Roadie Metal Entrevista: Pandemmy – 11 anos de underground e ativismo

by Renan Soares

Há 11 anos na ativa no underground pernambucano, a banda recifense de Death/Thrash Metal Pandemmy lançou nesse mês, seu terceiro álbum de estúdio intitulado “Subsversive Needs”, sucessor do “Rise of a New Strike”, de 2016. Além desse, a banda também tem lançado o “Reflections & Rebellions”, seu primeiro álbum, de 2013, e o split album “Obliteration”, lançado ano passado em conjunto com a banda italiana Abscendent.

No novo trabalho, o agora quarteto recifense apresenta uma nova formação, uma sonoridade mais puxada para o Death Metal, e uma temática socio-política mais direta ao ponto.

Para falar sobre isso, e outros pontos da carreira, a banda formada por Guilherme Trovador (guitarra e vocal), Pedro Valença (guitarra), Marcelo Santa Fé (baixo) e Vítor Alves (bateria), conversou um pouco com a Roadie Metal.

Roadie Metal: Contem-nos um pouco sobre como surgiu a banda.

Pedro Valença: O Pandemmy surgiu em 2009, influenciado pela sonoridade comum daquela década, principalmente a que se praticava aqui no Brasil. Elementos do Death e do Thrash metal são majoritários em nossa sonoridade e podemos citar bandas nacionais como Torture Squad, Sepultura, Claustrofobia e Andralls como as influências mais fortes, além de grupos gringos como Carcass, Kreator, Megadeth e Kataklysm.

Roadie Metal: Atualmente, vocês tem uma temática sócio-política bastante forte isso era pensado desde o início, ou vocês foram definindo com o tempo?

Pedro Valença: Desde a fase inicial nós tínhamos esse propósito, porém abordávamos esses temas sociais de uma forma menos específica, mais generalista. A formação inicial tinha na maioria seus vinte e poucos anos, então ainda estávamos moldando nossos pensamentos. Com o passar do tempo o interesse em se aprofundar nessas causas aumentou e com isso passamos a ser mais específicos em nosso conteúdo lírico. Esse amadurecimento natural foi bacana. Também não nos arrependemos de nada que tenhamos escrito nos primeiros trabalhos.

Roadie Metal: Como vocês tem lidado com as constantes mudanças de formação que a banda tem passado?

Pedro Valença: O Pandemmy sempre sofreu muito com trocas de integrantes no vocal e na bateria. Para exemplificar melhor: Guilherme Silva está na banda desde 2014, além dele tivemos apenas Diego Lacerda (membro original) como guitarrista. O mesmo acontece com Marcelo Santa Fé, baixista, que entrou na banda em 2013, substituindo Augusto Ferrer, também membro original. Eu, Marcelo e Guilherme estamos juntos todo esse tempo, temos nossa forma de trabalhar juntos e nenhuma divergência entre nós foi suficiente para abalar nossa confiança. Trocar de membros quebra o entrosamento musical e atrasa os planos de shows e gravações. Nas relações interpessoais pode ser positivo, pois é o velho clichê: banda é que nem casamento… Como um quarteto nós estamos funcionando melhor do que nunca! Esperamos que Vitor Alves (baterista desde 2019) permaneça conosco por muitos e muitos anos.

Roadie Metal: Falem um pouco do novo álbum “Subversive Need”.

Pedro Valença: É nosso melhor álbum. Tem todos os elementos dos álbuns anteriores, escrevemos nossas melhores letras e músicas, nos posicionamos sobre o atual momento político que o mundo ocidental vive, além de conseguirmos nossa melhor produção musical.

Guilherme Trovador: O ‘Subversive Need’ ficou um álbum bem completo, que musicalmente representa muito bem como a banda está, carrega a influência de cada membro presente na formação. E na parte lírica, retrata perfeitamente a atual situação caótica do nosso país e do mundo. Tenho um grande apreço por este registro!

Roadie Metal: Falem um pouco das participações especiais no novo álbum.

Pedro Valença: Sempre teremos participações em nosso álbum para agregar algo novo em nossas músicas. Contamos com a participação de Danilo Coimbra (MALEFACTOR) na faixa ‘Free Mumia (A Panther In The Cage)’, fazendo o primeiro solo de guitarra da música. Também teve o Lohy Silveira (REBAELLIUN) que dividiu os vocais com Guilherme em ‘Webchaos’. Tentamos uma participação especial feminina, mas não conseguimos. Espero que no próximo álbum tenhamos alguma musicista somando as nossas composições.

Roadie Metal: Como foi fazer um Split álbum com a Abscendent?

Pedro Valença: Foi uma ótima experiência. Dividir um lançamento com outra banda foi muito agradável. Vamos repetir essa ideia com outro grupo num futuro próximo. O resultado rendeu elogios, mesmo os dois grupos praticando sonoridades distintas. Inclusive estamos em contato, pois o Abscendent é da Itália e eles estão bem, mesmo diante da quarentena e da forte crise do Coronavírus.

Roadie Metal: Para você, como a banda evoluiu do “Reflections & Rebellions” para o “Subversive Need”?

Pedro Valença: São várias evoluções. Da pessoal à musical. 11 anos de atividades ininterruptas no underground com três álbuns lançados nos dá uma boa experiência. Musicalmente a principal evolução foi na pré-produção. As músicas passam por um processo de arranjo e composição mais elaborados.

Roadie Metal: Para vocês, o novo álbum está mais puxado para o lado do Death ou do Thrash?

