Resenha: Korn – Korn (1994)

by Marcio Machado

Em meados dos anos 90, o grunge acabava por “morrer” prematuramente devido à alguns fatores, Kurt Cobain cometia suicídio, começava uma divisão no Alice in ChainsSoundgarden se via correndo para uma pausa e o Pearl Jam se estagnava com lançamentos de discos e quando o fez não foi o esperado. Dentro desse mesmo período, cinco garotos de Bakersfield iniciavam ali uma nova roupagem dentro da música, não intencionalmente, assim como o próprio grunge ganhando um novo rótulo, o famigerado New Metal. Em 1994, o Korn aparecia ao mundo trazendo seu debut e com ele um divisor no estilo, música pesada com afinações baixas, muitas quebras de tempo e um vocal hora raivoso hora com o peso do mundo as suas costas tamanha tristeza. “Korn” traz uma carga de melancolia, angústia, tristeza, loucura e raiva, tudo em uma atmosfera sombria.

As primeiras palavras do disco são “Are You Ready?”, que inicia “Blind“, e acho que a resposta é, ninguém estava pronto para o que viria pelos próximos minutos. A faixa começa com cada instrumento dando as caras por vez até Jonathan Davis chegar e chamar pro mosh! Daí em diante a coisa descamba até o final do disco, peso, raiva e a presença de Davis nos vocais que se tornaria tão característico e se tornando um dos melhores vocalistas de seu tempo. A faixa se tornou ícone da banda e sempre abre grandes rodas nas apresentações, ou até mesmo em casa na frente do som.

Ball Tongue” é recheada de grooves e tempos quebrados, que delicia esse baixo e bateria correndo juntos, e há de se falar do característico baixo estralado de Fieldy aqui. O refrão é entoado por Brian e Jonathan numa mistura de gritos cheios de raiva. A guitarra aqui também desempenha um ar meio assustador com uma espécie de grito que fazem base para os versos parecendo uma pessoa gemendo. A mudança de tempo aos 1:50 é espetacular, deixando tudo ainda mais pesado. Finaliza com Jonathan fazendo suas scats pela primeira vez e que virariam sua marca, enquanto a parte instrumental vai abaixando, mais gritos de ódio vão surgindo!

De novo baixo e bateria dão as caras em unidade em “Need To” sem dar tempo para o pescoço descansar. Destaca-se aqui o trampo de batera de David Silveria, cheio de detalhes e cadências. Mais uma vez há uma mudança de tempo drástica na metade da faixa com um Davis insano xingando à plenos pulmões, até um baixo ir chamando o resto da banda para voltar ao peso.

Clown“, que também se tornou um clássico da banda é um dos destaques do disco. Pesada, arrastada e sombria é uma das maiores expressões de Davis sobre sua adolescência enquanto atormentado pelos marombas de sua escola. Percebe-se a tristeza e ódio se chocando em sua voz e na letra da faixa. Munky e Brian criam aqui um som hipnótico das guitarras que nos leva a viajar e entrar no clima de tudo. É palpável o sentimento de tudo por aqui.

Rápida e cheia de fúria, “Divine” chega como um trator passando por cima de quem está na frente. A dobra de bumbos duplos e baixos da mais peso à tudo e exceto uma passagem mais calma, não há tempo de se respirar por aqui.

Faget” é mais um momento marcante. Por muito tempo, Jonathan foi perseguido ao ser chamado de gay pelos demais ao seu redor, e é nessa faixa que ele expurga seus demônios ao falar sobre isso. De novo angústia e raiva aparecem por aqui num suplício de explicação e pedido de paz. O ritmo arrastado da música consegue dar mais drama à tudo que é falado ali.

Um certo estranhamento se faz nos primeiros momentos de “Shoots and Ladders“, uma gaita de fole surge em meio à essa baderna. O instrumento é tocado pelo próprio Jonathan, mas é só um momento, logo ele passa a ser acompanhado pelos demais e de novo o peso surge e lá vamos nós para um novo delírio. A faixa reproduz trechos de uma cantiga infantil, mas que também já deu as caras em filmes de terror, tem um andamento lento até sua metade e depois descamba numa histeria coletiva.

Predictable” continua o ritmo lento apesar de pesada, talvez seja a faixa mais apagada do disco, mesmo tendo um refrão muito bom e ainda quebras de tempo bastante pesadas. “Fake” segue quase o mesmo padrão, alterna entre momentos mais pesados e calmos, sem muitas novidades ou surpresas, mas boa faixa.

Lies” volta a deixar as coisas mais interessantes. Uma guitarra bastante pesada surge logo sobreposta por outra e aí as coisas vão andando. Jonathan divide de novo aqui o refrão com Brian numa dobra muito interessante, e de novo Silveria brilha pelos detalhes que compõe na faixa. O final é insano, feito para quebrar o pescoço e gastar a garganta nos berros.

O ritmo lento volta, mas não como antes, a cadência da faixa é divina, e mesmo mais “leve” que as demais, nos induz a bater cabeça quando toca. “Helmet In the Bush” é das melhores e muito querida pelos fãs do Korn. O refrão é matador e nos faz cantar junto com Davis. Seu final também é bem doido com o vocalista fazendo sons estranhos no meio de um gutural.

A apoteose da loucura e melancolia se dá na faixa final do disco. “Daddy” é até hoje uma das coisas mais catárticas que o rock já produziu. A letra fala sobre o abuso sexual que Jonathan Davis sofreu quando criança e como o fantasma disso o atormentou por anos e anos o levando a exilar a canção por um longo tempo, até o aniversário de 20 anos do disco onde a cantou e em todas as noites terminava destruído por o fazer. Começa com Davis entoando uma prece em tom melancólico, pedindo perdão e ajuda, sua voz é melancólica e amedrontada como de uma criança, todo o peso de sofrimento ali está. Um baixo seco e pesado inicia a parte instrumental, e quando os demais surgem, tudo fica sombrio e denso. Durante os minutos da faixa, a voz de Jonathan alterna de vários modos e como não se compadecer do que ele está ali cantando com aquela voz trêmula e angustiante. Há momentos extremamente pesados aqui e pode causar até desconforto no seu decorrer, principalmente ao saber o que é falado. Conforme o final se aproxima, tudo que Davis sente dentro de si vai saindo e explodindo em sua voz até o próprio cantar chorando e terminar em prantos angustiantes e descontrolados, ele chora, xinga, odeia tudo e a todos e a si próprio. Termina com uma voz feminina tentando acalmar aquele choro com uma canção.

Há verdade, há sentimento, há musicalidade e há originalidade aqui. Korn, mesmo que tenha criado seus detratores é sim das mais importantes bandas daquele período e aí está há mais de 20 anos na ativa, sendo muitas vezes mais do que música, uma terapia e um ombro para vários que se veem em situações do tipo. É do caralho o que se tem aqui!


 

9/10

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