Pensar por si mesmo é preciso, ou porque não se deve acreditar em regras no Metal

by "Metal Mark" Garcia

Bem, antes de tudo, gostaria de dizer que este texto é uma reflexão de um headbanger de muitos anos dentro desse meio. São 32 anos de minha vida dentro o Metal, seduzido pelo Iron Maiden em 1983.

Dito isso, posso falar com certo conhecimento de causa e fazer uma pesada crítica ao cenário atual: estão faltando mentes pensantes no Metal nacional atualmente.

Em um texto que li há um tempo do querido colega Fábio (um ótimo texto, por sinal), eu parei para fazer aquilo que evito sempre, que é ler comentários dos leitores em geral, a maioria não tem nada de bom a dizer, apenas geram mimimis e fofocas sem fim. Vide boas matérias no Whiplash que foram destruídas pelos comentários).

Para que…

Não falo que fiquei indignado pelo que as pessoas discutiam, mas pela falta de solidez em argumentos e tantas regras dentro do Metal. Regras que dividem, que transformam o gênero no que ele é agora: um amálgama de pessoas sem um pingo de senso crítico, transformando o Metal em estilo de vida, e que no fundo, destroem a potencialidade do gênero se tornar comercialmente viável.

Até certo ponto, acredito que ele possa ser uma forma de se viver e encarar o mundo. Mas não daquelas que vi, pois sinceramente, foi cada truíce vazia que li que chegaram a doer meus olhos. Li e assisti cada coisa que, sinceramente, denotam que REALMENTE esquentar um banco em uma escola (ou se aproveitar bem este tempo) tem se tornado uma praxis cada vez menos usada entre os fãs de Metal.

Hora da aula, meninos e meninas.

Antes de tudo, quero abordar o tema do texto: Black X White Metal.

Para ser sincero e verdadeiro (não true. True para mim virou sinônimo de ser ridículo), o White Metal nem poderia ser definido como tal, pois não existe uma sonoridade característica. É apenas uma linha de idéia que algumas bandas usam, mais velha que o Black. Se considerarmos o Venom o pai do Black Metal, o Metal cristão é mais velho, pois sua semente é no final dos anos 60, em um grupo de hippies convertidos ao cristianismo chamado Jesus People, e os músicos de vários estilos (incluindo o Heavy Metal) começaram a levar a mensagem cristã com a dita “música do capeta”. E “Upon This Rock”, de Larry Normam lançado em 1969, é o precursor do gênero (na realidade, mais voltado ao Rock do que ao Metal, sendo bem sincero). Podemos dizer que as temáticas estão dentro do Metal quase que ao mesmo tempo, mas o lado cristão teve menor divulgação.

saia

“Ah, mas as igrejas atacaram e atacam o Metal”, é o argumento de muitos. Sim, não discordo disso, mas existem muitos padres e pastores que não fazem isso, inclusive apoiando bandas de vertente sonora mais pesadas com temas cristãos (e alguns que nem o são). Ou seja, levam um lado em consideração, e não o outro (aquela velha mania brasileira de só querer saber do que lhe cabe, e não de toda a verdade). No fundo, quem costuma fazer isso são os cristãos mais conservadores, mas é a mesma atitude de bangers antigos e conservadores, que vivem espinafrando bandas mais jovens.

No fundo, são diametralmente opostos, mas fazem as mesmas coisas. Ou seja, são iguais.

Ah, sim: sobre o Blues ser uma música do capiroto, se mais algum imbecil usar a referência de Robert Johnson (famoso músico de Blues, que dizem ter um pacto com o cramulhão), por conta “Me And The Devil” e “Hellbound Trail”, músicas que tratam de perseguição e desespero pessoal, vou mandar o distinto IR À MERDA. Para se escrever um bom artigo científico, uma ou duas referências são insuficientes, logo, dois pontos não definem uma tendência. Aliás, é fato (um pouco desconhecido, já que não te permitem acesso a esta informação, mesmo ela estando disponível em fontes abertas) que o Blues nasceu como uma música religiosa no meio dos escravos Norte-Americanos, e em geral, lida com a decepção e melancolia com o mundo. E ao mesmo tempo, o Rock tem influências da música Gospel.

ddib

Deus e o Diabo juntos na terra do Metal desde o início… Provavelmente, estão gargalhando da cara dos troodontes de ambos os lados de plantão.

Acho que sobre o tema “religião e Metal”, pouco preciso dizer, além de que nos anos 80, a minha geração cagava e andava para se você fosse religioso ou ateu. O que importava era a música que você ouvia, e ponto final. E isso é testemunho meu, de quem viveu o surgimento e consolidação do Metal aqui na república dos bananas…

Outro ponto CHATO PRA CARALHO é essa mania imbecil e vazia de se querer rotular esta ou aquela banda, ou esta ou aquela forma de se gravar, como “falsa” ou “verdadeira”.

