A guitarra surge diante de um riff que mistura nuances aveludadas e ásperas perante um andamento curiosamente regido por trepidações que tornam a sua desenvoltura intrigante. Entre tons de um grave bruto a ponto de tangenciar o trevoso e um agudo de dulçor quase estridente, o instrumento serve como abre-alas para a aparição súbita de um verso lírico pronunciado de forma intensa de forma a proporcionar a percepção do timbre rasgado e do tom angustiante e desesperado usado pelo vocalista.
Nesse ponto da composição, ainda que diante de seus instantes iniciais, o ouvinte, além de identificar intensidade, visceralidade e profundidade na forma como o escopo lírico-melódico se pronuncia, consegue perceber certas naturezas que indicam o auxílio de inteligência artificial. Primeiro, a guitarra soa perfeita e com uma estridência que denuncia um toque digital. De outro lado, as verbalizações expostas pelo cantor, ainda que rápidas, trazem uma perfeição fora do comum e uma ausência de respiração natural.

Ainda assim, a incandescência, a pungência e o grau de sentimentalismo generoso esboçados na canção fazem com que esses detalhes não interfiram em nada no que tange à receptividade do ouvinte. Agraciada por pulsos rítmicos precisos e bem marcados, a canção, a partir desse detalhe, consegue se felicitar das qualidades de pressão e precisão, garantindo ainda mais firmeza e potência à sua sonoridade.
Com traços sombrios ao mesmo tempo em que é capaz de transmitir inclinações para um campo sonoro industrial em razão do emprego de sonoridades de natureza puramente digital, a faixa vivencia o despertar oficial de seu enredo lírico por meio de uma voz masculina agridoce e levemente empostada. Denunciando uma espécie de torpor que censura os sensos de angústia e agonia, a esfera verbal caminha em uma cadência bem sintonizada com os pulsos rítmicos de essência cada vez mais sincopada.
Explodindo em um refrão que explora a existência de uma dramaticidade no limite do pegajoso, a canção é agraciada por momentos melodiosos que possibilitam um elo maior para com o espectador, o qual se vê envolto em um estado exacerbado de morfina. Com direito a uma paisagem conjuntural que, além de sombria, é respaldada por contornos atmosféricos, CLAIM IT ALL se mostra uma canção metalcore em que o X-ANONYMOUS dialoga abertamente – e sob um tom reflexivo e, inclusive, motivacional, sobre temas como identidade, controle e resistência. Tudo sintonizado com uma postura que, apesar de transparecer introspectiva em certos momentos, é desesperadamente urgente e imediatista.
Porém, ainda que CLAIM IT ALL seja o single de maior destaque de MASKED EXISTENCE, VOL. 3, diversas outras faixas se destacam ao longo da track list. Portanto, exemplos a respeito são o que não falta. Para começar, RIP OUT THE VENOM traz consigo um escopo rítmico-melódico asqueroso e pulsante que desenha um cenário trevoso inquestionável a partir de seus frequentes pulsos percussivos e a sua guitarra cujo riff consegue transpirar desespero e agonia por meio de sua movimentação acelerada e ondulante. Densa e sombria, a faixa chama a atenção pelo seu lirismo de caráter analítico e reflexivo puxado por uma voz masculina de timbre levemente azedo.
BURIED WHERE YOU BLEED, por outro lado, traz consigo maiores incursões industriais por meio de repentes digitais em meio aos precisos pulsos rítmicos que moldam a cadência da canção com a devida força. Ainda assim, o que mais chama a atenção aqui não é, necessariamente, a sua prematura brutalidade, mas o seu desenho conjuntural pautado nos dizeres do metal alternativo. Agraciada por sobreposições vocais que lhe dão certo toque de maciez e uma brisa de sensualidade, a faixa, invariavelmente, desemboca em um refrão de natureza melodramática que retoma a paisagem do metalcore e coloca o subgênero de volta ao centro dos holofotes.
HOLD YOUR SCARS, por sua vez, se destaca em razão de sua brutalidade sônica. Mas não se engane, ela não possui brilhantismo ou qualquer sinal de exibicionismo. O toque do bruto está especificamente na textura dos riffs da guitarra e na pressão dos pulsos da bateria. Caminhando perante uma cadência simples, a faixa é agraciada por versos líricos cuja interpretação sugere, ao mesmo tempo, o fantasmagórico e o esquizofrênico, denunciando a sua versatilidade sensorial.
Em contrapartida, o que o ouvinte vivencia em LET THE FALSEHOOD DIE é uma intensidade visceral e rascante pautada em contornos industriais que se colocam como protagonistas estético-estruturais de todo o ecossistema. Recheada de texturas ásperas muito bem exploradas pela guitarra, a faixa chama a atenção do ouvinte também pelo fato de ser preenchida por um lirismo majoritariamente limpo de efeitos, proporcionando uma degustação mais clara do timbre do vocalista.
Iniciando de forma gradativa de forma a exibir o uso do efeito fade in, WAKE UP, desde o seu início, explora o sombrio e o impulsivo por meio de sua paisagem sonora pulsante e ríspida. Sob um compasso rítmico pautado na métrica do mid-tempo, a faixa segue o viés de LET THE FALSEHOOD DIE em relação à nitidez do timbre do vocalista, mas, nela, esse detalhe não é o mais marcante. Aquilo que torna a presente faixa um produto único é a mistura de seu tom descrente e motivador em relação à aquisição das qualidades da resistência e resiliência para o melhor enfrentamento do caos da vida.
A partir desses vislumbres, o ouvinte consegue perceber que, por trás das estáticas, do excesso de tratamento técnico, de camadas digitais que suscitam o industrial e da profundidade emocional que destaca o metalcore, MASKED EXISTENCE, VOL.3 se consagra como um disco áspero, bruto e pulsante. Um disco que, em meio ao bruto e ao melodrama, convida o ouvinte a pensar e a refletir sobre a existência e sobre a vida.
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