Produtores – Anos 2000 – 2ª Parte

by Bruno Rocha

Confira a última parte desta coluna clicando aqui.

1 ano e 5 meses. Este é o tempo que se passou desde que a última parte da coluna “Produtores” foi publicada. Naquela ocasião, o redator Anderson Frota dissecou a história de três renomados produtores que se destacaram dos anos 2000 para cá. A segunda parte seria sob a responsabilidade do redator que assina este texto, mas diversos acontecimentos de ordem pessoal, profissional e mental fizeram que este mesmo redator adiasse o encerramento da coluna. Revigorado (pelo menos aparentemente), pude enfim escrever o epitáfio de “Produtores”, este tomo que você lê nos parágrafos seguintes.

O primeiro nome que será abordado neste artigo será o daquele que talvez seja considerado a grande unanimidade em termos de produção na atualidade.

ANDY SNEAP

Produções cristalinas e pesadas, aliadas à sua experiência como músico de Heavy Metal credenciam Andy Sneap ao posto de um dos principais produtores e um dos mais requisitados do gênero nos últimos tempos. É tanto que muitos defendem que Sneap seja o novo produtor do Iron Maiden, por exemplo, substituindo o contestado Kevin Shirley. Prova disso são os seus trabalhos em estúdio com bandas do quilate de Megadeth (que lhe rendeu uma indicação ao Grammy), Judas Priest, Accept, Exodus, Arch Enemy, Dimmu Borgir, Nevermore, Saxon, Testament, Kreator e várias outras bandas renomadas.

Tendo em vista a sua atual posição como produtor, pouca gente sabe que Andrew Ian Sneap, nascido em 18 de julho de 1969, se lançou em meio às personalidades metálicas como guitarrista, empunhando o instrumento na banda britânica de Thrash Metal Sabbat ainda nos anos 80. Anos antes, no começo daquela década, o menino Sneap se interessou pelo instrumento quando ouviu Status Quo e depois AC/DC. Um colega de colégio o apresentou a Dave Halliday, guitarrista do Hell, uma obscura representante da NWOBHM daquela década. Sneap afirma que foi Halliday quem o ensinou a tocar guitarra. Ainda na adolescência, Sneap ingressou na banda Hydra, que tinha como vocalista Martin Walkyer. Em pouco tempo o Hydra perdeu dois de seus integrantes, o que encejou a entrada do baterista Simon Negus e a mudança de nome para Sabbat.

Sneap tomou a frente das composições do grupo enquanto Walkyer escrevia as letras. No final da década de 80 o Sabbat já era um nome reconhecido no cenário Metal europeu graças ao seu Thrash Metal que fugia das influências óbvias (leia-se Big 4) e as letras de Walkyer que apresentavam histórias mitológicas e pagãs, característica que o vocalista tratou de levar para a banda Skyclad, aquela que é considerada a primeira banda de Folk Metal. Com o Sabbat entrando em hiato nos anos 90 e um período não muito bem-sucedido no Godsend, Sneap tratou de focar em sua carreira como produtor na metade daquela década.

Em 1994 ele fundou o seu próprio estúdio de gravação, o Backstage Studios. Naquele mesmo ano, seu nome foi creditado pela primeira vez estritamente em uma equipe de estúdio no álbum Bow to None, lançado pelo English Dogs em 1994 e seu primeiro trabalho como produtor foi no álbum ao vivo Another Lesson In Violence, lançado em 1997 pelo Exodus com seu clássico vocalista Paul Baloff, começando assim uma grande parceria banda/produtor que perdura até hoje. Em meio a outros trabalhos com mixagem, Sneap foi o escolhido por Blaze Bayley para produzir seu primeiro álbum-solo após sua saída do Iron Maiden, o pesadíssimo Silicon Messiah (2000). Sneap trabalhou com Blaze Bayley até 2004. Também foi na virada do milênio que o produtor trabalhou em um dos grandes álbuns produzidos por ele, Dead Heart In A Dead World, clássico do Nevermore.