Sinceramente, se você gosta de uma banda, tudo bem, curta; não gosta, não curta, simples assim. Mas é chato demais ver as pessoas perdendo um tempo colossal falando de bandas que não gostam nas mídias sociais, alegando “essa é falsa”.

Haja saco! Sabiam que Kiss, Van Halen, e o próprio Iron Maiden sofreram pacas essas acusações?

Fosse pelo visual, pela música mais acessível, ou mesmo porque estavam vendendo muitos discos, isso incomodava alguns imbecis. Óbvio que para não deixarem de ser malandros-agulhas (tomam no rabo, mas não saem da linha), precisavam alegar que as bandas que gostavam eram “reais”, e os outros “falsos”, pois o “real” não tinha como chegar ao sucesso do “falso”, tido como vendido.

Como faz falta aquele Todinho quente que a mamãe dá pro troo burro todas as noites… Faz pirracinha, beicinho, esperneia e chora porque boas bandas como Angel Witch, Satan, Hellhammer e outros não chegavam ao sucesso dos citados acima…

Óbvio que isso era, também, uma estratégia comercial lá nos anos 80, e o Manowar a explorou (e explora) muito bem. Mas dá uma lida em uma entrevista de Eric Adams para uma Rock Brigade de 1996. Ele espinafra o King Diamond, mas peida feio na farofa quando perguntam sobre o Metallica, que vivia dizendo na época que ser Metal rotulava e restringia demais a criatividade da banda. Aliás, isso quase definiu uma tendência no Thrash americano da época (que estava bem mal das pernas).

É foda aturar recalque de perdedor, esse maldito complexo de vira-latas que o brasileiro arrasta eternamente…

Todos os grupos citados, à sua maneira, são ótimos. Basta apenas você gostar ou não deles, o resto não importa. Nem mesmo a opinião do troodonte comedor de capim.

Facepalm

No fundo, a atitude Metal é uma xerox mal feita da atitude do meio Punk Rock/Hardcore, já que a NWOBHM, movimento importante para restabelecer o potencial comercial do Metal e fazer com que ele mais uma vez se tornasse grande nos anos 80, herdou o Do It Yourself (Faça Você Mesmo, uma alusão às produções independentes), a questão da fidelidade do público ao gênero, e mesmo o visual usando cintos de bala, couro e tarrachas.

Volto a algo que já disse: acho que esta babaquice toda não tem a ver com o Black Metal, já que uma grande parte dele vive apenas preocupado em levar seu estilo musical adiante, e pouco se expressa nisso. São contra algo, mas preferem guardar para eles mesmos na maioria das vezes. Quem gosta mesmo das regras são alguns troodontes que ainda estão por aí, vivendo a eterna ilusão que os anos 80 não acabaram, e gerando seguidores.

Se gostam tanto de regras, vão praticar sexo oral com uma mulher menstruada, oras!

Se você segue alguém, não é um headbanger. É uma vaca de presépio, apenas isso… Te falta individualidade, e principalmente coragem, para pensar por si mesmo e ir contra tudo e todos.

A raiz de tudo: a falta de educação, seja no lar ou nas escolas.

No lar, os pais estão cada vez mais omissos no compromisso de educar os filhos. Andam tão atarefados com WhatsApp, Facebook ou BBB, ou outra coisa qualquer, menos com os filhos. Novamente, testemunho de quem trabalhou em uma escola pública e viu este problema in loco, e esse sou eu.

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Nas escolas, cada vez mais o nível das disciplinas anda tão fajuto, com aprovação automática ou por aclamação em conselho de classe, que temos uma verdadeira legião de imbecis andando por aí. Se não sabe ler direito e nem mesmo as operações matemáticas mais elementares, quanto mais pensar e processar conteúdos…

O cara pode ser o melhor guitarrista, tecladista, baixista, baterista, saxofonista ou o raio que o seja, mas tocar é algo ligado a coordenação motora. Compor sim necessita do pensamento. E se no segundo a coisa já anda meio estranha, ficamos com o primeiro, e pronto: está ligada a máquina de xerox, ou seja, uma penca de bandas umas iguais as outras. É uma punhetaria e remixagem de clichês de uma forma nunca vista antes em termos de música!

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Ah, sim: sobre dinheiro. Temgente que fala sempre no “fazer por amor, não pelo dinheiro”, mas sabe quanto uma banda gasta para ensaiar ou cuidar de instrumentos musicais?

