Resenha: Soundgarden – Badmotorfinger (1991)

Não sei, e nem me importo em saber, se o Soundgarden, ou qualquer banda que seja, está inserto em determinada corrente ou subestilo musical. Não me atenho a esse tipo de restrição e, para que não fique nenhuma dúvida, estou me referindo, no presente caso, a esse movimento musical que você está pensando agora, cujo nome começa com a letra G. Aliás, eu sequer gosto de usar essa palavra, pois parece que a mesma traz, embutida, uma carga desnecessária de rejeição prévia para uma leva de artistas de onde sairam, sim, muitas coisas interessantes.

De qualquer forma, eu sinto dificuldade em associar a sonoridade do Soundgarden com esse nicho no qual ele é constantemente classificado. É uma boa banda de rock e ponto. Isso é suficiente para mim, mas cada um segue o que lhe agrada mais. Dito isto, este é um disco que me pegou em cheio logo na primeira audição. Outros lançamentos, de artistas similares e do mesmo período, precisaram de um pouco mais de tempo para serem absorvidos, mas “Badmotorfinger” teve efeito instantâneo em mim, tão logo suas primeiras notas soaram. Não é, nem de longe, um disco de metal, mas tem a medida de peso suficiente para me chamar a atenção e, dentro da discografia da banda, não encontra similaridade na comparação com os demais trabalhos, nem mesmo com o aclamado “Superunknown”, que também é excelente, mas brilha sob um prisma diferenciado. Talvez a produção do renomado Terry Date, que já trabalhou com bandas do naipe de Overkill, Pantera, Metal Church, Machine Head e Prong, tenha algo a ver com isso. A banda exibiu a sua assinatura personalíssima, mas o produtor ajudou a carregar nas tintas.

O álbum, lançado no ano de 1991, tornou-se um dos símbolos do começo daquela década, junto a alguns outros discos emblemáticos como No More Tears de Ozzy Osbourne, Gothic do Paradise Lost, Black Album do Metallica e Sailing the Seas of Cheese do Primus. A qualidade das composições faz de “Badmotorfinger” um disco bastante dinâmico e variado, onde a melodia passeia pelas faixas, mas é carregada com timbres bem distorcidos e uma satisfatória dose de comedida agressividade, seja musical ou seja lírica. A primeira música, “Rusty Cage” já demonstra isso logo aos primeiros segundos. Uma excelente faixa que começa rápida, termina cadenciada e é marcada por uma linha de baixo aguda e acentuada em seu trecho intermediário.

“Outshined” foi a música de maior sucesso entre as demais e tem muitos elementos de stoner setentista, presentes na densidade absurda contida em seu riff inicial, mas também são caracteristicamente lisérgicas as faixas “Slaves and Bulldozers”, “Holy Water” e “Room A Thousand Years Wide”. A melhor de todas, porém, é, disparadamente, “Jesus Christ Pose”. É a mais pesada e direta de todo o disco e, quiçá, de toda a carreira do Soundgarden. Chris Cornell foi um vocalista extremamente privilegiado e fez uso pleno de todo o seu alcance nessa canção, principalmente quando tinha que se posicionar frente aos gritos da guitarra de Kim Thayil no refrão. Chris se destacava, mas não chegava a se distanciar tanto assim da performance de toda a banda. No Soundgarden não havia nenhum músico que ofuscasse os demais. Havia um equilíbrio e era isso que os tornava grandes como banda.

É lamentável que a imprensa tenha hipervalorizado tanto a cena em que bandas como o Soundgarden surgiram. Inflacionou tanto aquele cenário que conseguiu sufocá-lo interna e externamente. Ares de gigantismo foram dados para algo que não nasceu com esse fim. O Soundgarden vivenciou todas as fases daquela época e, depois de uma pausa sabática, retornou para o status que melhor lhe cabia. Uma banda relevante, que prosseguiu os seus dias vivenciando o mesmo plano de existência de seus fãs, onde o palco não é um altar, mas apenas um mero instrumento facilitador de diálogo entre amigos.

 

Formação

Chris Cornell – vocal

Kim Thayil – guitarra

Ben Shepherd – baixo

Matt Cameron – bateria

Músicas

01.Rusty Cage

02.Outshined

03.Slaves & Bulldozers

04.Jesus Christ Pose

05.Face Pollution

06.Somewhere

07.Searching With My Good Eye Closed

08.Room A Thousand Years Wide

09.Mind Riot

10.Drawing Flies

11.Holy Water

12.New Damage

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Sobre: Anderson Frota

Anderson Frota

"Anderson Frota é baixista da banda Asmodeus, de Fortaleza, e escuta rock e metal desde os 14 anos, indo desde os Beatles até o Napalm Death, desde o Yes até o Cannibal Corpse"

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