Resenha: Crashkill – Consumed By Biomechanics (2020)

by Bruno Rocha

Lembro bem de quando escutei o Crashkill pela primeira vez. Não só por não fazer muito tempo — o trabalho de estreia do quinteto, o EP Hate Zone, foi lançado em 2017 —, mas também pelas impressões distintas que tive. O Thrash Metal da banda tinha nas escolas teutônica e mineira oitentista seus principais nortes. Os riffs e bases criados com forte proeminência do trêmolo e os timbres de bateria atestavam tais influências. Tudo isso era complementado pelos vocais guturais do vocalista Ulisses Freitas. Fiquei animado, pois fazia tempo que não ouvia uma banda evocar tão bem o passado sem soar clichê ao mesmo tempo e fiquei ansioso pelo que a banda poderia apresentar a mais no futuro.

O tempo passou e o Crashkill mudou. Mas calma que não foi para pior. Da formação que registrou o EP de estreia, somente permaneceram até hoje o baterista Buson “Drummer” e o guitarrista Valter “Doomriff”. Chegaram para integrar a banda o vocalista Renato Ferreira, o guitarrista Jean Pinheiro e o baixista Fernando Gonçalves. Com as mudanças de formação, o Crashkill precisou adiar as gravações de seu primeiro full-length, nada novo sob o céu escuro do underground. Pacientemente, os novos integrantes foram escolhidos e a nova formação pode enfim entrar no Macnarium Stúdio (Buson gravou sua bateria no estúdio Ruído 111) para registrar aquele que foi lançado como Consumed By Biomechanics.

Disponibilizado oficialmente no último dia 03 de abril, Consumed By Biomechanics traz oito composições inéditas e uma versão remasterizada da faixa Killing Peace, lançada originalmente como um single-demo em 2019. Tendo em vista que a banda passou por uma reformulação em três-quintos de seus postos, foi natural que o direcionamento das composições mudasse. O Thrash do quinteto continua agressivo e variado, todavia a vertente americana se mostra mais saltada, fazendo-me lembrar principalmente de Exodus e de Sacred Reich. A escolha do novo vocalista, recaída em Renato Ferreira, foi bastante acertada, tendo em vista que ele domina performances versáteis que vão de agudos esganiçados até graves robustos. Com efeito, aumenta-se as possibilidades para criação de arranjos. Apesar de o guitarrista Valter carregar a o vulgo “Doomriff” em seu nome artístico, ele não compõe riffs de Doom Metal. Ao invés de praticar os riffs lesados do Gênero Maldito, Doomriff, juntamente com seu parceiro Jean Pinheiro, tocam riffs e bases de destruição, fazendo jus a tradução literal de sua alcunha. A cozinha formada por Fernando Gonçalves e Buson “Drummer” seguram a barra com uma força tremenda e não deixam o ritmo do álbum cair em momento algum.

A proposta lírica do álbum é futurista, onde imagina-se um mundo dominado por máquinas que tomam o poder ante as atitudes nocivas do ser humano, e esta ideia foi muito bem explorada na intro {Disconnect: Humanity}, que mais parece a versão musical da excelente arte de capa. A mesma deságua na primeira música propriamente dita do álbum, Chaos Was Created, dona de muitas variações de ritmo e que carrega impregnada em si pontos de melodia bem encaixados. Com ritmo e riffs mais tradicionais apresenta-se Artificial Inteligence, que também aposta em variações de andamento, mas que neste caso não parecem ser tão naturais, me fazendo ter a sensação de que isso poderia ter sido mais trabalhado especialmente a partir da metade. Um dos grandes destaques de Consumed By Biomechanics surge com a frenética Digital Conflict. Aqui, Renato vocifera uma performance visceral antes que arranjos cadenciados pesadíssimos salvaguardados pelo pedal duplo nervoso de Buson se unam parar tomar conta do ambiente. Aliás, aniquilar o ambiente.

A faixa-título homenageia inconscientemente (ou não) Obituary e Sacred Reich graças a sua longa intro. Os agudos “zetrorianos” de Renato se destacam novamente nesta que é outro rolo compressor musical. Entretanto, após uma seção instrumental, quando a música começa a empolgar novamente naquilo que se ensaiava como um clímax, a porra de um fade-out resolve diminuir o volume da música e encerrá-la de um modo tristemente brochante. Nunca odiei tanto um fade-out na minha vida e olhe que sou um fã declarado do recurso. O Crashkill se redime com as duas músicas seguintes, o cartão de visitas This Is Crashkill (esta bem mais direta) e a pancadaria Year Of Darkness, ambas concentrando em si toda a agressividade e peso vistas nas faixas anteriores como que bombas atômicas, especialmente a segunda, dona de mudanças de ritmo empolgantes, paradinhas mortais e solos precisos. A instrumental Modern Genocide resgata em seu princípio a intro {Disconnect: Humanity} antes que o peso característico do quinteto novamente faça valer sua autoridade. O álbum se encerra com a já mencionada versão remasterizada de Killing Peace, que soa deslocada no álbum não só por ter uma masterização só sua, mas também por carregar consigo uma influência mais pungente de Groove Metal.

A banda optou por registrar Consumed By Biomechanics de um modo bastante cru, orgânico e natural, o que acabou por ressaltar a sensação de estarmos ouvindo a banda ao vivo. Porém, a mixagem peca em alguns momentos por deixar os instrumentos embolados, especialmente as guitarras, escondendo assim baixo e bateria e confundindo o ouvinte de modo a não entender o que alguns arranjos queriam dizer ou demonstrar. Felizmente, este problema emerge somente de forma pontual em uma ou outra faixa, mas isso acende o sinal amarelo indicando que é algo que precisa ser melhorado para trabalhos futuros. O Thrash Metal é um estilo frenético e urgente por natureza, de modo que a produção e a mixagem precisam ajudá-lo a passar sua mensagem e sua energia de forma clara. No caso do Crashkill, as mudanças de andamento e a técnica, características intrínsecas da música do quinteto, reforçam esta necessidade.

Musicalmente falando, o Crashkill mandou muito bem mais uma vez e novamente me deixou animado para o futuro, da mesma forma que este escriba se sentiu ao ouvir o EP de estreia há três anos. E o principal motivo é que descobri que a banda não se prendeu a um único direcionamento e se deixou levar através de outras influências com bastante competência e conhecimento de causa. Algumas arestas ainda carecem de serem melhor trabalhadas e reparadas, especialmente no que se refere as transições de arranjos. Mas, de um modo geral, o Crashkill mostrou suas credenciais que atestam que eles estão no caminho certo. Avançados, por sinal. Onde eles podem chegar, só o futuro pode nos responder. Isto é, se as máquinas não tiverem dominado e transformado tudo antes.

Crashkill – Consumed By Biomechanics
Data de lançamento: 03 de abril de 2020
Gravadora: Independente

Tracklist:
01. {Disconnect: Humanity}
02. Chaos Was Created
03. Artificial Intelligence
04. Digital Conflict
05. Consumed By Biomechanics
06. This Is Crashkill
07. Year Of Darkness
08. Modern Genocide
09. Killing Peace

Line-up:
Renato Ferreira – vocais
Valter “Doomriff” – guitarras
Jean Pinheiro – guitarras
Fernando Gonçalves – contrabaixo
Buson “Drummer” – bateria

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