AC/DC: como a banda superou a morte de Bon Scott e lançou “Back in Black”

by Flávio Farias

É difícil para nós, fãs de Rock, imaginar um mundo sem a existência de “Back in Black”. Lançado em 25 de julho de 1980, a maioria das 10 faixas deste play está profundamente enraizada em nosso DNA coletivo, é como se elas sempre estivessem lá. 4 décadas após o lançamento, músicas como “You Shook me All Night Long”, “Hells Bells”, a faixa título, “Shoot to Thrill” e “Have Drink on Me” ainda são celebrado por todos: garotas, universitários e até mesmo rappers celebram este disco, que é uma das poucas unanimidades do Rock: ele é realmente um petardo.

Em dezembro de 2019, a RIAA anunciou que “Back in Black” vendeu 25 milhões de cópias somente nos Estados Unidos. Isso é mais do que o álbum branco dos BEATLES, o “Greatest Volume I e II” de Billy Joel a até mesmo o “The Wall”, do PINK FLOYD. É o disco de Rock mais vendido de todos os tempos, acima do “Led Zeppelin IV” e o segundo mais vendido da história da música, atrás apenas do fenômeno “Thrilogy”, de Michael Jackson, Os números são impressionantes, não é mesmo, caro leitor? E impressionam ainda mais se levarmos em conta que todo material foi escrito, ensaiado, gravado, mixado e lançado apenas cinco meses após a morte prematura de Bon Scott.

A tragédia que levou o vocalista amado e idolatrado por todos seria o suficiente para acabar com uma banda menor: um exemplo famoso que podemos citar aqui é o caso do MOTHER LOVE BONE, banda de Seattle que perdeu seu vocalista, Andrew Wood e encerrou suas atividades, com o baixista Jeff Ament e o guitarrista Stone Gossard recrutando o vocalista Eddie Vedder e dando origem ao PEARL JAM. Porém a incansável ética de trabalho e a fonte inesgotável de riffs os levaram adiante. E “Back in Black” serviu tanto como um memorial para seu companheiro falecido, como também transformou o AC/DC em uma das gigantes da cena,

Bon Scott era um sujeito que nunca recusou bebida alcoólica e isso justifica o clima de festa em que o frontman estava naquele fatídico 18 de fevereiro de 1980. E desde que ingressou na banda, seis anos antes, com suas letras bem humoradas e sua presença carismática no palco ajudaram o AC/DC a transcender suas origens nos subúrbios australianos e foi se tornando respeitado em países como EUA, Grã-Bretanha e restante da Europa. O álbum derradeiro com o vocalista, “Highway to Hell”, alcançou o 17º lugar na “Billboard”, coisa que os álbuns anteriores jamais conseguiram, no máximo um 113º lugar, com “If you Want Blood”, em 1978, E na Atlantic Records não havia dúvidas de que o próximo disco do quinteto australiano seria o maior de todos os tempos. Só não esperavam que ganhasse contornos dramáticos.

Talvez Bon Scott quisesse ter uns momentos de descanso no intervalo entre o final da turnê de “Highway to Hell” e o início do processo de composição do novo álbum, Ele achava esse processo estressante e tedioso, Então, enquanto os irmãos Young aproveitavam para escrever os riffs do que se tornaria “Back in Black”, o vocalista caiu na noite londrina. Como todos sabemos, o final foi triste. E Angus Young explica como nasceram alguns dos riffs:

Malcolm teve algumas ideias para “Back in Black” e “Have a Drink on me”. Ele já tinha alguns riffs criados enquanto ainda estávamos em turnê . Haviam muitas ideias que tínhamos de outros álbuns, como uma boa linha de de refrão ou um riff de guitarra, mas não sabíamos o que fazer com eles.

Segundo Angus, naquele momento, Scott ainda não havia começado a escrever as letras, porque os arranjos ainda estavam longe de estar completos. Ele conta ainda que as ideias principais vinham dele e do irmão, que gostavam de escrever o básico e algumas frases antes que o vocalista entrasse com sua contribuição. E ele lembra da última vez que esnsaiaram com o vocalista:

A última vez que ele veio, ensaiou conosco. Estávamos pensando em algumas ideias e ele tocou bateria enquanto eu e Malcolm tocávamos. Tentamos algumas batidas diferentes, especialmente para “Have a Drink on me”.

