Roger Waters: artista protagoniza show histórico em Curitiba

by Daniela Farah

No dia 27 de outubro, Roger Waters apresentou seu show da turnê “Us + Them” em Curitiba. O entorno do Estádio do Coritiba estava lotado de pessoas de diversas idades, com camiseta que iam de Pink Floyd, Roger Waters, Tour e Resist. Pessoas sozinhas, casais, grupos de amigos, família. Waters conseguiu reunir todos os tipos de público num só show. Poucos artistas conseguem realizar isso de verdade, mas Roger Waters provou ser uma unanimidade e conduziu um show histórico. Não a toa, o resultado foi sold out de ingressos, com um público total de 41.480 pessoas.

A estrutura montada para o evento era imensa, fato que muita gente ficava surpresa ao entrar no local. O palco estava montado em três partes, com um telão atrás. Os instrumentos estavam no meio, com uma cobertura, caso a chuva resolvesse aparecer. O público estava dividindo entre a pista premium, que ficava logo a frente do palco, a pista comum, um pouco atrás, e as arquibancadas.

Fotografia: Daniel Castellano.

O interessante foi que, não importa onde estivesse nessa divisão, as pessoas tiveram acesso aos recursos gráficos que foram o ponto alto do show. É importante aqui definir que o show de Roger Waters vai além da música. Como bom artista que é, transforma a apresentação em um espetáculo, e atualiza as definições de entretenimento. Pouquíssimos shows carregam a carga dramática que Waters proporcionou em sua performance.

O início do show estava marcado para as 21h30. No telão, um vídeo de uma mulher sentada na areia da praia, com uma manta nas costas e vento nos cabelos, aguardava o público. De repente, o céu da imagem começou a ficar avermelhado e a intro “Speak to Me” de “The Dark Side of The Moon” começou a tocar, seguida de “Breath (In the Air)”.

As imagens exibidas no telão se alternavam entre desenhos psicodélicos e retratos de pessoas em situações sociais extremas como miséria e violência. Em “Time” as ilustrações de relógios se alternaram com imagens de pessoas dormindo na rua, enquanto o vocalista cantava “home, home again/I like to be here when I can/And when I come home cold and tired/It’s good to warm my bones beside the fire” (Em casa, novamente em casa/Eu gosto de estar aqui quando posso/Quando chego em casa cansado e com frio/É bom para esquentar meus ossos ao lado da lareira)

Fotografia: Daniel Castellano.

Obviamente uma grande crítica e tentativa de conscientização para a pobreza existente no mundo. E é nesse ponto que se dá a compreensão do trabalho de Roger Waters, não meramente como um músico, mas como um artista completo que utiliza sua criação para expor suas ideias e lutar pelo que ele acredita. Por isso, ele vai além da questão musical, e, como já dito acima, ele converte seu show em uma obra, com conceito, utilizando a música e os elementos gráficos para desenvolver a consciência daquilo que ele acredita como correto.

“The Great Gig in The Sky” transforma o telão em um céu com diversos pontos brilhantes enquanto mostra ao fundo as duas cantoras, com cabelos loiros e curtos e muito, muito brilho. Ela contrastou muito bem com o vermelho trazido logo após por “Welcome to the Machine”.

Por conta de toda a questão de seu posicionamento político trazido em outros shows no Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral alertou Roger Waters sobre a proibição de fazer qualquer tipo de manifestação após as 22 horas, em relação às eleições brasileiras que aconteceriam no dia seguinte. Portanto, durante a meia hora de show houve uma certa expectativa sobre o artista faria. Ele desacataria a ordem do TSE e se manifestaria como o fez anteriormente? Ele acataria e não falaria nada?

A resposta veio muito próxima das 22 horas. O telão ficou preto. “Essa é a nossa última chance de resistirmos ao fascismo antes de domingo./ Mas disseram que não podemos falar sobre eleições depois das 10 da noite./ Ele não! / São 10 da noite./ Obedeçam a lei.

Os momentos que se seguiram depois foram de tensão. O público se dividiu entre vaias e gritos da palavra “mito”, referindo-se ao então presidenciável (e agora eleito) Jair Bolsonaro, quanto a quem logo depois dessa manifestação, gritou “ele não”.

Na sequência, Waters tocou “The Last Refugee” do seu álbum “Is This The Life We Really Want”. Uma escolha astuta, já que sonoramente ela acalmou os ânimos, mas tem em todo o seu contexto lírico a crítica em relação ao que se perde nas guerras. O telão exibiu quase que integralmente o clipe da música, que traz a atriz Azzurra Cacetta dançando flamenco. O clipe em si é extremamente poético.

“Wish you were here” foi uma das músicas mais aplaudidas. “Another Brick in the Wall” partes 2 e 3 trouxe ao palco crianças vestidas com um macacão laranja, cantando e fazendo símbolos de resistência, até chegar ao auge da música em que elas o arrancam e por baixo estão com uma camiseta escrito “Resist”. Novamente o público reagiu dividindo-se por entre “ele não” e “mito”. Roger Waters respondeu com um “I love you too”, e fez um discurso ao dizer que “Este é um show sobre amor”, “nós somos todos irmãos e irmãs, e somos todos iguais.”

Algumas pessoas foram embora durante a pausa. O telão passou diversas mensagens sobre resistência contra a guerra, antissemitismo, neofascismo, contra as discriminações feitas baseadas na religião e etnias, entre outros.

Eram quase 23 horas quando apareceu a mensagem: “Tem animais que são mais iguais que outros. Como porcos ou cães”. A luz apagou e uma sirene começou a tocar. O telão se transformou em um pedaço de terra onde pilares subiam. Torras saíram do telão e ganharam vida soltando fumaça. Estava recriada ali a capa de “Animals”, com balão de porco pendurado e tudo.

Houve uma simulação de que ele estava com uma máscara de ovelha, servindo as pessoas com máscaras de porco. Roger apareceu com uma máscara de porco, retirou ela e andou pelos dois lados do palco com a placa “Fuck the pigs”. Um balão de porco gigante passeia pelo público, com a mensagem “Seja humano/Stay Human”. Outro balão que foi para a plateia foi uma lua gigante durante a música “Brain Damage”. Mas nada como o prisma característico do álbum “The Dark Side of The Moon” que se formou no meio do público.

Fotografia: Daniel Castellano.

Roger Waters apresentou a banda, e disse que eles são músicos incríveis. Há muito o que se aprender com um show como esse. Porque são momentos assim que se resgata sobre o que é a arte, a música, o rock e porque jamais devemos deixar isso morrer. A sensação que fica após um show como esse é que a música vai além de simplesmente algo a se ouvir, é uma ideia, um estilo de vida, uma experiência. Coisa que Roger Waters sabe muito bem e com certeza o transformou em quem ele é.

O telão termina com a mesma imagem do início, mas uma criança aparece. A esperança é restaurada. As luzes se apagam e as pessoas vão embora. Fim.

Confira o set list completo nessa playlist do Spotify:

 

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