Resenha: Can – Tago Mago (1971)

by Bruno Rocha

O Krautrock alemão é, sem sombra de dúvidas, a cena mais ousada, inventiva e sem amarras da história do Rock. A regra para ser uma genuína banda do Krautrock era “não seguir regras”. Limites eram ignorados e a criatividade dos compositores poderia mergulhar sem pudor algum no maior e mais profundo mar da libertinagem musical. Hoje em dia, ouvir uma genuína peça de Krautrock é um serviço para os fortes. Mas no começo dos anos 70, com todos os mais diversos incentivos alucinógenos a disposição de músicos e diletantes, tudo era possível. Tanto é que o termo “krautrock” pode-se traduzir, ao pé da letra, como “rock da erva”!

Antes de mais nada, cabe lembrar a você, caro leitor desta egrégia revista eletrônica, do que se trata o Krautrock. O termo engloba as bandas alemãs do fim dos anos 60/começo dos anos 70 que praticavam um Rock altamente experimental e lisérgico, que não seguia padrões ditos “normais” do Rock americano e britânico e que explorava ao extremo as noções de psicodelia e de improvisação. Bandas como Tangerine Dream, Neu!, Amon Dull, Faust e Kraftwerk (sim, aquele mesmo conjunto que anos depois inventaria a música eletrônica como a conhecemos hoje) se destacaram e são tidas como referência do Krautrock até hoje. Outro nome tão importante quanto as citadas foi o CAN, cujo segundo full-length, Tago Mago, é considerado um clássico do movimento, podendo até mesmo ser tomado como sinônimo musical do mesmo. É sobre este álbum que trataremos no decorrer deste artigo.

O CAN foi fundado em 1968 e existiu em sua primeira encarnação até 1979, período em que lançou 11 álbuns de estúdio. Eventuais reuniões aconteceram em 1986, 1988, 1991 e 1999, sendo que a segunda delas ensejou a criação e o lançamento de um 12º álbum. Ao longo de quase toda a existência do CAN, o núcleo criativo da banda consistiu em Michael Karoli (guitarras, violino), Irmin Schmidt (teclados), Holger Czukay (contrabaixo, efeitos eletrônicos) e Jaki Liebezeit (bateria, percussão). O álbum de estreia do CAN, Monster Movie, foi lançado em 1969 ainda com o vocalista original Malcolm Munney e já apresentava experimentações, mas não no nível alcançado no álbum seguinte, Tago Mago, disponibilizado em 1971 desta vez com o vocalista de origem nipônica, Kenji “Damo” Suzuki.

Suzuki era um imigrante japonês que perambulava pela Europa sobrevivendo de apresentações artísticas que ele performava nas calçadas das grandes cidades. Em 1970, ele estava fazendo seu trabalho na calçada de um café em Munique, na Alemanha, e foi visto por Czukay e Liebezeit, os quais o convidaram para cantar no CAN. A estreia ao vivo de Suzuki a frente da banda se deu naquela mesma noite. Em novembro daquele ano, a banda entrou no Schloss Nörvenich, uma mansão sobrevivente da idade média próximo a cidade de Colônia, que abrigava um estúdio, e por lá ficaram três meses para registrar aquilo que viria a ser Tago Mago. As técnicas de gravação uniram as tradicionais captações com gravações de jams e improvisações, várias delas sem que o músico percebesse que estava sendo gravado num processo que seria adjetivado no futuro pelo tecladista Irmin Schmidt como “anárquico”. Holger Czukay, que acumulava a função de engenheiro de som do grupo, fazia malabarismos para registrar gravações feitas de modo tão incomum e operava milagres com suas gravadoras de duas faixas.