Scott havia saído naquele fatídico 18 de fevereiro com Alistair Kinnear, um conhecido de sua ex-namorada. A noite regada de Whisky e no retorno, Kinnear seguiu até sua casa com Scott completamente bêbado no banco de trás. Ao chegar na garagem de sua casa, como não conseguiu tirar o amigo do carro, simplesmente o deixou lá. E ao acordar no dia seguinte com uma ressaca das piores, achou que o vocalista havia ido embora. Porém, ao chegar ao carro, encontrou a cena lamentável: Scott jogado por cima do câmbio e já gelado. Ao chegar ao hospital, foi declarado morto, aos 33 anos de idade.

Os seus companheiros de AC/DC receberam a notícia da morte de seu vocalista com choque e descrença. Sabiam que Scott gostava de noites regadas a festas e bebidas, mas ninguém esperava que seu final fosse tão precoce. O corpo foi levado de volta para a Austrália e no funeral, Chick, o pai do falecido chamou os remanescentes em um canto e os pediu para que continuassem tocando, como relata Angus:

Foi o pai de Bon quem mais ou menos nos convenceu a voltar. Ele disse para mim e para o Malcolm e disse: ‘Ouçam, Bon sempre amou o que vocês dois fizeram. Foi a primeira vez que o vi realmente feliz e amando o que estava fazendo. Tenho certeza de que se algo tivesse acontecido com um de vocês, ele teria continuado. Vocês devem encontrar alguém e continuar.

Encontrar um substituto não era uma tarefa fácil, pois Bon era um mestre na performance no palco e junto com Angus, dividia as atenções. A gravadora, claro, fez pressão para que a banda encontrasse logo um vocalista, mas os irmãos Young resistiram bravamente, como relembra Angus:

Malcolm ficava me dizendo que vamos encontrar um vocalista quando nosso material estiver pronto. O resto pode esperar. Sabíamos que nunca iríamos encontrar um clone de Bon e queríamos alguém que fosse seu próprio personagem.

Brian Johson, passou a metade final da década de 1970 cantando em uma banda de Glam Rock, o GEORDIE. E uma fita com a performance de Johnson com a banda chegou às mãos do empresário do AC/DC e um bilhete dizia que aquele era o substituto adequado para Bon Scott. O produtor Mutt Lange, que já havia trabalhado em “Highway to Hell” e iria produzir o disco sucessor, escutou a performance de Johnson e concordou. O detalhe é qie Scott havia asisstido a um show do GEORDIE e teria ficado impressionado com os gritos de Johnson e com o fato de ele ter rolado no chão em boa parte da apresentação. O que Bon não sabia era que o seu futuro substituto estava na verdade sofrendo com dores de sua apendicite e fora levado para o hospital tão logo a apresentação se encerrou.

A audição com Johnson foi um sucesso e outros cantores já haviam sido testados, sem sucesso. E Angus relembra como foi o processo de escolha:

Estávamos procurando por alguém que fosse como nós. Alguém que pudesse tomar uma cerveja e jogar uma partida de bilhar, sabe? Alguém que poderia rir e contar uma piada. Não queríamos alguémn que fosse psicologivamente profundo ou que liderasse uma revolução.

Contou também o fato de Johnson ser um verdadeiro fã do AC/DC e não ser apenas um vocalista procurando um emprego e salário. Com a palavra, o próprio Johnson, que fora anunciado como o novo vocalista do AC/DC em 8 de abril de 1980.

A primeira música que fizemos foi “Whole Lotta Roise”, porque eu amo essa música e costumava cantá-la no GEORDIE. Eu era um grande fã de Bon Scott, a voz mais furtiva de todos os tempos.

Angus lembra que quando foi escutar o que Johnson havia gravado na audição com a banda, percebeu que ele possuia uma boz voz e que era capaz de trabalhar com o material que eles já tinham pronto. O produtor Mutt disse que o novo eleito tinha um bom alcance vocal e assim todos voaram para as Bahamas, por sugestão do próprio produtor, como relembra o guitarrista:

O (estúdio) Compass Point foi uma sugestão do Mutt. Ele pensou que era melhor nos afastar de casa e das pressões externas, Poderíamos sentar lá e ter um pouco de espaço e liberdade, sem olhares curiosos. Além disso, ele já havia feito alguns trabalhos por lá, achava que poderíamos ter um bom som gravando lá, estava familiarizado com o local e disse também que seria uma boa vibração para nós.