Foi a partir deste período que a carreira de Andy Sneap deslanchou de vez, com o profissional sendo cada vez mais requisitado por bandas cada vez mais renomadas. Não vale a pena aqui listar todas as bandas com as quais Sneap colaborou. Se você quiser saber, clique neste link onde a tal lista já está prontinha para você.

Nos anos 2010 Sneap assinou outros trabalhos importantes como todos os álbuns do Accept da era Mark Tornillo, os últimos álbuns do Saxon desde Sacrifice (2013) e Firepower, o último álbum de estúdio do Judas Priest. Sua relação com esta última banda foi muito além de produzir seu novo álbum. Sneap foi o escolhido para ser o substituto ao vivo de ninguém menos que Glenn Tipton, que precisou se ausentar das grandes turnês do Judas Priest por conta do Mal de Parkinson. Se bem que Sneap não faz todas as partes de guitarra de Tipton; ele ao vivo fica somente nas bases e passa o show quase que todo fazendo companhia ao baixista Ian Hill naquele cantinho do palco que o Deus do Baixo gosta de ficar. O monstro Richie Faulkner herdou todos os solos da banda, tanto os de K.K. Downing, que ele já fazia, quanto os de Glenn. Mas isso não é porque Andy Sneap enferrujou na guitarra desde que se tornou produtor full-time. Lembra da banda Hell, mencionada alguns parágrafos acima? Ela retornou a ativa em 2008 tendo Andy Sneap como guitarrista-base, substituindo aquele que o ensinou a tocar guitarra e que morreu em 1987, deixando de herança para o seu pupilo todos os direitos sobre as músicas que ele compôs em vida.

A principal marca das produções de Andy Sneap são a limpeza e a nitidez dos instrumentos, tão cristalinos quanto as águas de Bonito, cidade sul-matogrossense. Esse elemento geralmente vem aliado a peso, muito peso! Apesar de notoriamente Sneap possuir esse dom auricular, ele não costuma trabalhar com bandas mais extremas. Thrash Metal é o seu limite de agressividade.

“Já fui contactado por algumas das maiores bandas de Metal extremo, mas quanto mais eu tento mais eu sei que não consigo trabalhar com esse tipo de som. E se eu sei que não consigo eu sou o cara mais errado para estar lá, para ser honesto.”

Se Andy Sneap é o grande produtor da atualidade para o Heavy Metal mais tradicional e para o Thrash, outro nome despontou nos últimos anos como um dos maiores especialistas em Metal extremo, mais especificamente para aquelas bandas que costumam ousar em suas composições.

JENS BOGREN

“Se você pegar o Angra, que é uma banda com muitos elementos, muito teclado, muita guitarra, muitas vozes, bateria com muita nota, baixo com muita nota… Você fazer tudo isso soar bem é um desafio muito enorme. E ele, na minha opinião, foi quem melhor se deu nesse desafio até hoje.”

Essas palavras são de Felipe Andreoli, baixista do Angra, na época em que a banda estava divulgando o lançamento de ØMNI, em 2018. Elas se referem ao produtor Jens Bogren, que trabalhou com o Angra não só em ØMNI como também em Secret Garden (2015). Essa é a principal característica que torna Jens Bogren como um dos principais produtores da atualidade: seu dom em fazer trabalhar os vários e complexos elementos de uma banda para que tudo soe claro e nítido aos ouvidos do fã.

Outro detalhe que Felipe Andreoli faz questão de destacar em relação a Jens Bogren é que este produtor não costuma usar de muitos recursos artificiais para mascarar ou embelezar o som de uma banda. Andreoli ressalta que Bogren faz o músico sangrar até que ele consiga registrar o take perfeito e assim não precise utilizar de subterfúgios digitais para corrigir o que quer que seja, mantendo a naturalidade e os timbres originais dos instrumentos.

