Resenha: Saint Vitus – Saint Vitus (2019)

by Bruno Rocha

Um novo estilo de Rock ou de Metal não surge de forma proposital através de uma banda ou de um músico. Não adianta um músico propor em sua mente criar um novo gênero musical. Tentar criar algo assim de forma deliberada é deveras arriscado. Eu mesmo já ouvi bandas que dizem ter criado um novo estilo, mas que na verdade mal passaram de um remendo muito mal costurado de dois ou três estilos já existentes.

Quando o Saint Vitus surgiu em 1978, ainda sob a alcunha de Tyrant, a intenção de Dave Chandler (guitarras) e companhia não era criar o Doom Metal. Até porque, neste caso particular, o mesmo já existia inconscientemente através de Black Sabbath, Pentagram e Bedemon desde a primeira metade do setentismo. Tudo que o Tyrant queria era praticar seu Heavy Metal com fortes influências vindas do lado mais obscuro da banda de Tony Iommi. Posto isso em prática, o Saint Vitus se tornou uma das bandas pioneiras no começo dos anos 80 daquilo que viria a ser conhecido como Doom Metal, desta vez como gênero emancipado e com nome próprio. E é exatamente por ter sido pioneira inconsciente de um novo gênero musical que o Saint Vitus não se obriga ou se prende a tocar aquilo que construiu. Junte-se a isso o fato de que a banda existe há mais de 40 anos e é reconhecida como uma das grandes de seu habitat musical e do Metal em geral, de modo que eles mesmos podem tocar o que lhe derem na telha sem precisar provar nada para ninguém.

A não ser para eles mesmos.

O novo álbum do Saint Vitus é autointitulado, o que não deixa de ser algo bastante curioso tendo em vista que o debut da banda, lançado em 1984, também se chama Saint Vitus. E não, não é uma regravação ou um relançamento. É um álbum de inéditas mesmo, que traz marcado em si duas novidades marcantes na formação da banda. A primeira é a estreia do baixista Pat Bruders (Down, ex-Crowbar), que substitui o guerreiro Marc Adams, membro do Saint Vitus desde sua fundação e que lutou até onde pode contra o Parkinson para poder se manter de pé em um palco. A outra novidade não é bem uma novidade. Se um dos membros fundadores deixou a banda, outro retornou. Foi o clássico vocalista Scott Reagers, que gravou os dois primeiros álbuns da banda e que teve uma segunda passagem nos anos 90 no período do perfeito Die Healing (1995). A menos do período entre 1992 e 1994 onde os vocais foram assumidos pelo sueco Christian Linderson, o microfone do Saint Vitus era uma bola de tênis, para lá e para cá em uma partida jogada entre Reagers e o não menos lendário Scott “Wino” Weinrich. Apesar deste segundo ter uma voz bastante reconhecida e ser um dos grandes músicos do Doom Metal, ele tem agora de volta sua banda principal, o The Obsessed, onde ele pode extrair melhor e com 100% de liberdade seus lados cantor e guitarrista. Reagers é um vocalista mais completo e capaz que Wino, e seu retorno ao Saint Vitus abre mais possibilidades de composição e ousadia ao quarteto. Faltou falar do baterista de mão pesadíssima Henry Vasquez, que permanece na banda e que, como dizem os cearenses, “bota pra descer” na bateria.

Como ser ousado tocando Doom Metal “sabbathico”? Compondo os riffs e as passagens de Remains, faixa que abre os trabalhos. É muita ousadia compor trechos lentos, negros, terroristas e mortais desta forma, coisa que Dave Chandler e poucos no mundo conseguem. Outra forma de ser ousado? Tocando uma música bem leve como A Prelude To…, com poucos acordes de guitarra em timbre limpo com chorus adocicado com uma pitadinha de tremolo e a bela voz de Reagers (Wino, com aquela voz “Lemmystica” não cantaria essa música nem se quisesse). A linha de baixo que encerra esta música emenda fortíssima na introdução da próxima, a rápida Bloodshed, onde Scott Reagers mostra sua versatilidade vocal indo de vocais limpos com vibratos até drives quase guturais em uma mesma frase da letra. A frenética, agressiva e mortal 12 Years In The Tomb prova que o Saint Vitus ainda tem muita lenha para queimar e pescoços para decepar.

Wormhole e Hour Glass seguem a fórmula sabbathica mais tradicional, especialmente a segunda, cujos riffs e bases trazem consigo aquele incenso setentista inebriante e etéreo. City Park é um longo interlúdio ambiente, que traz um grande clima de suspense e terror. Algo que foi necessário, pois ela serve de entrada para a obra-prima que começará logo a seguir, Last Breath. Uma composição magnânima, um monólito Doom, cativante e negra, que somente deuses do panteão do Doom Metal conseguem compor. São estas e outras artimanhas que fazem do Saint Vitus ainda hoje uma banda importante, relevante e ousada dentro de um nicho que, de limitado, não tem coisíssima nenhuma. Ainda duvida da ousadia do Saint Vitus? O álbum encerra com o Hardcore Useless, curtíssima, de 1:32 de puro D-Beat velocíssimo! Quem disse que o Doom Metal precisa ser lento o tempo todo?

saint-vitus

Para este álbum a banda repetiu a parceria com o produtor Tony Reed, que também produziu o último álbum, Lillie: F-65 (2012). Sujo e orgânico, a produção de Saint Vitus não deixa de nos trazer aos ouvidos os instrumentos tocados em sua plena nitidez. Parece até que a bateria de Henry Vasquez mal sofreu tratamentos de estúdio além da captação. E o baixo do estreante Pat Bruders se mostra tão poderoso e eficiente que segura sozinho as bases para que Dave Chandler possa destilar seus péssimos e horríveis solos. Chandler como guitarrista é uma espécie de Janick Gers do Doom Metal, melhorado e piorado ao mesmo tempo. Ele é um dos mais criativos compositores e riffmakers do Doom e do Metal em geral, mas como solista é uma tortura. É o mesmo solo em todas as músicas, nos quais ele gruda um dedo em uma casa do braço da guitarra e dá mil palhetadas por segundo ao mesmo tempo em que seu pé sobe e desce sem dó nem piedade em seu pedal wah-wah, lembrando assim um Emanuel Aguilar “kirkhammetiano”.

Mas o Doom, a história, o legado e a influência do Saint Vitus são jupterianos o suficiente para que esse detalhe dos solos de Chandler tenha relevância comparável ao tamanho de um plâncton. É como foi dito no começo desta análise: o Saint Vitus não tem mais nada que provar para ninguém e pode tocar a música que quiser com total liberdade. Por isso que este novo álbum leva novamente o nome da banda. Se houve um começo com o debut em 1984, houve um recomeço agora em 2019 e, mesmo assim, eles mostram que ainda são o Saint Vitus!

Saint Vitus – Saint Vitus (Season Of Mist, 2019)

Tracklist:
01. Remains
02. A Prelude To…
03. Bloodshed
04. 12 Years In The Tomb
05. Wormhole
06. Hour Glass
07. City Park
08. Last Breath
09. Useless

Line-up:
Scott Reagers – vocais
Dave Chandler – guitarras
Pat Bruders – contrabaixo
Henry Vasquez – bateria

9.5/10

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