Pantera: 23 anos de “The Great Southern Trendkill”

by Flávio Farias

Em 07 de Maio de 1996, o PANTERA lançava o que para muitos (incluindo este que vos escreve), o último excelente disco de sua carreira. Como sabemos, a banda teve em seus primórdios, uma sonoridade mais puxada para o Hard Rock, com seus integrantes vestidos como as bandas daquela época, fato que foi radicalmente mudado nos anos 1990, inclusive com os membros detestando relembrar daqueles tempos e era evidente o desconforto dos caras com esse “passado negro”.

E na década de 1990, a partir do excelente “Cowboys From Hell“, a banda teve uma escalada com discos acima da média, o que destacou o PANTERA como uma das maiores (se não A MAIOR) desta era. Claro que o leitor vai dizer que o SEPULTURA se destacou e eu não discordarei, até citarei o MACHINE HEAD como uma das bandas expoentes do período, mas, com a decadência do METALLICA, a fase mais soft do MEGADETH, o IRON MAIDEN perdendo um pouco do seu prestígio a partir da troca de vocalistas (N. do R: eu sou um dos que discordam da galera que odiava gratuitamente o Blaze Bayley), o quarteto do Texas aproveitou para surfar na crista da onda.

É claro que a banda poderia ter se aproveitado melhor dessa boa fase, afinal, havia na época aquele discurso, sobretudo da MTV e da mídia estadunidense, de que o Heavy Metal estava morrendo. Em 2019 estamos testemunhando que isso era um blefe. O Metal não morreu, agonizou perante o boom do Grunge, do Poppy Punk (quem tem mais de 35 anos como este que vos escreve sabe que estou me referindo a bandas como GREEN DAY, OFFSPRING, PENNYWISE, etc… E o PANTERA foi a grande voz do Metal nesta primeira metade dos anos 1990.

A banda estava rachada e isso se refletiu no disco como um todo. Denso como nunca o PANTERA havia sido antes e igualmente raivoso e brutal em alguns momentos. O racha era tão grande que Phil Anselmo não esteve no mesmo estúdio que o restante da banda. Enquanto que Dimebag Darrell, Rex Brown e Vinnie Paul gravaram suas partes no “Chasin Jason Studios“, no Texas, Anselmo gravou suas partes no “Nothing Studios“, em Nova Orleans. E não era só isso, Phil andava em um tour bus separado dos seus companheiros. Era o início do fim do PANTERA e nós não sabíamos.

E foi sob a batuta de Vinnie Paul na produção que um PANTERA dividido lançava este que na verdade era o oitavo álbum (N. do R: a banda e este redator que vos escreve considera como sendo apenas o quarto), através do selo EastWest.

A abertura se dá com o extremismo de “The Great Southern Trendkill“, a faixa título. A música raivosa, em que Anselmo parece colocar para fora todas as suas angústias. Algumas partes flertam com o Death Metal, como por exemplo, a passagem depois do refrão. O solo de Dimebag é o ponto alto deste som.

War Nerve” é uma música menos rápida que a anterior, mas igualmente raivosa, linda, nem mesmo a citação de Anselmo sobre seu órgão sexual tira o brilho desta música. E “fuck the world“.

Drag the Waters” é a minha música favorita deste disco em que o ritmo do disco fica ainda mais cadenciado, grooveado. Por um tempo, a intro deste som foi o toque de chamada do meu celular.

10’s” é outra música maravilhosa, densa, angustiante. Essa foge da agressividade inicial, e podemos dizer que tem o mesmo clima da música “This Love”, lançada no não menos maravilhoso “Vulgar Display of Power“.

13 Steps to Nowhere” é calcada na bateria precisa de Vinnie Paul e nos excelentes riffs de seu irmão, Dimebag. E no refrão temos de volta a agressividade que seria a tônica deste álbum. Delícia de se ouvir este som.

