Ela é, no mínimo, uma obra interessante. Afinal, já perante a sua introdução, ela combina uma série de estímulos sensoriais que não necessariamente se completam e se associam. Enquanto o piano oferece densidade e, ao mesmo tempo, leveza com suas notas de sabor adocicado, uma camada sintética promove uma espécie de sobrevoo atmosférico que abraça o ambiente com conotações de um esoterismo entorpecente marcantes.
Inquestionavelmente introspectiva e sem negar a presença de contornos dramáticos na sua identidade sonora, a canção acaba, invariavelmente, mergulhando em um estado melancólico completamente pegajoso. Esboçando boas menções de pungência perante as suas brisas transcendentais, a faixa escorrega na disseminação do torpor conforme amadurece e evidencia a linearidade de sua esfera conjuntural.
No entanto, ainda que o piano siga religiosamente a mesma desenvoltura harmônico-melódica soturna, sons sintéticos do gotejar de água, brisas de uma acidez adocicada aparentemente proveniente do wurlitzer e um beat sincopado são capazes de oferecer, ao ouvinte, as necessárias e aliviantes menções de movimento. Com direito a texturas ligeiramente ásperas preenchendo certas lacunas, a composição é, enfim, agraciada pelo nascimento e desenvolvimento do enredo lírico.
Proporcionado por uma voz masculina delicada e de pronúncias que beiram o sussurro, ele faz com que a canção acabe adquirindo sinais de um viés melodramático envolto em uma angustiante clemência que muito trazem consigo as definições mais tradicionais do metalcore. Não é de se espantar, portanto, que, ao evoluir em suas frases rítmicas, a bateria esboce um grau de sentimentalismo que engrandece essa percepção sensorial.
Densa, grudenta e hipnoticamente viciante, Boring é uma obra em que o Watch Me Die Inside combina atmosferas cinemáticas com contrastes dinâmicos acentuados como meio para transformar repetição, conforto e estagnação emocional em algo genuinamente perturbador. Diante disso, a faixa explora como a rotina é capaz de corroer lentamente a percepção de identidade ao ponto de fazer com que a introspecção suscite em segurança, proteção e conforto.
Tudo isso pode ser muito bem observado perante a união de sonoridades acústicas com outras que aspiram a essência digital, criando um interessante contraste entre o tecnológico e o analógico. Destacada principalmente pela intersecção harmoniosa entre sintetizador e bateria, essa sincronicidade permite que a faixa tenha uma profundidade emocional não apenas marcante, mas impulsivamente reflexiva em razão da forma como traz os efeitos do dia a dia na forma como o indivíduo encara a vida. É assim que o torpor alcança o seu real objetivo de funcionar como um elemento medicamentoso contra o tédio, a autoalienação e a falta de motivação.
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