Pedro Valença: Eu acho que ligeiramente mais puxado para o Death Metal, mas depende muito de quem ouve e de suas referências musicais. Os riffs de guitarra são bem variados, tem muitas passagens de Thrash Metal. Os arranjos não são tão ortodoxos como no Death Metal mais Old School. É o álbum com mais pedal duplo, blast beats e juntamente com o vocal gutural de Guilherme nos aproximamos mais do Death Metal.

Guilherme Trovador: Eu vejo que desde ‘Rise Of a New Strike’ a banda já vem pendendo para o lado do Death Metal, a cada lançamento. No ‘Subversive Need’, apesar da mescla de cadências, temos o nosso álbum mais Death Metal já lançado até agora, com apenas algumas passagens que remetem ao Thrash.

Vítor Alves: Death Metal. Pelas melodias nos arranjos que colocamos nas músicas, pelas variações nas linhas de batera (principalmente na música “Charlottesville”) e pelo o potente vocal de Guilherme… Considero um disco diferenciado dos anteriores. É um álbum onde tem o feeling de cada membro.

Marcelo Santa Fé: Os elementos do Death Metal estão mais presentes, porém não se resume a isso, o álbum é uma síntese do que escutamos e estudamos, que muitas vezes nem é metal, mas que estão presentes em algumas passagens.

Roadie Metal: Como foi para Guilherme se adaptar a dupla função de vocalista e guitarrista?

Guilherme Trovador: Há mais ou menos um ano, eu tinha começado a ensaiar com minha outra banda, Trovador, já no posto de guitarra e vocal. Então, quando ficamos sem vocalista no Pandemmy, me propus a cantar e tocar guitarra. Foi apenas uma questão de decorar as letras e fazer uma rotina de ensaios diários para me sentir seguro nos palcos.

Pedro Valença: Guilherme tem se saído muito bem, evoluindo a cada ensaio e a cada show. Tivemos que fazer breves adaptações nas músicas mais antigas, pois elas foram arranjadas para duas guitarras livres, e agora com Guilherme dividindo as funções tivemos que fazer essa espécie de revisão.

Roadie Metal: Para vocês, política e metal andam juntos?

Pedro Valença: Com certeza. Não entendo porque há músicos dentro do metal que acham o contrário. O Heavy Metal é um gênero musical que incomoda o status quo. Incomodava muito nas suas três primeiras décadas de vida, pois era visto como um estilo marginalizado, rebelde e contrário à tradição cristã ocidental. Criticar o cristianismo, condenar o conservadorismo e pregar um estilo de vida mais libertário através de uma musicalidade violenta e expressiva é pura política. Os que não compreendem isso deveriam buscar os amplos conceitos de política e se desapegar da ideia etimológica eleitoral. A partir dos anos 2000, o Heavy Metal, como música, também se tornou um produto e com isso pessoas passaram a consumi-lo sem saber de onde surgiu e porque surgiu. Esquecem que música é arte e que a arte pode (e deve) ser subversiva. Apenas consomem como entretenimento.

Marcelo Santa Fé: O Metal é em essência subversivo e como banda, historicamente sempre abordamos temas políticos. Observamos que chegamos ao ponto em que o cerceamento às opiniões divergentes, principalmente em relação ao cenário político atual é tão forte que, em alguns casos, soa como algo subversivo aos ouvidos conservadores. No entanto, não a temos intenção de mudar o foco, principalmente agora, onde soar subversivo por suas opiniões é fundamental.

Roadie Metal: Tendo em vista o momento em que estamos passando por conta da pandemia do Coronavírus no mundo, qual a importância da música em geral nessa situação?

Pedro Valença: Apesar de termos a palavra ‘pandemia’ como influência para o nome da nossa banda, o sentimento é de preocupação. Temos parentes idosos e apesar de não nos enquadrarmos na faixa de idade de risco, não queremos ser vetores de transmissão. Estamos tomando todos os cuidados possíveis e exigidos.

Marcelo Santa Fé: A música, por natureza, tem a capacidade de manter as pessoas unidas, é uma das mais antigas formas de comunicação conhecidas. Neste momento de crise mundial, ela tem sido sinal de esperança. Na Europa, pessoas têm cantado juntas a partir das janelas de suas casas, espalhando o sentimento de que “você não está sozinho”. Esta é uma amostra de que a ela fortalece o espírito humano, ajudando a nos manter conectados, mesmo diante de algo tão ameaçador.

Vítor Alves: Como músicos, podemos praticar um pouco mais nossos instrumentos durante um horário que normalmente estaríamos realizando outras atividades profissionais. Permite-nos criar novas músicas.

Roadie Metal: Como vocês veem a cena local atualmente?

Pedro Valença: Comparado ao período que a banda surgiu, há menos público e menos locais para tocar. Em contrapartida, produzir música se tornou mais acessível por conta da tecnologia. Pernambuco tem uma cena muito abrangente, com bandas que atendem aos diversos subgêneros dentro do Heavy Metal e com muita qualidade. Fica a reflexão de como podemos atrair e renovar o público.

Roadie Metal: Há algo que vocês queiram acrescentar?

Pedro Valença: Primeiramente, obrigado a Roadie Metal pelo espaço! Curtam nossas redes sociais (Facebook, Instagram e YouTube). Não só as nossas, como das bandas da cena underground que vocês gostem, além dos veículos de comunicação sobre o Metal nacional. É importante para que nos mantenhamos instigados a criar arte e manter uma cena. Apreciem nosso novo álbum, ‘Subversive Need’! Ele está disponível em todas as plataformas de streaming e em breve em formato físico. Se cuidem durante essa quarentena. Nos vemos em breve nos palcos!

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