Voltemos ao clima denso com a ‘inofensiva’ “Suicide Note pt I” em que apenas a guitarra de Dimebag acompanha um Anselmo cada vez mais angustiado. E a pt II da “Suicide Note” talvez seja o ponto de maior agressividade sonora do PANTERA, coisa que os caras chegaram perto somente em “Slaughtred“, do lançamento anterior. É muita brutalidade para uma banda só.

Living Through Me (Hell’s Wrath) é uma música que nos remete à fase do “Cowboys From Hell“. É a cara do PANTERA, mas destoa um pouco da proposta do álbum. Não é uma música ruim, ao contrário.

Floods” é o que podemos chamar de balada. Ela é densa, com um clima fantástico e ganha peso do meio para o final. O solo desta música é com certeza o melhor e mais complexo já escrito por essa fera eterna chamada Dimebag Darrell. E olha que o cara costumava brilhar em suas composições.

Temos o final com duas músicas que, nas minhas primeiras audições eu achava se tratar de apenas uma: “Underground in America” é um petardo que serve de rito de passagem para “(reprise) Sandblasted Skin“, onde o pau come solto na casa de Noca, fechando com chave de ouro um disco que é marcado por uma agressividade fora do comum. Uma agressividade que fora construída gradativamente, álbum por álbum. E deixe a bolacha rolando que após alguns minutos de silêncio você será agraciado com os riffs da música que acabara de encerrar-se. Eu confesso que tomei um susto tremendo quando “do nada”, as guitarras com afinação baixa de Dimebag voltaram a ecoar nos meus ouvidos. Um disco como os outros três anteriores, simplesmente impecável.

A minha relação com este disco é de muito carinho, Eu demorei um pouco para escutá-lo pela primeira vez, acho que o fiz lá pelo ano 2000, mas me identifiquei com o som logo de cara e um dia desses, conversando com um grande amigo meu, eu lhe disse que eu não tenho o melhor disco do PANTERA. Eu tenho três. E estes são “The Great Southern Trendkill“, “Vulgar Display of Power” e “Far Beyond Driven“, não necessariamente nesta mesma ordem, até porque eu não consigo colocar um destes discos a frente do outro. Para mim são três discos fenomenais, que se fazem obrigatórios na discografia de qualquer headbanger e este põe fim em uma época em que o PANTERA era a mais bem sucedida banda de Metal. O disco posterior não seria nem sombra do que a banda fez até aqui, ele até tem seus bons momentos, mas já não era mais aquela banda que abalou as estruturas da cena na década anterior.

E por isso tudo é que “The Great Southern Trendkill” merece todos os confetes. Já se foram 23 anos do seu lançamento e como tantos outros discos do Metal, ele envelhece bem, obrigado. Infelizmente não poderemos dizer longa vida ao PANTERA, pois, como sabemos, com os dois irmãos já falecidos, não resta qualquer esperança de testemunharmos a banda na ativa. Mesmo que eu, de forma inocente, alimentasse uma esperança de que Vinnie Paul quando em vida, fizesse as pazes com Anselmo e recrutasse um certo Zakk Wylde para a guitarra, no que eu considero que seria uma ótima forma de homenagear o amigo Dimebag… Enfim, tudo não passou de um devaneio deste redator. Mas felizmente eu tenho essa oportunidade de compartilhar minhas emoções com esta banda, que com certeza faz parte do meu “The Big Four“.

Lineup:

Phil Anselmo – Vocais

Dimebag Darrell – Guitarra

Rex Brown – Baixo

Vinnie Paul – Bateria

Tracklisting:

01 – The Great Southern Trendkill

02 – War Nerve

03 – Drag The Waters

04 – 10’s

05 – 13 Steps to Nowhere

06 – Suicide Note Pt I

07 – Suicide Note pt II

08 – Living Through Me (Hell’s Wrath)

09 – Floods

10 – Sanblasted Skin

11 – (Reprise) Undergrond in America

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