Bogren é um cara bastante reservado, logo não existem muitas informações pessoais sobre ele na internet. O que se sabe é que Jens Peter Daniel Bogren nasceu aos 13 do mês de novembro de 1979 em Halmstad, na Suécia, e que ele é o proprietário do Fascination Street Studios, em Örebro, cidade que fica a 200 Km da capital sueca Estocolmo. Bogren cuida de seu estúdio desde 2001.

Como dito antes, uma das grandes capacidades de Jens Bogren enquanto mago da produção é conseguir trabalhar sons complexos e ricos em elementos de modo a ficar tudo claro, conciso e pesado aos ouvidos. Para citar um exemplo, basta observar o que ele faz como Orphaned Land, banda que costuma rechear seus arranjos com orquestrações e coros imponentes, com o agravante de que esses elementos representam uma cultura regional, a do Oriente Médio. Bogren consegue produzir e mixar tudo de forma que as orquestrações e instrumentos típicos não cubram ou tirem a primazia das guitarras enquanto condutoras de Heavy Metal. Seu conhecimento sobre a música daquela região é tanta que o próprio Bogren indicou a orquestra que trabalha com a banda tunisiana Myrath, cliente do sueco para registrar vários arranjos em Machine Messiah, do Sepultura, outra banda que começou a trabalhar com o sueco e não se arrependeu. Outra atitude “de cupido” de Bogren foi recomendar a orquestra que trabalha com o Orphaned Land para gravar com o Amorphis em Queen Of Time, lançado ano passado.

Jens Bogren também foi o responsável por fazer o Paradise Lost reencontrar o seu passado de peso. Ao longo dos anos 2000 o Paradise Lost estava tentando voltar a ser aquela banda de peso dos anos 90 após experimentações pelo Rock Gótico, mas ainda sem aquele punch definitivo, algo que finalmente veio a acontecer quando Jens Bogren os curou de vez produzindo Faith Divide Us, Death Unites Us (2009). Além do Paradise Lost, Symphony X, Pain Of Salvation, Arch Enemy, At The Gates, Enslaved, Opeth, Amon Amarth, Powerwolf, Ihsahn e Rotting Christ já passaram pelas mãos de Jens Bogren (estes dois últimos são clientes assíduos do Fascination Street desde os anos 2000), além de muitos e muitos outros nomes.

Resumindo: juntando todas as suas habilidades e a grande cartela de estilos com os quais ele já trabalhou (que vai de Taylor Swift a Rotting Christ, passando por Millencolin), temos na pessoa de Jens Bogren a mais capacitada e versátil pessoa para se ter como produtor de estúdio na atualidade.

Enquanto Andy Sneap e Jens Bogren cobrem com seus trabalhos uma gama imensa de estilos, um produtor da atualidade se candidata a ser o novo “Scott Burns” do século XXI, haja vista sua especialidade em produzir Death Metal.

ERIC RUTAN

Um produtor que força os seus músicos a expelirem tudo e mais um pouco de suas habilidades para que se alcance o resultado desejado por ele. Um profissional que entende de tudo e mais um pouco de Death Metal e o faz soar da forma mais eficiente e insana. É assim que Erik Rutan é reconhecido no meio Death Metal enquanto produtor. Enquanto músico, Rutan é lembrado pelo seu trabalho como guitarrista e vocalista do Hate Eternal, além de ter feito parte do Morbid Angel por três vezes. Afora isso, Rutan atualmente é também um dos mais conceituados e procurados produtores das bandas que praticam o Metal da Morte.

Erik Rutan nasceu em 10 de junho de 1971 no estado norte-americano de Nova Jersey. Sua carreira musical começou a deslanchar no começo dos anos 90, em uma época onde os grandes nomes do Death Metal estadunidense estavam no auge de suas inspirações e nomes como Scott Burns eram marca registrada de produções agressivas e pesadas para as bandas daquele movimento. Foi nesse contexto que surgiu o Ripping Corpse, não na Flórida, a Meca do Death Metal, mas em Nova Jersey, mais ao norte do território que compunha as 13 Colônias. Com um full-length e um EP, logo o Ripping Corpse chegou ao seu fim em 1993 (época em que ele começou a estudar engenharia de som) e um dos motivos para um fim tão precoce foi o recrutamento de Erik Rutan para as guitarras do Morbid Angel após a demissão de Richard Brunelle. Rutan deixou o Morbid Angel em 1996 para fundar a sua própria banda, o Hate Eternal, o qual ele carrega até os dias de hoje. Rutan retornaria ao Morbid Angel por mais duas vezes durante os anos 2000.

