Rock´n´Road: festival reuniu rock´n´roll e motociclismo em prol de causa social

by Daniela Farah

Dia 12 de outubro é feriado nacional e comemoração de dia das crianças. Em Curitiba essa comemoração ganhou outros ares, neste ano. O Festival Rock´n´Road reuniu mais de 8 mil pessoas, com inspiração no espírito livre da estrada, com muito rock´n´roll, motociclismo, gastronomia, e ainda família e solidariedade.

Uma das coisas bacanas a se dizer é que, além da diversão, o evento teve um viés social muito forte em parceria com o Hospital Erasto Gaertner , de conscientizar as pessoas sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer através do projeto Conscientizar + e do Outubro Rosa Curitiba 2019. E o resultado foi muito importante, a organização esperava arrecadar uns R$ 200 mil, mas fechou com o dobro: R$ 400 mil que serão revertidos para a construção do Erastinho.

A estrutura do Festival Rock´n´Road era dividida em dois palcos, o original da Pedreira Paulo Leminski e um palco montado pelo Hard Rock Cafe, com direito a guitarra e tudo. Um púlpito com Elvis (Rogerio Cordoni) recebia as pessoas para um casamento improvisado, em clima de Las Vegas. Também havia uma tenda no meio com diversas atrações de bares, motociclismo, lojas, e food trucks.

A icônica guitarra do Hard Rock Cafe, cor-de-rosa em homenagem ao Outubro Rosa. Fotografia: Angela Missawa.

Sensação do Rock in Rio, Júnior Bass Groovador fez uma participação tão especial que tocou com diversas bandas durante o dia. Juninho, como ficou conhecido, foi convidado pelo próprio Jack Black para se apresentar com sua banda, o Tenacious D. No festival curitibano, a primeira participação foi com a banda T-Ale, que tocou alguns covers, entre eles “Ciúme” do Ultraje a Rigor, com Groovador.

Curitiba é um celeiro de bandas boas. Alguma coisa no clima destemperado da “Rússia Brasileira”, aliado a muita garra e talento, claro, que gera bandas como o Motorocker. Eles subiram ao palco, completamente ensolarado, quase 16 horas. E vale dizer isso porque um show em plena Pedreira Paulo Leminski, com um sol daqueles, é só para os fortes, ou no caso, para Marcelus dos Santos, no vocal, Luciano Pico e Eduardo Calegari nas guitarras, Silvio Krügger no baixo e Juan Neto na bateria. A primeira música foi o hino do Motorocker “Igreja Universal do Reino do Rock”, seguida por “Acelera e Freia”, “Blues do Satanás”, “Rock na Veia”, “Aonde Você Vai Eu Não Vou”.

Motorocker. Fotografia: Angela Missawa.

“Obrigado aos motoqueiros que estão apoiando o evento. Seja um cabrito ou uma Harley. Seja uma inglesa ou japonesa. Triciclo ou traquitana. Não importa a máquina, mas sim o espírito.”, disse Marcelus declarando os versos que anunciavam a próxima música: “M.C. Brasil”. Outra dedicatória feita pelo vocalista foi a música “Homens Livres”: “Gostaria de dedicar ao Hospital Erasto Gaertner e a todos os homens e mulheres livres, independente da opção sexual.”. O show ainda contou com os sucessos “Curva de Rio”, “Brasil”, “Pegada Seca”, “Salve A Malária”.

Motorocker. Fotografia: Angela Missawa.

Raimundos não é de Curitiba, como todo mundo já sabe, mas tem uma longa história com a cidade, segundo os próprios integrantes. Em 2016, foi por aqui, no Teatro Positivo, a gravação do DVD, com convidados especiais. Curitiba também foi uma das cidades escolhidas para a gravação do MTV Ao Vivo, no ano 2000. E se a gente buscar ainda mais fundo, em 12 de novembro de 1994, o Raimundos tocou na Pedreira Paulo Leminski, com Ramones, Sepultura e Viper. Fato esse que foi lembrado pelos próprios integrantes. “Há exatamente 25 anos atrás a gente estava nesse mesmo ligar abrindo pro Ramones.”, contou Digão. Essa conexão começou em 1995, quando o grupo escolheu o Aeroanta (que na época era a principal casa de shows da cidade) para gravar o primeiro DVD ao vivo da história da banda. No ano 2000, o grupo também registrou algumas imagens do CD/DVD “MTV Ao Vivo” no antigo Curitiba Master Hall e, em 2017, o Raimundos gravou o DVD/CD “Acústico” no Teatro Positivo.

