The Rolling Stones: 50 Anos de “Let It Bleed”

by Anderson Frota

Estar na cabeceira do grande levante inglês, do começo dos anos 60, faz com que uma espécie de bolha seja formada ao seu redor e lhe separe imaginariamente de seus verdadeiros pares. O nome dos Rolling Stones deveria ser listado com mais frequência ao lado de bandas como Led Zeppelin, Cream ou Who. Uma boa parte deve discordar, mas essa é a minha opinião. O quinteto inglês não tinha, obviamente, a vontade de mergulhar nas jams instrumentais que caracterizavam as duas primeiras, ou nas viagens temáticas que Pete Townshend desenvolvia para a última, pois o foco do grupo sempre foi o Rock´n´Roll e o Blues. Sim, fizeram várias experimentações no decorrer de seu longuíssimo trajeto, flertando com vários outros ritmos, como Reggae e Disco Music, mas nunca se desviaram da essência. Os Stones, no vinil ou no palco, é uma formação que pode até ser igualada, mas dificilmente será superada.

Permanecer fiel à essência, porém, não é o mesmo que estagnar-se. Os Stones superaram, por diversas vezes, os limites da criatividade musical e, certamente, a produtividade que marcou os anos de 1968 a 1971 é a que melhor representa isso. A trinca de discos que começa em “Beggar´s Banquet” e termina em “Sticky Fingers” representa o ápice estilístico do conjunto. O disco intermediário, conhecido como “Let it Bleed”, é o meu preferido e, curiosamente, é intermediário também no momento pessoal pelo qual a banda passava. Brian Jones foi retirado durante as gravações e faleceu antes de seu lançamento. Mick Taylor estava chegando e contribuiu pouco. Os dois participaram do álbum, mas nenhum chegou a gravá-lo por inteiro, efetuando apenas pequenas participações em duas músicas cada um. Keith Richards fez, praticamente, todo o trampo sozinho. Eu não me incluo entre as pessoas que, atualmente, elevam Keith a esse status de semideus que parece ter retroalimentado o próprio ego do sujeito. Não há dúvidas sobre sua genialidade, mas o fato dele ter tido tal desempenho nesse disco, tão significativo, diz muito sobre o guitarrista, se é que tudo já não foi dito.

E não há dúvidas de que os Stones eram uma superbanda. Os comportamentos discretos de Charlie Watts e Bill Wyman eram pouco mais do que fachadas para dois músicos excepcionais, donos de talento e bom gosto, e tão importantes para o grupo quanto o são Richards e Mick Jagger. É graças a eles que as introduções de “Live With Me” e “Monkey Man” soam tão lindas. Aliás, todos os arranjos desse álbum são algo além do sublime. É dura a tarefa de qualquer música obter destaque em um disco que começa com “Gimme Shelter” e termina com “You Can´t Always Get What You Want”, mas o repertório presente mantém no miolo o carisma contido nas suas extremidades, inclusive porque canções como essas não são simplesmente clássicos dos Stones, ou clássicos do Rock. Elas vão muito além disso: são clássicos da música universal, são clássicos da cultura humana, que ultrapassarão nossa geração e serão celebradas muito depois que os artistas não estejam mais aqui.

Um exército de músicos colaborou com a banda para a realização desse disco, sendo que alguns, como Bobby Keys e Nicky Hopkins, eram parceiros habituais. O mais célebre de todos, porém, era o pianista Ian Stewart, que foi co-fundador do grupo, mas, por questões empresariais, mantinha-se à parte dos holofotes que incidiam sob o quinteto principal. A única participação de Ian aqui foi na música que deu nome ao disco e foi a sua atuação que tornou a canção aquilo que é. Desde o respeitoso tom concedido à cover de “Love in Vain”, de Robert Johnson, até a intensidade de “Midnight Rambler”, estão explícitos os alicerces que fazem com que a banda ainda seja atuante e relevante. Não nos importemos, então, com o fato de que algumas pessoas encontrem diversão fazendo piadas com a faixa etária dos músicos. Trata-se de mera tolice para mascarar a falta de argumentos robustos, afinal, se não fosse por esse inevitável fato, eles não encontrariam outros motivos para tecer críticas aos Rolling Stones.

Formação

Mick Jagger – vocal

Keith Richards – guitarra

Bill Wyman – baixo

Charlie Watts – bateria

Mick Taylor – guitarra

Brian Jones – percussão, autoharp

Músicas

01 Gimme Shelter

02 Love in Vain

03 Country Honk

04 Live with Me

05 Let It Bleed

06 Midnight Rambler

07 You Got the Silver

08 Monkey Man

09 You Can’t Always Get What You Want

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