Já viram aquela banda cuja formação mais famosa sempre engastalha na porra do ego de um ou outro? Pois é, acho que nenhum grupo sofreu mais na carreira por atritos de personalidades entre seus músicos que o quinteto inglês DEEP PURPLE. É duro, mas realmente eles poderiam ter rendido bem mais em certos discos se não fossem as brigas internas. Após uma volta triunfal com sua “Mark II” (ou seja, a segunda formação, a mais clássica e conhecida de todas) em 1984 com o clássico “Perfect Strangers”, lá foram os atritos prejudicarem uma obra que poderia ter sido bem melhor, o segundo trabalho depois da volta, “House of the Blue Light”.

O retorno do grupo em 1984 levou Ian Gillan a deixar o BLACK SABBATH e também ao fim do RAINBOW de Ritchie Blackmore (que estava sendo achincalhado por conta do fraco “Bent Out of Shape”, de 1983, talvez já um indício do fim com os boatos da volta do quinteto). E foram recebidos como heróis (o que eles são, sejamos francos), mas conforme o tempo passou, os egos de Ritchie e Gillan novamente se chocaram, e tudo ficou bem azedo. Além disso, o cansaço da turnê de “Perfect Strangers” pode ser outro fator que levou “House of the Blue Light” a ser um disco aquém do que eles poderiam fazer.

Não, o problema não está na execução das canções. Ian Gillan continua cantando bem (embora mais econômico nos tons altos), Ritchie ainda é um mestre das seis cordas, o baixo de Roger seja preciso e criativo, formando com a bateria pesada e técnica de Ian Paice uma base rítmica de primeira, e sem falar que os teclados de Jon são essências em cada composição. Mas falta algo brilhante, aquele diferencial que fizeram de “In Rock”, “Fireball”, “Machine Head” e “Perfect Strangers” discos que influenciaram tanta gente. Não está ruim, apenas não é excelente.

O problema também não é a produção. As mãos de Roger Glover (produtor), Harry Schnitzler (mixagem) e Greg Calbi (masterização) fizeram o melhor possível, criando uma sonoridade pesada, agressiva e bem feita, algo que o grupo, desde que começou a fazer sucesso em escala mundial, nunca abriu mão. Tudo perfeito, tudo muito bem construído, e nem o uso de sintetizadores afetou o disco (por mais que alguns fãs mais puritanos reclamem).

O grande problema é mesmo as composições. Longe de serem ruins, faltam algo, aquele tesão, aquela energia que um grupo que sente prazer no que faz surge e torna o trabalho brilhante. O casamento da “mark II”, após uma doce lua de mel, estava rachando e virando uma lua de fel.

Óbvio que músicas como a agressiva “Bad Attitude” (introduzida por teclados e com uma presença excelente de baixo e bateria, uma canção bem típica da banda, na mesma linha de “Knocking at Your Backdoor”), o jeitão mais Hardozo e com um refrão altamente acessível de “Call of the Wild” e “Mad Dog” (belos vocais e backing vocals em ambas), o jeito meio Blues/Soul de “Black & White” (outra vez a base rítmica dá um show de peso, fora a harmônica presente), o hardão mais pesado e rápido de “Hard Lovin’ Woman” (essa com um trabalho ótimo das guitarras, e talvez o único clássico do disco), e a suja e cheia de groove “Mitzi Dupree” fazem a diferença. Mas tirando “Hard Lovin’ Woman” (como já mencionado, a única que é clássica) que é tocada vez por outra até hoje, o resto são faixas que o grupo raramente lança mão em seus shows.

Se realmente os atritos de personalidade levaram “House of the Blue Light” a ser um disco não tão bom como poderia, imaginem o que viria em seguida com “Slaves and Masters”…

Formação:
Ian Gillan – vocal, conga, harmônica
Ritchie Blackmore – guitarra
Jon Lord – teclado, kettledrums
Roger Glover – baixo, sintetizadores
Ian Paice – bateria

Faixas:
01. Bad Attitude
02. The Unwritten Law
03. Call of the Wild
04. Mad Dog
05. Black & White
06. Hard Lovin’ Woman
07. The Spanish Archer
08. Strangeways
09. Mitzi Dupree
10. Dead or Alive

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