Inquieto e ousado, Rutan fundou em 1995 o projeto Alas, de Metal Progressivo com forte apelo sinfônico, lembrando o Therion. Em seu início, o projeto contava também com o impossível baixista Alex Webster, do Cannibal Corpse, banda que se tornaria um verdadeiro divisor de águas para Rutan no futuro. O Alas e o Hate Eternal foram as cobaias que Rutan adotou para que ele desse início a sua carreira como produtor, que no caso do Alas culminou no lançamento de seu primeiro e único full-length, Absolute Purity (2001), que teve em seus vocais Martina Astner, ex-Therion e Dreams Of Sanity. Na virada do milênio Rutan também produziu o álbum Conquerors Of Armageddon, de uma banda do interior do Rio Grande do Sul chamada Krisiun. Outra banda brasileira foi de carona com os gaúchos e masterizou seu debut com Rutan no mesmo ano, os paulistas do Abhorrence com Evoking The Abomination.

Após alguns trabalhos creditados a ele, Rutan produziu em 2006 aquele que, segundo o próprio, fincou de vez o seu nome como renomado produtor, Kill, do Cannibal Corpse, segundo ele relata em entrevista ao site Distorted Sound:

“Basicamente, ‘Kill’ foi o momento definitivo enquanto produtor. Eu produzi vários álbuns antes e depois dele, mas ‘Kill‘ não foi somente um grande álbum, mas eu fiz tudo que estava ao meu alcance naquele álbum. Durante as gravações dele houve alguns momentos desafiadores para mim em nível pessoal, mas eu pus tudo de mim e ele saiu grandioso. A partir daquele álbum muitas bandas trabalham insistentemente comigo.”

Desde o começo dos anos 2000 Rutan cuida do Mana Recording Studios, em São Petersburgo, na Flórida (sim, a legendária cidade russa possui uma chará em terras ianques). O Mana vem se tornando desde então uma espécie de “Morrisound Studios” do novo milênio, tendo em vista que lá já passaram nomes como o próprio Morbid Angel, Malevolent Creation, Belphegor, Six Feet Under, Vital Remains e os megastars do Death Metal Cannibal Corpse, que desde o Kill se tornaram clientes assíduos de Rutan. A parceria entre o Cannibal Corpse e seu produtor extrapolou os limites do Mana Recording e viajou mundo afora. Rutan foi o escolhido para assumir uma das guitarras da banda após os ataques de loucura do imprevisível Pat O’Brien, que, obviamente, teve que deixar o grupo.

Com um longo histórico de serviços prestados ao Death Metal e responsável por lapidar de forma magistral clássicos contemporâneos do estilo, Erik Rutan é indubitavelmente uma das maiores personalidades do Death Metal da atualidade.

EPÍLOGO

Pronto. Aqui encerra-se esta egrégia coluna “Produtores”. Esperamos que você que a acompanhou desde o princípio tenha aprendido e entendido o importantíssimo papel que o produtor tem para o sucesso (ou o fracasso) de um álbum ou, consequentemente, de uma banda. Se você começou a ler essa coluna pelo seu final (devido ao imenso delay pelo qual este capítulo foi publicado), leia as demais partes desde o começo e descubra o quanto os produtores foram essenciais para o sucesso e para a perfeição dos álbuns de sua banda preferida.

PRODUZIDO POR ANDERSON FROTA E BRUNO ROCHA NOS ESTÚDIOS ROADIE METAL.

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