Aria: bravura e resistência da Fênix do Metal russo (parte I)

by Bruno Rocha

A Rússia é um país bastante peculiar. Não só por ser o maior país do mundo em extensão territorial ou por sempre participar de forma preponderante na História. Quando pensamos em Rússia, pensamos automaticamente em invernos rigorosos, paradas militares de fazer cair o queixo de leigos e na famosa Guerra Fria, uma “guerra” pela hegemonia do mundo travada contra os Estados Unidos, quando o país euro-asiático, junto com outras nações de sua área de influência, ainda atendia pelo nome de União Soviética.

O regime comunista da URSS impunha seus padrões na economia, na defesa, na educação, na infra-estrutura e também na cultura. Quando o Rock começou a assombrar o mundo nos anos 50/60, o governo decidiu criar as VIA’s (Vokalno-instrumentalny ansambl, ou “conjunto vocal-instrumental”), grupos de Pop ou de Rock formalmente reconhecidos pelo Comando, e que deveriam seguir alguns padrões de composição impostos. Tais composições deveriam ser obras de membros da União dos Compositores e da União dos Escritores, órgãos geridos pelo Regime.

Apesar de toda a vigilância do Comunismo, alguns grupos conseguiam se reunir para tocar, ao menos, covers de suas bandas favoritas do lado ocidental da Europa. Dois colegas do Instituto de Engenharia Elétrica de Moscou, Vladimir Holstinin e Vitaly Dubinin, uniram forças e fundaram a banda Volshebnie Sumerki (Mágica do Crepúsculo). Holstinin era o guitarrista e Dubinin, baixista. Para os vocais, convidaram Arthur “Berkut” Mikheev. Esta banda se propôs a tocar covers principalmente de Deep Purple e Rainbow. Porém o Volshebnie Sumerki logo se desfez com a decisão de Dubinin de concluir sua graduação. Berkut foi para a banda de Pop-Rock Autograf e Holstinin fundou, juntamente com o baixista Alik Granovsky, a banda Alpha, em 1983. Outra banda de curta duração, o que levou a decisão de Holstinin e de Alik Granovsky de finalmente integrarem uma VIA, a Poyushchiye Serdtsa (Corações Cantores).

VIA Poyushchiye Serdtsa

Mas um desejo diferente surgiu nas intenções de Holstinin. Desde adolescente ele admirava Black Sabbath, Deep Purple, Rainbow e Jethro Tull. Mais tarde começou a se interessar também por Iron Maiden. A ideia de fundar uma banda de Heavy Metal começava a lhe tomar a mente. A conversa com Alik sobre esse assunto trouxe empolgação também para o baixista, de modo que ambos fundaram a banda Aria, em 1985, que originalmente foi registrada nos cadastros do Governo como um projeto paralelo à VIA Poyushchiye Serdtsa.

Apesar de toda a opressão imposta pelo regime soviético sobre a cultura, já havia bandas de Heavy Metal atuando em solo russo desde 1978, ano de fundação do grupo Kruiz, que começou tocando Pop-Rock e durante os anos 80 passou a fazer Speed Metal. Há de se destacar também a banda Legion, fundada em 1979 e considerada a primeira banda russa genuinamente Heavy Metal. Todas estas bandas passaram por severas dificuldades em seus inícios de carreira. O regime comunista não queria nenhuma influência do Ocidente em suas músicas. Outra pioneira, o Avgust, não teve vida fácil durante a década de 80, tendo que, forçosamente, mudar sua sonoridade diversas vezes sob exigência governamental.

Voltando ao Aria, a banda assim foi batizada após Holstinin pesquisar palavras em um dicionário. Ele anotava as que mais gostava. Teria que ser um nome simples, fácil de transliterar para o alfabeto latino, e que não causasse problemas com a censura do Governo. Para a bateria foi recrutado Alexsander Lvov e para os vocais foi convidado o vocalista da VIA Poyushchiye Serdtsa, Valery Kipelov. Convite esse que foi prontamente aceito pelo cantor.

