Ratos de Porão: 30 anos do álbum “Brasil”, um disco mais atual do que quando foi lançado

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Temos o disco mais emblemático do RATOS DE PORÃO que completou 30 anos em 2019. Não só emblemático como bastante atual. É assim que podemos descrever o álbum “Brasil“.

Liricamente, funciona como um retrato de como era o país no logínquo ano de 1989 e ao mesmo tempo, um presságio de que as coisas poderiam piorar 30 anos depois. E na parte musical, temos um RDP ainda moldando o seu som e se distanciando da sonoridade mais Punk dos primórdios. A banda vivia um bom momento, após a boa repercussão do disco anterior “Cada dia Mais Sujo e Agressivo” e havia acabado de assinar com uma major, a “Roadrunner“, a mesma gravadora que havia assinado com o SEPULTURA um pouco antes.

Então os caras tinham a primeira oportunidade de ter o apoio de uma grande gravadora,  gravar um disco fora do país e com produtor gringo (N. do R: ressaltando que estávamos em fins da década de 1980, onde o Brasil carecia de bons estúdios e produtores locais com conhecimento. Hoje tudo mudou e podemos apresentar materiais 100% nacionais com qualidade). Os caras viajaram para Berlim onde gravaram está obra-prima no “Music Lab Studio“, sob a batuta do experiente Harris Johns na produção. E o resultado é um disco poderoso, considerado por muitos fãs como o melhor trabalho da banda. 

Temos aqui 18 músicas tocadas de maneira rápida, agressiva e extrema em impressionantes 30 minutos e 56 segundos. A faixa mais extensa tem 2 minutos e meio. Então vamos lá destrinchar faixa por faixa desta belezura.

Amazônia Nunca Mais” traz uma letra mais atual do que nunca, em que temos queimadas no nosso bem maior e o que é pior: com o apoio irrestrito do atual presidente da República. O som bem agressivo, lembra muito bandas britânicas como ENGLISH DOGS, DISCHARGE, bandas que influenciaram as ratazanas naquela época…

Retrocesso” trata das mazelas do regime militar enquanto o povo era distraído com a conquista do Tricampeonato da Seleção Brasileira. Nos dias atuais podemos contextualizar com o atual mandatário que é simpático às mazelas do regime militar e se aproveitando do sucesso de alguns times do futebol brasileiro para enganar a alguns. O som é aquele crossover direto e reto.

Aids, Pop, Repressão” nasceu clássica e é música obrigatória em qualquer show da banda. Esta é uma crítica às mudanças no Rock nacional e aos novos tempos. A frase em que João Gordo canta que “o punk vira crente pra pedir a salvação”, era o compositor lendo o futuro. Recentemente tivemos o vocalista do OLHO SECO se colocando a favor do ataque ao prédio do “Porta dos Fundos“, em que temos o exemplo de um punk se colocando a favor de ataques em nome de um deus. Musicalmente, ela é perfeita.

Lei do Silêncio” é outra quebradeira sonora e relata o que sempre aconteceu no nosso Brasil: você vê algo errado e não pode falar, pois colocará seriamente sua vida em risco. Vejamos o caso atual do assassinato da vereadora Marielle Franco, em que as investigações não se fizeram chegar aos reais mandantes e quais foram as motivações. Quem sabe, se cala, para preservar sua vida. Essa música tem riffs interessantes e flertes intensos com o Metal, com direito a fritação durante o solo de Jão.

S.O.S. País Falido“, o título já explica a quebradeira que o nosso país se encontra e no caso aqui não é culpar somente um único partido e sim de todos os que passaram pelo poder, pois usam a política para enriquecimento ilícito, virando as costas para o povo que o elegeu. Outra música rápida e raivosa.

Gil Goma” é uma sátira a um famoso e já falecido repórter policial que era cheio de trejeitos em suas reportagens. Quem tem menos de 30 anos não o conheceu, mas o cara era hilário e virou até personagem caricato da famosa Escolinha do Professor Raimundo, da TV Globo. A música é curta e grossa.

Beber Até Morrer” se não é o maior clássico da banda, certamente é um dos três maiores. Essa é uma das poucas que fogem do tema política deste álbum e trata dos problemas enfrentados por alguns: o alcoolismo. E tudo vira motivo para beber, mas no dia seguinte, o fígado cobra seu preço. Esta conta com bons riffs e um refrão grudento… Sim, caro leitor, o RATOS DE PORÃO também faz músicas cujo refrãos ficam na sua mente e você se pega cantarolando. Excelente som. Detalhe que João Gordo confessou que essa música nasceu depois de uma noite regada à bebidas com Andreas Kisser e ele diz não se recordar de ter escrito a música, mas que acordou com ressaca e a letra estava pronta.