Garanto que ninguém quer ser pago com uma cerveja ou um pastel e um caldo de cana na rodoviária de Amparo…

pastel

Se houvesse menos mimimi, mais verdade posta na mesa, mais unidade entre os fãs de Metal (ou pelo menos, o respeito ao que o outro está fazendo, mesmo que você não goste os discorde), já poderia ter havido um Wacken, um Hellfest ou outro aqui, pois isso iria atrair investidores. E o Metal precisa, como qualquer outro gênero, do lucro. Ninguém coloca dinheiro no trabalho de quem quer que seja se não houver lucro envolvido, por mais que o cara goste de Metal.

E sejamos francos: fazer Metal não é filantropia. E não é porque alguém ganha dinheiro que o trabalho dele é ruim. Que o diga o Metallica, que já andava com o bolso cheio desde o sucesso de “Master of Puppets”, e fez o “…And Justice for All” na sequência.

Em suma: quando falar do trabalho alheio (o que já é um erro crasso que muitos ocultam com a chamada “liberdade de expressão”), não se garanta em regras que aprendeu com alguém ainda menos informado que você. Garanta-se no seu conhecimento se for o caso, mas cuidado, pois pode falar asneiras sem fim. Pode ser aplaudido por outros troodontes, mas alguém com uma mente pensante vai rir de você. Não quero que pensem como eu, como o Fábio, como o Afonso, o Gleison, ou como Vlad Tepes, Júlio César, Átila ou Dercy Gonçalves, mas que pensem como vocês mesmos.

Fechando: pare e pense nas coisas. Senão, de headbanger para os estereótipos que todos temos do pagodeiro, do funkeiro e outros, não existirá a mínima diferença.

P.S.: não vou ler comentários, logo, não adianta ficar de mimimi querendo chamar minha atenção. Vá procurar a mamadeira de leite de bode que vai ganhar mais.

Pensador

“Out of my own, out to be free
One with my mind, they just can’t see
No need to hear things that they say
Life is for my own to live my own way…”
(Metallica – Escape)

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7 comments

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Fabio Reis 29 de novembro de 2015 - 2:09 am

SENSACIONAL!!! Ri bastante de alguns trechos, mas posso afirmar que concordo com cada palavra Marcos, essa leitura salvou a noite!

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Luis Carlos Carlinhos 29 de novembro de 2015 - 2:15 am

Parabéns pela matéria Marcão, ficou sensacional. Onde assino ? 😉

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Bruno Faustino 29 de novembro de 2015 - 2:17 am

Marcos Garcia, você sempre surpreendendo e escrevendo exatamente o que tem que ser escrito, sabe penso exatamente como você, infelizmente a falta de argumentos e a truzice do povo do metal está tornando o estilo chato e cada vez mais cheio de rodinhas ridículas, vejo música como união e diversão e não como uma mera pregação, mas tem uns ditos “verdadeiros” que dá até desgosto de conversar.

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Claudio Santos 29 de novembro de 2015 - 3:01 am

Ótimo texto, uma analise perfeita do que acontece no meio, aonde achismos e intolerâcia reinam absolutos!

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Walker Marques 29 de novembro de 2015 - 4:39 am

É complicado. Os saudosistas levantam bandeiras que não servem para nada além de dar dor de cabeça aos outros e também a eles mesmos. É equivalente aos que são racistas, homofóbicos, ou preconceituosos de alguma maneira hoje em dia. O mundo mudou, e quem levanta essas bandeiras passa apenas vergonha. O Metal também andou. Não faz sentido o preconceito, o ditado de regras sobre o que fazer ou falar no Metal. O Metal é estilo musical. O Metal é Metal. Ponto. Letra é complemento. Por isso tanta banda fala de tanta coisa diferente. No dia que o Metal tiver liberdade poética, liberdade lírica, liberdade rotular sem que ninguém encha o saco, e os saudosistas não tentarem atrasar isso – tal como a própria religião que eles tanto odeiam faz com a ciência através de suas morais antiquadas -, o Metal talvez cresça com mais fluidez e naturalidade, seja, no Brasil, seja na Dinamarca, seja em qualquer lugar, pois sei que esse não é um problema só brasileiro mas que isso não o torna menos grave.
Ótimo texto, Marcão.

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Tulim Pereira 29 de novembro de 2015 - 10:40 am

quando ele falou nos anos 80 pouco importava se era religioso ou ateu oque importava era a musica ele disse tudo ! eu vive essa epoca parabens pelo texto !

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Clayson Gomes 7 de dezembro de 2015 - 6:54 pm

Parabéns Marcão excelente texto, disse tudo que muita gente por aí precisava ouvir e ninguem tinha coragem pra falar.

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