Digão. Fotografia: Angela Missawa.

Eles subiram ao palco lá pelas 17 horas. O sol já tinha começado a dar uma trégua e abandonou o palco. “Isso aqui é Curitiba ou Piauí?” disse Digão se referindo ao calor, que não é característico a essa cidade do sul do país. Curioso que essa turnê é de comemoração aos 25 anos do lançamento do álbum “Raimundos”. Nessa turnê, além da formação normal da banda com Digão (guitarra e vocal), Canisso (baixo), Marquim (bateria) e Caio (bateria), o grupo também conta com Fred, o baterista original do Raimundos.

Canisso e a convidada da noite: Chitara. Fotografia: Angela Missawa.

Entre os sucessos estavam “Puteiro em João Pessoa”, “Carro Forte”, “Cajueiro / Rio das Pedras”, “Esporrei Na Manivela”, “Bicharada”, “A Mais Pedida”, “Reggae do Manero”. “O pior cego é aquele que não quer ver… o oco.”, disse Digão anunciando o clássico “Eu quero ver o oco”. Digão solicitou a presença de Chitara, que chegou ao palco ao som de um Judas Priest improvisado. Quem é essa? É a moto estilizada do vocalista. Ela fez tanto sucesso que chegou a levar uma lambida dele, o senhor Júnior Bass Groovador, que subiu para groovar “Mulher de Fases”. Juninho chegou com seu bordão: “Aí galera alto astral vamos vencer na vida?”.

Juninho Groovador com Raimundos. Fotografia: Angela Missawa.

Lá pelas 19h20, o diretor da Prime, Mac Lovio Solek, subiu no palco para agradecer pessoalmente os patrocinadores e apoiadores do evento e anunciar a chegada de Frejat. O cantor trouxe toda a carga emocional dos anos 80 para a noite, e junto com ela a sua extensiva obra, de quem não parou de produzir sucessos nacionais. Ele começou com as clássicas do Barão Vermelho: “Puro Êxtase”, “Pense e Dance”, “Pedra, Flor e Espinho”. Mas não dá para falar de Barão e não citar Cazuza, certo? “Uma parceria minha com o Cazuza que eu venho tocando de dois anos pra cá.”, disse Frejat ao anunciar “Ideologia”. Em seguida foram “Ponto Fraco” e “Homem não Chora”, para então o vocalista anunciar mais uma “Obrigado. A gente agora vai tocar um blues bem brasileiro.” O escolhido foi um clássico do Tim Maia, “Me Dê Motivo”, e na sequência “O Poeta Está Vivo”, “Codinome Beija-Flor”, “Por Você”, “Segredos”, “Amor Pra Recomeçar”, “Por Que a Gente é Assim?”, “Bete Balanço”, “Maior Abandonado”.

Frejat. Fotografia: Angela Missawa.

Sempre tem aquele que pede um Raul no meio dos shows, certo? O grito “Toca Raul” acompanha diversos shows e o bordão já faz parte do universo artístico musical da cena brasileira. Em qualquer show, seja grande ou em barzinho, roda de violão, acontece o que alguns chamam de Maldição do Raul. Mas e quando o “Toca Raul” vem do próprio músico? Sim, o Frejat foi quem abraçou a ideia e pediu um Raul no meio do show. “No Brasil, festival de rock sem Raul Seixas não é festival de rock”. E, em homenagem ao artista, ele tocou “Tente Outra Vez” e “Só Pra Variar”, com o público que também abraçou a ideia e gritou muito “toca Raul”. Muito consciente, prático e preocupado, Frejat fez um acordo com o público para tocar o bis antes. Ele adiantou as coisas porque viriam mais duas bandas pela frente e ele não queria atrasar mais o show. “Eu queria agradecer a Prime por esse convite de participar desse evento maravilhoso, e parabéns a vocês por estarem curtindo esse evento em paz aqui, é muito bacana. A gente vê todo mundo se divertindo em paz, cada um na sua, isso é que é bom.”, seguido por aplausos do público.”, disse ele, na despedida. “Exagerado” foi a escolhida para terminar o show.

