspiração para a criação da personagem Sad Angel (anjo triste), que protagoniza uma saga em Thy Kingdoom Come e desde então vem aparecendo em suas letras?

Timmy: Sad Angel, que, por sinal, também foi uma ideia para o nome da banda, é uma personagem que representa a humanidade em geral. Pelas suas falhas, dúvidas, perdas, amores e vitórias. Aqueles capítulos não foram contados em ordem cronológica, uma ideia que eu tomei emprestada de minha banda favorita, Saga (uma banda canadense de Rock Progressivo). De qualquer modo, as histórias envolvendo esta entidade que nos representa são as bases para as nossas letras quando não temos uma inspiração límpida para elas. Nós não tomamos muito estas histórias em The End Is Worth Waiting For por causa da simplicidade que nós queríamos carregar, mas eu acredito que nós faremos isso de um modo mais forte em nosso próximo álbum. Então, o Anjo possui um futuro.

Em 2010 tivemos o segundo full-length, The Piper At The Gates Of Doom, que mostrou uma mudança nas composições, que se tornaram mais progressivas. Qual o tamanho da influência deste estilo nas composições do Doomshine?

Carsten: Eu sou um grande fã de Rock/Metal Progressivo, e Sven (Podgurski, guitarrista solo) também gosta de bandas deste gênero. Então é natural que você possa encontrar estas influências dentro de nossa música. Mas eu penso que isto é porque queremos manter nossa música interessante e agradável para nós tocarmos, e, é claro, para as pessoas que a ouvem. Nós apenas preferimos bons riffs de guitarra, e as vezes estes nos forçam a pular uma semínima vez ou outra.

Quais são os planos para o futuro do Doomshine? Tenho visto no Facebook da banda que novas composições estão nascendo no “Doomcave”, seu home-studio, Carsten!

Carsten: Novas músicas estão nascendo em nossa sala de ensaios. O Doomcave é mais um lugar onde eu me transformo num produtor idiota, e torturo meus companheiros de banda com trabalho pesado (risos)! Estamos compondo novas músicas agora. Quando tivermos material suficiente, entraremos no estúdio para gravá-lo, mas não temos um prazo estipulado para isso. Mas você pode entender que nosso plano é continuar fazendo o que temos feito nos últimos 15 anos.

Esta é uma entrevista para um site do Brasil. O que vocês conhecem sobre o Heavy Metal brasileiro, em especial, de Doom Metal?

Timmy: Acho que todos nós conhecemos muito pouco sobre a cena Metal brasileira. Claro, os nomes que eu posso citar são Sepultura, Angra e Krisiun. E sabemos também que aí existe uma enorme cena Black Metal e um underground como um oceano sem fim! Procure no metal-archives.com, e você passará sua vida checando estas bandas (risos) ! Mas eu gosto muito de Hibria; eu os vi ao vivo há 17 ou 18 anos atrás em minha cidade-natal, Ludwigsburg. Na ocasião, eles tocaram uma versão matadora de 2 Minutes To Midnight, do Iron Maiden! E, como fãs de Iron Maiden, conhecemos o Tribuzy. Mas, infelizmente, não conhecemos nada sobre o Doom Metal brasileiro. Nos dê uma dica! (N.R.: após esta entrevista, enviei para Carsten e Timmy o álbum Seasons Of Grief, da banda paulista Fallen Idol, e o álbum Hermético, da banda cearense Pantáculo Místico).

Chegamos ao fim de nossa conversa. Eu gostaria de agradecer, em nome da Roadie Metal, pela disponibilidade de vocês em responder a estas perguntas para os brasileiros. Para mim, pessoalmente, foi uma grande honra entrevistá-los. Por favor, deixem uma mensagem final para os headbangers brasileiros.

Timmy: Muito obrigado pelo seu interesse por esta simples banda da cena Doom Metal underground da Alemanha chamada Doomshine. Agora, peço que escutem a nossa música mais brasileira, chamada River Of January, que, vocês sabem, é a tradução de Rio de Janeiro! Shine On!

 

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Sobre: Bruno Rocha

Bruno Rocha

"Cearense de Caucaia, estudante e professor de Matemática, cafélotra e torcedor do Ferroviário. Desde a adolescência caminha nas veredas da música pesada e desde então é um aficionado e pesquisador de seus diversos gêneros e épocas. Tem preferência pelo Doom Metal, mas flutua facilmente de Burzum a Kraftwerk, passando por Stratovarius e por Genival Santos. Também atende pela Blitz Metal e pelo Whiplash."

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