Resenha: Doomocracy – Visions & Creatures Of Imagination (2017)

A Grécia é um país belíssimo e rico em história. Todo o pensamento ocidental começou a ser fomentado naquelas terras fascinantes e de águas tão azuis quanto o céu à noite, limpo. Além disso, parece haver naquele país um encantamento musical que deixa músicos de todo o mundo inertes ante suas escalas típicas. Imagine então, o poder de encantamento que os músicos locais conseguem maquinar.

Metalicamente falando, a cena underground grega é bastante movimentada, com alguns de seus representantes sendo referências mundiais em se tratando de Metal extremo. Passando para o lado melódico da força, lembramos logo do guitarrista Gus G. e de seu Firewind. Gus G. que, por sinal, ganhou fama por acompanhar durante anos o “Madman” Ozzy Osbourne em sua banda solo. Da cidade de Heraklion, localizada à beira do mar Egeu, na mítica ilha de Creta, vem uma banda de Heavy/Doom Metal chamada Doomocracy.

A Grécia também é conhecida como o berço da democracia, poder do povo, um elemento que vem sendo sumariamente estuprado em nosso país por conta de seres maldosos que não possuem qualquer dignidade ou escrúpulos em satisfazer seus bel-prazeres de forma escusa. E na democracia, o povo tem o direito de fazer suas escolhas que julgam essencial para o bem geral de todos. No Doomocracy, a banda escolheu prestar homenagens a suas bandas-influências, como Iron Maiden, Candlemass e Solitude Aeturnus, principalmente este último, que se apresenta como influência-mor tanto nas escalas étnicas quanto na abordagem vocal do vocalista Michael Stavrakakis, que imita descaradamente o cantor Robert Lowe, a voz do Doom. Todavia, em seu segundo álbum, Visons & Creatures Of Imagination, a banda cretense nos presenteia com um som empolgante, criativo, dinâmico, complexo e pesado. As influências estão escancaradas, é verdade, mas, em relação ao debut, o Doomocracy conseguiu desenvolver uma certa personalidade, e isso é muito importante para qualquer banda que queira se destacar.

Ghost Of The Past é o cartão de visitas do álbum, trazendo um riff épico e uma cama bem baixinha, mas notável, de teclados, que enfeitam o som com uma atmosfera histórica. Já puxei a orelha do vocalista aqui, mas a verdade é que ele parece ser um discípulo do deus Hermes, um arauto dos deuses, pela sua interpretação irrepreensível, passional e timbre belíssimo. E convenhamos: não existe erro quando sua intenção é imitar Robert Lowe, dono de uma das vozes mais sinistras do Metal. A faixa dois, Lucid Plains Of Ra, começa transportando o ouvinte ao Egito, e mostra bem as influências de Candlemass da banda. Aqui, o trabalho de guitarras, responsabilidade de Harry Dokos e Angelos Tzanis, se destaca pelas ricas melodias, remetendo a Iron Maiden, outra influência infalível.

Por falar na antiga banda de Blaze Bayley, ela e seus asseclas de NWOBHM se mostram ubíquas em nossas mentes ao longo da audição de Visons & Creatures Of Imagination, pelo belíssimo trabalho melódico dos guitarristas. My Bane é mais rápida e destaca o desenrolar rítmico do baixista Manolis Sx e do baterista Minas Vasilakis. One With Pain já começa com a voz de Stavrakakis e descamba para um ritmo rápido e pesadíssimo, com trabalho de guitarras à la Iron Maiden e Dream Theater demolindo monólitos. A bela passagem acústica no meio da música cria um clima etéreo e viajante.

Aqui, cabe já um pensamento: se você quer mostrar suas influências descaradamente, mostre. A banda é sua, e você tem todo o direito de praticar o som que mais te agrade. Mas seja competentíssimo para criar um som empolgante e vivo, para contrabalancear sua falta de identidade. Este último fator, no entanto, se mostra o mais importante para qualquer banda que deseje ser, no mínimo, levada a sério. O Doomocracy não tem vergonha de impor suas influências em seu som, mas, com este segundo full-length, o grupo conseguiu ao mesmo tempo transparecer personalidade. Esses fatos credenciam a banda grega a adentrar no panteão do Doom Metal mundial.

No mais, as quatro músicas que encerram o álbum seguem os mesmos caminhos das primeiras. Guardian Within é mais direta e é puro NWOBHM de Iron Maiden e Pagan Altar com seu ritmo lento e cavalgado. A faixa-título é imponente e se destaca no álbum, pois nos faz adentrar em antigas catacumbas com seus teclados de Mercyful Fate, e devido ao seu riff simples, mas criativo e pesado. O Doomocracy não economiza em mudanças de andamento, todas muito bem conectadas e construídas. Trinity Of Fates é Candlemass até o talo. Uma bela linha de baixo-bateria inicia A Taste Of Absinthe, que encerra de forma magnífica o álbum.

Um bom trabalho em equipe é essencial em qualquer instituição. E este fator foi primordial para o sucesso de Visons & Creatures Of Imagination. Há momentos que a banda aparenta se dividir em uma bifurcação rítmica, com as guitarras duelando lindamente em um caminho, enquanto a cozinha vai por outro. Ao mesmo tempo que o vocalista Michael Stavratakis não anda nem por um caminho, nem por outro, pois flutua, em sua posição de arauto do Olimpo, discípulo do deus Lowe. Mas, quando tudo se encaixa, temos um magnânimo trabalho de composição, em que a cada segundo ficamos na expectativa do que a banda deixou preparado pela frente. Em momento algum, a banda torna o som maçante, um grande problema do primeiro álbum do Doomocracy, The End Is Written (2014).

Outra evolução foi na qualidade sonora. Temos neste álbum um som cristalino, com todos os instrumentos bem mixados e com o belo trabalho de baixo em evidência.

Então, fica decretado o seguinte: se você procura por originalidade, não a encontrará aqui. Se você não gosta de influências descaradas demais, demore mais um pouco para conhecer o Doomocracy. Entretanto, se você quer um som empolgante, gosta de um Doom pesado e melódico e quer se sentir envolvido por climas e atmosferas excelentes, não perca nem mais um segundo e ouça Visions & Creatures Of Imagination, do Doomocracy. Isso é o que diz Hermes, o mensageiro dos deuses, que concederam o dom do pensamento ao homem.

Visions & Creatures Of Imagination – Doomocracy (Steel Galery Records, 2017)

Tracklist:
01. Ghost Of The Past
02. Lucid Plains Of Ra
03. My Bane
04. One With Pain
05. Guardian Within
06. Visions And Creatures Of Imagination
07. Trinity Of Fates
08. A Taste Of Absinthe

Line-up:
Michael Stavrakakis – vocais
Harry Dokos – guitarras
Angelos Tzanis – guitarras
Manolis Sx – contrabaixo
Minas Vasilakis – bateria

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Sobre: Bruno Rocha

Bruno Rocha

"Cearense de Caucaia, estudante e professor de Matemática, cafélotra e torcedor do Ferroviário. Desde a adolescência caminha nas veredas da música pesada e desde então é um aficionado e pesquisador de seus diversos gêneros e épocas. Tem preferência pelo Doom Metal, mas flutua facilmente de Burzum a Kraftwerk, passando por Stratovarius e por Genival Santos. Também atende pela Blitz Metal e pelo Whiplash."

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