Resenha: Deep Valley Blues – Demonic Sunset (2019)

by Bruno Rocha

Catanzaro tem se mostrado nos últimos anos um forte reduto de Doom Metal e de seus parentes na Itália. Terra de Bretus, de Suum, de Deliria e de Bastardi, a capital da Calabria agora revela um novo nome para o Stoner Rock, o Deep Valley Blues.

O grupo foi fundado no ano de 2018 graças a ideia de dois músicos, Giandomenico “Giando” Sestino (vocais, contrabaixo) e Umberto Arena (guitarras, vocais), que convocaram para os ajudar nesta empreitada Giorgio Faini (bateria) e Alessandro Morrone (guitarras). No mesmo ano o Deep Valley Blues gravou ao vivo em estúdio seu EP de estreia, autointitulado, e neste segundo semestre de 2019 lançaram o seu primeiro full-length, Demonic Sunset, que é o objeto de estudo deste artigo.

Com fortes influências do Stoner Rock norte-americano, especialmente de Kyuss, o som do Deep Valley Blues também carrega elementos de Sludge, observados principalmente no peso das guitarras e na visceralidade dos vocais. Ainda, ritmos típicos da música Southern e do Blues surgem em forma de ótimas conduções, cortesia do baterista Giorgio Faini. As letras do grupo versam sobre vários distúrbios da psique humana, como estresse pós-traumático, síndrome do pânico, vícios emocionais e manipulação da mente dos outros. Essas abordagens são trabalhadas através de histórias onde as personagens padecem de algum dentre esses problemas citados.

Musicalmente falando, o Stoner Rock do Deep Valley Blues é bastante animado e dinâmico e reserva boa parte de seu espaço com músicas rápidas, que é como se desenrolam a faixa-título, que abre os trabalhos, e Black Out, que traz consigo um belo trabalho com phasers. Quem acompanhou a série Arquivo X irá se identificar com a música Dana Skully, que traz em sua letra uma das protagonistas da mesma, a que dá nome a faixa e que sofre de manias de perseguição. Esta música traz um groove diferente das duas primeiras faixas e até relembra um certo Iron Maiden em uma seção instrumental em sua metade. Lust Vegas é instrumental e traz como convidado o guitarrista Francesco Merante, que também foi responsável por mixar e masterizar o álbum em seu estúdio Black Horse. Trabalhos muito bem feitos, por sinal, pois a qualidade de som é ótima e os timbres dos instrumentos foram muitíssimo bem trabalhados, donde tudo soa natural e pesado.

As crises psicológicas sofridas por um ex-combatente contam a letra de Orange Yeah, a faixa de nº 5 do álbum. É tanto que suas bases apresentam um clima mais sombrio e sua dinâmica é bastante variada, fazendo a música mudar de velocidade algumas vezes. Destaque aqui para o baterista Giorgio Faini e sua abordagem no chimbau. As raízes “kyussianas” retornam com força em Follow The Buzzards, que tem a missão de preparar o ouvinte para a viagem de nove minutos conduzia pela faixa seguinte, Tired To Beg For. Esta música conta com a colaboração de Zagarus, vocalista do Bretus e do Suum, e apresenta em sua letra um diálogo entre um “velho eu” e um “novo eu”, onde o antigo se sentia incomodado e sofria por pressões das outras pessoas, ao passo que o novo tem a determinação de encarar o mundo mesmo que sozinho. A longa viagem se encerra com o ritmo da música desacelerando cada vez mais, como que representando a viagem do protagonista rumo a um destino incerto. O álbum se encerra com a acústica Empire. Conduzida somente por violão e percussão, ela é cantada pelo guitarrista Alessandro Morrone e encerra com muita calma e beleza o álbum, após vários e vários minutos de músicas frenéticas e chapadas, típicas do Stoner Rock.

A capa do álbum foi muito bem bolada e aproveita as tradições do som desértico do Stoner, mas existe um problema com relação às tipografias que estampam a mesma. Quem não conhece a banda corre um sério risco de interpretar erroneamente que a mesma se chama “Demonic Sunset” e o álbum, “Deep Valley Blues”, tudo ao contrário, por causa do destaque que é dado ao título do mesmo e a posição de relegado que o nome da banda ficou na placa de advertência. De modo geral, o som do Deep Valley Blues é bastante conciso e eficiente mesmo que Demonic Sunset tenha sido somente o debut. Os compositores do grupo demonstraram possuir conhecimento de causa para compor um Stoner bem animado e empolgante. Catanzaro merecia um nome forte para representar o estilo em meio aos já consagrados grupos de Doom Metal clássico, a irmã-sabbathica do gênero desértico, que por lá já habitam e fazem seus estragos.

Não, o Deep Valley Blues não traz nada de novo para o cenário Stoner, apesar de demonstrarem criatividade. Mas o que este quarteto apresentou em Demonic Sunset já os destaca bastante e de forma positiva em meio ao saturado cenário Stoner, tão cheio de bandas iguais que não vão a lugar algum compondo desta forma. Após esta audição, resta a expectativa otimista de que o grupo lance mais trabalhos no mínimo tão bons quanto este debut, reservando surpresas no que concerne aos temas das letras. Se você é fã de um Rock animado e chapado, pode curtir estes italianos sem medo.

Deep Valley Blues – Demonic Sunset (independente, 2019)

Tracklist:
01. Demonic Sunset
02. Black Out
03. Dana Skully
04. Lust Vegas
05. Orange Yeah!
06. Follow The Buzzard
07. Tired To Beg For
08. Empire

Line-up:
Giando Sestino – vocais, contrabaixo
Umberto Arena – guitarras, vocais de apoio
Alessandro Morrone – guitarras, vocais em “Empire”
Giorgio Faini – bateria

Músicos convidados:
Francesco Merante – guitarras em “Lust Vegas”
Zagarus – vocais em “Tired To Beg For”

  • 8.5/10
    Deep Valley Blues - Demonic Sunset - 8.5/10
8.5/10

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