Somente três microfones estavam a disposição e eles eram compartilhados entre o vocalista e o baterista. A maior parte das gravações aconteceu no hall de entrada da mansão, um espaço de 40 m2 que propiciava um imenso poder de reverb, condições extremamente adversas para uma banda dita “normal”, mas que significava um elemento interessante e atraente para o CAN. No final, o que se ouvia eram ritmos de bateria que misturavam elementos de Jazz, Funk, ritmos africanos e o que mais existia na mente insana de Jaki Liebezeit, linhas hipnóticas oriundas do baixo de Czukay, arranjos e solos tanto da guitarra de Karoli quando dos teclados de Schmidt que se misturavam sem qualquer noção e os vocais de Suzuki, que iam de sussurros a gritos na velocidade da luz e que cantava letras que misturavam topônimos ingleses, teutônicos e nipônicos capazes de rebaixar os “iodoleis” de Thijs van Leer, vocalista do Focus, a um dialeto de fácil compreensão.

As três músicas que abrem Tago Mago possuem uma construção compreensível e consciente. Paperhouse é uma bela e emocionante composição repleta de atmosferas propiciadas pelos efeitos das guitarras e teclados e com ritmos liderados pela bateria criativa de Liebezeit. Mushroom, pelo contrário, possuía uma pegada mais sombria e ao mesmo tempo ácida. Seu início lembra um pouco o que as bandas do Grunge praticariam nos anos 90 e seu desenrolar seria absorvido pelos músicos do Joy Division para criar aquilo que viria a ser conhecido como Pós-Punk. A faixa três, Oh Yeah, possui um ritmo mais animado, pegajoso e não menos hipnotizante. Essa levada básica e seca seria aprimorada pelo próprio CAN e pela banda Neu! Para a criação do ritmo “motorik”, tão importante para o rock alternativo oitentista.

O lado B do vinil 1 é ocupada somente pela faixa de nº 4, Halleluhwah e seus mais de 18 minutos de pura improvisação e liberdade conduzida somente por um groove de funk e percussões áfrico-caribenhas com poucas variações, algo na linha do que os belgas do Los Chakachas tocavam. Aumgn se comporta na verdade como um conjunto de qualquer som que pudesse ser captado pelos microfones do recinto, que foram de vocais graves xamanísticos do tecladista Irmin Schmidt até menino gritando, passando por experimentações em osciladores elétricos e contrabaixos clássicos de tons ameaçadores, tudo isso desprovido de qualquer noção de ritmo ou de harmonia. Ouvir esta faixa é como adentrar nos porões de um castelo abandonado e escuro, tomado pelo medo e pela apreensão de qualquer coisa que pode acontecer ou se aproximar, em estranguladores 17 minutos. A forte veia experimental prossegue em Peking O, uma composição completamente esquizofrênica e perturbadora. A perfeita amostra sonora do que se passa na cabeça de alguma pessoa que sofre de sérios transtornos mentais e que não se pode descrever com nosso limitado vernáculo. O álbum se encerra com Bring Me Coffe Or Tea, que resgata um pouco das composições conscientes das primeiras três faixas, mesmo que ela também seja puramente uma jam improvisada.

Tago Mago não é um álbum para qualquer pessoa se deleitar. Enfrentar Tago Mago requer, além de muita boa vontade, disposição para viajar por várias instâncias do universo, desde ambientes iluminados e confortantes até porões amedrontadores. Do ponto de vista técnico, prepare-se para encontrar tanto embasamento musical quanto a completa ruptura com os padrões e os paradigmas de arte sonora. Tago Mago é uma experiência única e que jamais foi nem será repetida por outro conjunto musical. Sua existência é necessária e, apesar da incompreensão dos ouvidos mais polidos, serviu de influência para várias bandas e estilos importantes que surgiriam no futuro.

Para o bem da verdade, não é o ouvinte que desafiará a lógica para destrinchar este álbum. Foi o CAN que desafiou os padrões da música para provar, acima de tudo, que a arte precisa de liberdade para subsistir, não de amarras.

Can – Tago Mago
Data de lançamento: fevereiro de 1971
Gravadora: United Artists

Tracklist:
01. Paperhead
02. Mushroom
03. Oh Yeah
04. Halleluhwah
05. Aumgn
06. Peking O
07. Bring Me Coffe Or Tea

Line-up:
Damo Suzuki – vocais
Michael Karoli – guitarras, violino
Irmin Schmidt – teclados, osciladores
Holger Czukay – contrabaixo
Jaki Leibezeit – bateria, percussões, contrabaixo clássico

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