De material já pronto, o Aria entrou em estúdio para a gravação do primeiro álbum, que foi denominado “Maniya Velichiya” (Megalomania). Longe de ter uma qualidade sonora no mínimo aceitável, o álbum agrada pelas composições em si, que já mostravam a ousadia de Vladimir Holstinin e de Alik Granovsky em compor Heavy Metal calcado na NWOBHM e em Judas Priest, com um pé no Progressivo. Dobras de guitarras e linhas de baixo à la Steve Harris permeiam toda a audição de Maniya Velichiya. O timbre vocal de Valery Kipelov ainda parece frágil em sua primeira incursão ao Heavy Metal. O som da bateria foi muito prejudicado, mais parecendo ecos de distantes sons.

https://www.youtube.com/watch?v=ZOuujdAmpmw

Uma peculiaridade surgiu aqui: as letras cantadas no complexo idioma russo. Eis o motivo de, até hoje, o Aria ainda não ter o devido reconhecimento internacional. Também pudera: o alfabeto cirílico varia de 30 à 47 letras, dependendo do país que o adote. Haja malabarismo para um leigo tentar ler ou entender algo cantado em russo. Decerto que isso até traz um charme às músicas do grupo, não representando, portanto, demérito para o Heavy Metal do Aria.

Seus primeiros shows foram abrindo para a própria VIA Poyushchiye Serdtsa. Foi quando a popularidade do Aria começou a superar a da própria VIA, e assim Holstinin, Granovsky e Kipelov abandonaram de vez o grupo de influência comunista para viverem somente do sonho do Heavy Metal. O baterista Alexsander Lvov logo foi substituído por Igor Molchanov e para as apresentações ao vivo, foi engajado o guitarrista Andrey Bolshakov, que logo também se tornou membro oficial do Aria. A banda também tinha ajuda do tecladista Kirill Prokovsky.

Andrey Bolshakov, Valery Kipelov, Alik Granovsky, Igor Molchanov, Kirill Prokovsky e Vladimir Holstinin

Rapidamente, a banda voltou para o estúdio para registrar o segundo álbum, “S Kem Ty?” (De Que Lado Você Está?), lançado em 1986. A letra da faixa-título faz clara referência à Guerra Fria, que estava começando a esfriar de vez com a lenta abertura econômica e política dos programas Glasnost e Perestroika, impostos por Mikhail Gorbatchev, então manda-chuva da URSS. Musicalmente falando, o álbum é bem mais fraco que o debut. Não é ruim, mas o que aconteceu foi que Bolshakov tomou as rédeas da maioria das composições, que não mostravam toda a ousadia das músicas do álbum anterior. Por outro lado, a qualidade do som é bem superior a de “Maniya Velichiya”. Músicas curtas e de estrutura simples dão a tônica em “S Kem Ty?”, com refrãos pegajosos, boas para se executar ao vivo. Quanto a Kipelov, o vocalista aqui já dava os primeiros sinais do grande cantor que se tornou.

https://www.youtube.com/watch?v=dtf3ZGWJ-KY

A popularidade do Aria só aumentava. Tanto que começaram a aparecer em programas de TV e até fecharam contrato com a gravadora estatal, a Melodiya, que só costumava trabalhar com VIA’s. Mas a ascensão meteórica sofreu um duro golpe.
O baixista Alik Granovsky, peça-chave da musicalidade do Aria, decidiu sair da banda, com o intuito de fundar um novo grupo para tocar Speed/Thrash, algo que não caberia na proposta musical do Aria. Até aí tudo normal, se Alik não houvesse levado quatro dos seis membros do Aria, incluindo o tecladista contratado Kirill Prokovsky. Neste êxodo, sairam Alik, o guitarrista Andrey Bolshakov, o baterista Igor Molchanov e o tecladista supracitado. Recrutaram o vocalista Mikhail Seryshev e o guitarrista Sergey Popov e estava fundado o Master (não confundir com a banda homônima de Death Metal do guerreiro Paul Speckmann). Thrash Metal com teclado? É. Estamos na Rússia, não é?!

O despojo após esta tempestade no Aria se tratava do fundador Vladimir Holstinin e do vocalista Valery Kipelov. Depois deste nocaute, coube aos dois recolher os cacos e reestruturar a banda-sonho do guitarrista. Este recorreu a um antigo amigo, que foi essencial nesta ressurreição.

O Aria não estava morto.

Confira a parte II desta coluna clicando aqui.

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