Às vésperas das sessões de gravação, tempestades tropicais atingiram a ilha por três dias seguidos, o que deixou o local sem energia elétrica. Angus lembra que o local era equipado com geradores, mas que Mutt não queria começar as gravações sem que o abastecimento fosse reestabelecido. O guitarrista fez também uma retrospectiva dos relatos de que maníacos armados com facões andavam pelas praias, procurando truristas para decaptar:

Bem, às vezes você ouve histórias. Sempre tem alguém que lhe diz alguma coisa, tipo para que fiquemos de olho para os que podem nos sequestrar na praia ou algo do tipo. É como em qualquer ilha que você vá, suponho.

E quando a enrgia se normalizou e as sessões se iniciaram e todos acordavam bem cedo para trabalhar na criação do novo álbum. “Back in Black” foi a primeira música que a banda soltou e foram vários os takes realizados até que a banda obtivesse os tons desejados para as guitarras e bateria. E angus fala sobre a escolha do título do álbum e da capa toda preta:

Sabíamos que o disco se chamaria “Back in Black” antes mesmo de irmos para as Bahamas. Malcolm e eu concordamos que a capa deveria ser toda preta, em referência a Bon, Não queríamos nada empolgado, até porque ele não era exatamente uma pessoa empolgada e achamos que essa seria a melhor maneira de mostrar respeito por ele.

Hells Bells”, a faixa que abre o disco, refletia um clima sombrio, algo incomum na história do AC/DC, como se eles tivessem encontrado uma maneira de liberar a frustração pela morte de Bon Scott, E Angus Young disse que a banda estava procurando por algo que trouxesse um pouco de drama. O som do sino da intro foi gravado pelo engenheiro Tony Platt, em Leicestershire, Inglaterra. O artefato pesa quatro toneladas e a banda tem uma réplica que pesa uma tonelada e meia, que é levado para os shows que eles realizam, onde quer que seja.

Have a Drink on me” causou controvérsia pela patrulha do politicamente correto, uma vez que, segundo a interpretação destes, seria uma declaração desrespeitosa para com a memória de Bon Scott. Sobre isso, Angus tem uma resposta curta e direta:

Bem, o título estava lá antes de Bon Morrer,

De todas as canções presentes em “Back in Black”, apenas uma foi escrita quando a banda já estava nas Bahamas: “Rock and Roll Ain’t Noise Pollution”, Sobre o processo de composição dela, novamente aspas para Angus Young:

Mutt disse que seria legal se tivéssemos mais uma faixa tão sólida quanto as demais. Então os outros caras tiveram um dia de folga, enquanto eu e o Malcolm entramos no estúdio pela manhã e tocamos alguns riffs e quando Mutt chegou naquela noite, nós tocamos o que tínhamos e ele nos disse: ‘Sim, isso é realmente bom’.

E assim foi concebido “Back in Black”, que alcançou a 4ª posição na “Billboard”, consolidando a banda como uma das gigantes e iniciando a era lucrativa da banda, que perdura até os dias atuais. Brian Johnson já está há mais tempo na banda do que seu antecessor, mas ainda há os que preferem Bon Scott, porém, aceitaram o novo frontman. E sobre isso, Angus falou:

Havia muito apoio para continuarmos, Provavelmente a coisa maisn difícil foi entrar em nosso país natal, porque eles estavam acostumados a nos ver durante todo esse tempo com Bon. Mas Brian tinha o apoio de todos nós.

Angus relembra que até um ano e meio depois do lançamento, a ficha ainda não tinha caído de que eles haviam lançado um disco enorme e ele conta que foi avisado por um ex-colaborador do AC/DC que o disco havia vendido 1,5 milhão de cópias, somente em Los Angeles, o que gerou um ar de surpresa ao guitarrista.

O disco segue vendendo, mesmo em uma época que o público em geral escuta músicas nas plataformas de streaming, E Angus encerra comentando com bom humor:

Acho que nunca perde o charme. Bem, é o meu ponto de vista. E também do gerente do meu banco.

Fonte: Revolvermag

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