All That We Are | Blues Corner lança álbum com jornada tridimensional pela essência do blues

O compasso seco da guitarra, que funciona como elemento introdutório da composição, envolve o ouvinte, de imediato, em uma espécie de introspecção curiosamente soturna. Delimitando um ecossistema de estrutura minimalista e de postura aparentemente intimista, é interessante observar a forma como o instrumento insere conotações de seriedade a ponto de beirar o cético. Com o auxílio de uma voz masculina de caráter fanhoso, a canção vai se enveredando, cada vez mais, pelo campo sônico do blues. Ainda assim, não é difícil que Living My Life transpire certo quê de folk conforme explora o contexto harmônico a partir do andamento lírico e da melodia perpetrada, agora, pela dupla de guitarras.

Diferente do que aconteceu na canção anterior, aqui o ouvinte é colocado em contato não apenas com uma frase rítmica madura, mas com uma estrutura conjuntural elétrica, sexy e enérgica. Provocante e puramente sensual, a canção, desde seu início imediato, se mostra apta a se aventurar livremente pelo terreno do blues rock de maneira a transpirar frases sincopadas e trotantes que sugerem uma boa noção de movimento. Lembrando vagamente a roupagem sônica do The Doors, Set Me Free, enquanto apresenta o vocalista se aventurando por um timbre levemente mais rouco, bebe de uma base sonora linear que, felizmente, não interfere no senso de contágio.

Apresentando uma guitarra solo completamente imersa no auxílio do efeito lap steel, a composição rapidamente coloca o ouvinte em contato com uma frase rítmica cuidadosamente pulsante em evidente interação com o escopo harmônico. Enquanto esse perfuma o ambiente com um toque sintético insistente e levemente açucarado ofertado aparentemente pelo teclado, a faixa mantém o legado da composição anterior aceso conforme desenvolve a sua estrutura perante a mesma base blues rock. Leve e contagiante, Highway Of Love fornece um compasso amaciado encantador com uma pitada charmosa de um flerte para com o boogie woogie.

Introspectiva, acústica e um tanto crua, a canção se inicia de uma forma mais sisuda, mas não menos envolvente. Contando com a interação sinérgica entre voz e violão, a canção chama a atenção por misturar estímulos hipnóticos com um andamento melódico atraentemente linear. Graciosamente, porém, Stone In My Shoe cresce com a presença de uma bateria precisa em seu andamento 4×4 padrão do blues e uma aromática presença do dulçor adocicado do hammond abraçando a base sonora. 

Chegando praticamente nos mesmos moldes da canção anterior, Double Screen vem agraciada de um violão de frases marcantes e dominadoras. De identidade sonora seca, mas, ao mesmo tempo, sincopada e folkeada, a obra se deleita na estética obtida pelo lap steel enquanto explora o amadurecimento de um cenário interiorano viciante em seu leve toque de cinismo. Ganhando a presença da bateria comandando o escopo rítmico, a canção não apenas ganha movimento, mas, principalmente, firmeza e precisão expressos especialmente pelos pulsos firmes com que o bumbo fornece a delimitação da cadência.

Definitivamente, desde seu início, ou seja, desde a sua primeira faixa, All That We Are apresenta ao ouvinte não apenas um conteúdo sônico de natureza atraente e contagiante. Acima de tudo, o disco envolve o espectador em uma jornada marcante pela essência do blues, de forma a caminhar por todo o espectro musical que dele derivou.

Diante do total de 16 faixas que regem a sua sequência de músicas, o álbum convida o ouvinte a caminhar pelo blues, claro. Daí em diante, é possível de se esbarrar com o folk, com o blues rock e com boogie woogie de forma a envolver e a surpreender o ouvinte na grandiosidade musical do universo do blues. Não é à toa que as cinco primeiras canções se destaquem em relação às demais. 

Ainda assim, por mais que elas tragam os apontamentos até aqui indicados com mais veemência, existem, certamente, outras faixas que também merecem atenção. É o caso da swingada Living For Real, que conta com a presença marcante e sedutora da gaita e sua postura amaciadamente provocante; de What’s Good, What’s Bad, com sua sobreposição harmônica moldada entre teclado e o sonar do hammond que se mesclam na inserção mais consistente do boogie woogie; e da groovada The Blues Is About Giving All What We Are. Portanto, essa somatória serve para constatar que All That We Are é, pura e simplesmente, uma celebração à força e à representatividade musical do blues.

Mais informações:

Soundcloud: https://soundcloud.com/chris-302165003

Instagram: https://www.instagram.com/bluescorner92/

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