Plano Furado II” é o segundo ato da música que fora lançada no álbum anterior e é uma crítica recheada da sarcasmo ao famoso Plano Cruzado. Que também pode se aplicar nos mirabolantes planos do atual ministro da Economia. Dólar, carne, gás e demais combustíveis nas alturas são o retrato de um novo Plano Furado. Outra que virou clássico da banda.

A primeira metade do disco se encerra com “Heroína Suicida“, foge um pouco dos problemas políticos do Brasil dos anos 1980 (e do século XXI), sendo a música mais bem trabalhada do disco, em um som que mescla DEAD KENNEDYS e DISCHARGE, rapidez e riffs precisos.

Crianças Sem Futuro” é outro clássico deste álbum e a banda ainda a executa ao vivo até hoje. Esta fala dos problemas que as crianças pobres ainda enfrentam. Ou seja, em 30 anos, nada mudou e não vai ser o atual ocupante do Palácio do Planalto quem irá mudar isso, não é do seu interesse.  Um som poderoso, uma das minhas favoritas da banda,

Farsa Nacionalista” é a única que não fazia o menor sentido quando foi gravada, mas quem diria, viria ter um significado único. O que presenciamos com as falas atuais de quem está no poder é pura e simplesmente uma farsa, um nacionalismo que engana a alguns. O som segue ríspido com algumas mudanças de andamento e bons riffs.

Traidor” é a mais curta do disco com apenas 50 segundos e é aquela música Punk. “Porcos Sanguinários” conta a jornada da PM, que pelo jeito não mudou nada em 30 anos, vide os crimes recentes na Favela de Paraisópolis, ou as mortes do garçom Francisco Lima, que voltava pra casa e da inocente Ágatha Vitória Sales, no Rio de Janeiro. E tudo isso com o consentimento dos governadores de ambos os estados. O som segue rápido e voraz.

Vida Animal” tem letra de fazer inveja aos caras do CANNIBAL CORPSE e possui uma sonoridade fantástica.

O Fim” tem menos de um minuto e traz um solo de Jão acompanhado da bateria de Spaghetti e no final uns cães latindo são incorporados.

Máquina Militar” fala sobre o terrorismo que é feito com os soldados do Exército, disfarçados sob uma falso slogan de servir por amor à pátria. Aqui temos um RATOS DE PORÃO mantendo a sua música à velocidade da luz.

Terra do Carnaval” trata de outro tema recorrente: o cidadão que larga tudo pelo carnaval. Essa música tem muita coisa bem interessante, mesclando rapidez e partes mais lentas. Excelente.

Finalizando este disco maravilhoso temos “Herança” conta a história de uma pessoa que matou sua família para ficar com os bens. Uma música agressiva e ao vivo fica ainda melhor.

E assim temos um disco em que o RATOS DE PORÃO dá seu recado em pouco mais de meia hora. E que faz sentido a cada dia que passa. A banda realizou uma vasta turnê para comemorar os trinta anos deste play, turnê essa que foi interrompida devido ao estado de saúde de João Gordo. Ao vivo os caras arregaçam tocando o álbum homenageado de hoje, como o caro leitor pode acompanhar no vídeo abaixo. Desejamos que o frontman esteja logo em forma e uma longa vida à banda mais politizada do Brasil.

Lineup:
João Gordo – Vocal
Jão – Guitarra
Jabá – Baixo
Spaghetti – Bateria

Tracklisting:
01 – Amazônia Nunca Mais
02 – Retrocesso
03 – Aids, Pop, Repressão
04 – Lei do Silêncio
05 – S.O.S. País Falido
06 – Gil Goma
07 – Beber Até Morrer
08 – Plano Furado II
09 – Heroína Suicida
10 – Crianças Sem Futuro
11 – Farsa Nacionalista
12 – Traidor
13 – Porcos Sanguinários
14 – Vida Animal
15 – O Fim
16 – Máquina Militar
17 – Terra do Carnaval
18 – Herança

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Flávio Farias
Barman, estudante de história, torcedor do Flamengo e apreciador do bom e velho rock and roll há pelo menos 30 anos, começou com o pop rock brasileiro dos anos 80, depois foi para o grunge e punk nos anos 90 até que após pegar emprestado uma fita cassete de 90 minutos, em que do lado 1 tinha a sua teenage band (Pearl jam) e do lado 2 tinha o Chaos A.D. Do Sepultura, com uma mina de quem ele era afim (infelizmente, a mina não deu nada mais além do que a fita), a vida dele mudou para sempre. Daí foi um pulo para escutar Metallica, Slayer, Blind Guardian, Anthrax, Cannibal Corpse, Pantera, Megadeth, Nevermore (a sua banda predileta), Lamb of God e claro, a mãe das mães de todas as bandas de Heavy Metal: Black Sabbath. Gosta muito de escrever, é fissurado por tudo que remeta à Segunda Guerra Mundial, também escreve um blog que conta histórias das Copas do Mundo e é um verdadeiro saudosista, isso explica a opção pelo curso que faz.