Frejat. Fotografia: Angela Missawa.

Durante os intervalos dos shows no Palco da Pedreira, o Palco do Hard Rock Cafe funcionava a pleno vapor com os covers de bandas conhecidas. Entre as bandas que tocaram lá, estavam nomes como República Pine, Rock Bugs, BOR e Punkake, que também chamou Juninho Groovador para uma participação especial. O sócio-diretor do Hard Rock Cafe Curitiba, Brunno Kukulka, já havia comentado que o fato seria com certeza um marco para a rede. “A Pedreira é um dos lugares mais rock do mundo e estamos felizes em estrear um palco com artistas da cena curitibana. O Hard Rock Cafe Curitiba é um dos principais apoiadores dos artistas da cidade e esta é uma chance incrível de disseminar música de qualidade e produzida aqui”, contou.

Punkake foi uma das bandas escolhidas para o palco do Hard Rock Cafe. Fotografia: Angela Missawa.

Marcelo Falcão é outro artista que tem uma ligação especial com Curitiba. Sua ex-banda, O Rappa, já fez diversos shows na cidade, e sempre foi muito bem recebido pelo público. O cantor, que está agora com sua carreira solo, lançou em fevereiro deste ano “Viver (Mais Leve que o Ar)”. Apesar da mensagem de paz, houve também protesto em relação a alguns dos acontecimentos recentes como a morte de Marielle Franco e os desmatamentos na Amazônia. Desenhos de anjos e imagens esteticamente muito bonitas, relacionadas a fé e esperança, passavam no telão.

O Rappa. Fotografia: Angela Missawa.

Mesmo trabalhando o som de seu novo projeto, ele não deixou de incluir no set list os sucessos do Rappa, a banda que ele comandou os vocais por 25 anos. Como “Vapor Barato”, “Pescador de Ilusões”, “Reza Vela”, entre outros. “Queria uma salva de palmas, por favor. Essa terra que nos acolheu muito bem no passado e nos acolhe até hoje. Faz barulho aí Curitiba.”, disse Falcão.

Marcelo Falcão. Fotografia: Angela Missawa.

Quem ficou com encargo de finalizar esse dia cheio de espetáculos foi o Ira!, que o fez com uma maestria divina de quem tem mais de 35 anos de estrada, e uma simplicidade de quem sabe que a música vai além do sucesso, toca corações e cria histórias. Eles subiram ao palco um pouco antes das 23h30. O público participou o show inteiro, e inclusive numa espécie de dueto feito com o guitarrista Edgard Scandurra em que ele tocava e o público gritava e aplaudia.

Ira! Fotografia: Angela Missawa.

O set list foi composto pelos sucessos do grupo como “Longe de Tudo”, “Flerte Fatal”, “Dias de Luta”, “Flores em Você”, “Tarde Vazia”, “Vida Passageira”, “Gritos da Multidão”, “Eu Quero Sempre Mais”, “Advogado do Diabo”, “Pra Ficar Comigo”, “Envelheço na Cidade (Feliz Aniversário)”, “Núcleo Base”, “O Girassol” e “Bebendo Vinho”. Eles também fizeram uma pequena homenagem a algumas músicas, a mistura começou dois gritos de guerra do Ramones “Hey ho, let’s go”, refrão conhecido da música “Blitzkrieg Bop” e “Gabba Gabba Hey!”, da música “Pinhead”. Terminou com “You Really Got Me”, do The Kinks, um hit de 64 com acordes tão poderosos que influenciaram músicos de rock mais tarde. “Obrigado a vocês que nos esperaram até o final. Muito obrigado Curitiba que sempre nos recebeu de uma maneira especial.”, agradeceu o vocalista Nasi.

Nasi. Fotografia: Angela Missawa.

E assim foi o fim de um sábado de sol e diversão, em prol de um objetivo social, dentro de um dos marcos que fazem parte da história de Curitiba, com muita música de qualidade.

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