Metallica: 31 anos de “…And Justice for All”

by Flávio Farias

Em 25 se agosto de 1988, o METALLICA lançava seu quarto álbum: e “…And Justice for All” era muito mais do que simplesmente um disco de estúdio. Era a banda tentando se recuperar de um golpe duríssimo que o destino aplicou à banda: a morte de Cliff Burton, em um acidente de ônibus, dois anos antes, na Suécia.

A banda recrutou o jovem Jason Newsted, que tocava no FLOTSAM & JETSAM. O cara era fanático pelo METALLICA e impressionou aos músicos por saber cada nota das músicas da banda quando da sua audição. Parecia ser a pessoa mais indicada para o posto… Mas as coisas não eram tão simples assim.

Pois bem, como se sabe, o cara ficou na banda até o ano de 2001, e antes de gravar o álbum homenageado de hoje, gravou um disco de covers com seus novos companheiros, o “Garage Days…Re-Revisited“.

…And Justice for All” é um excelente disco sim, embora muita gente considere que o METALLICA acabou em “Master of Puppets“, o que é uma grande tolice. Os elementos Thrash Metal aqui se mantém intactos e em alguns momentos, temos aqui alguns dos riffs mais rápidos já compostos por James Hetfield. Em algumas passagens, soam muito mais Thrash do que o anterior. O problema de “…AJFA” é a produção, que simplesmente limou o baixo da gravação. É simplesmente impossível escutar o trampo do estreante Jason e isso é um crime inafiançável. Esse é o maior pecado deste disco em minha opinião. Porque as músicas são fantásticas.

Em entrevista recente, James teve a chance de se redimir pela falha em deixar o baixo inaudível, mesmo que ele não tenha sido (diretamente) o culpado por tal imoralidade. Mas ele preferiu dar a seguinte declaração:

“Mexer na mixagem de “…And Justice for All” é como mexer no quadro da Monalisa.”

…AJFA” é o disco em que a banda mais ousou em termos de complexidade e extensão das músicas. Todas elas com no mínimo 5 minutos de duração, com ápice de quase 10 minutos, como no caso de “To Live is to Die“. Mas em nenhum momento essas músicas soam pedantes ou com algum tipo de excesso. Pelo contrário, não há uma música sequer ruim neste disco.

O álbum fora gravado no estúdio “One on One“, em Los Angeles, entre os meses de janeiro e maio de 1988, com produção de Flemming Rasmussen, a essa altura, já parceiro de longa data da banda e que só não havia produzido o disco de estreia. Seria o último trampo do produtor junto ao METALLICA. “…AJFA” foi lançado pela “Elektra“.

Os temas líricos abordados nesta obra giram em torno das injustiças no sistema das leis, supressão de liberdades, guerra, intensidade e ódio

Colocando a bolacha para rolar, temos o início arrebatador com “Blackened“, onde as palhetadas comem soltas em sua intro, aliada a uma quebrada no andamento nas estrofes e o couro voltando a comer no refrão. Se alguém quiser conhecer o que é o Thrash Metal em sua essência, que escute esse som. Bom demais.

A faixa título chega com uma intro bem melancólica e logo se desenvolve, não tão rápida quanto a anterior, mas ela é mais densa, mais complexa e mais elaborada, chegando a flertar em alguns momentos com o Prog. E foi o que os caras conseguiram fazer de melhor, estendendo por mais de 9 minutos esse sonzaço.

Riffs maravilhosos na intro anunciam a chegada de “Eye of the Beholder”, uma música com uma pegada diferente, mais calçada nos riffs e um andamento mais devagar. Linda música.

O som de rajadas de armas de fogo anunciam a chegada do maior hit da banda: e “One” surge bem lentilha, com dedilhados interessantes, fazendo o ouvinte se iludir que a banda estaria trazendo mais uma balada. Mas no refrão a coisa ganha peso e na parte final vira um Thrashão para headbanger nenhum colocar defeito. E essa música é perfeita por combinar tudo isso. Conto-lhes um detalhe sobre ela: durante o Rock in Rio de 2015, eu trabalhava em um hotel que ficava em frente ao evento. A parte boa foi que eu ouvi todos os shows (a partir da hora em que eu chegava lá, isso por volta das 22 hs) e a parte ruim era que eu não tinha como acessar o festival e assistir aos shows. Porém, no show do METALLICA, quando eles tocaram “One” eu pedi ao meu maitre para que deixasse eu ir do lado de fora do hotel afim de ao menos escutar essa música. E ali fiquei bangueando, as pessoas olhavam aquele sujeito vestido com “trajes não comuns” (N. do R: tratava- se tão somente do uniforme do hotel) e tocando sua air guitar, sozinho ali… Foi estranho mas ao mesmo tempo um momento único. Lembrando que “One” se tornou o primeiro videoclipe oficial da banda.

A velocidade volta a ser a tônica em ‘The Shortest Straw“, uma música simplesmente estupenda. Aqui eu destaco a performance de Lars Ulrich, um sujeito que atrás de seu kit de bateria eu sempre achei abaixo da média, mas aqui ele manda bem, sobretudo no bumbo duplo. Dia desses, conversando com um amigo sobre este disco, eu levantei uma teoria de conspiração, que a bateria estava muito boa para que tenha sido gravada por Lars. É claro que era só uma brincadeira minha, o cara realmente gravou a bateria e em minha opinião foi a melhor performance de sua vida. E “Shortest Straw” prova isso, não só pela performance de Lars, mas pelas guitarras que seguem com riffs matadores. A minha favorita deste álbum.

A quebrada no ritmo volta à tona na excelente “Harvester of Sorrow“, uma música mais arrastada, sombria, em que os caras não abandonam o peso jamais.

Em “The Frayed End of Sanity” outra boa performance de Lars Ulrich em uma música um pouco mais rápida em que os riffs da dupla Hetfield/Hammett acompanham o ritmo ditado pelo baixinho dinamarquês.

E aí temos o final do disco mostrando os opostos, em termos de duração da faixa: a mais longa, a quase completamente instrumental “To Live is to Die“, que recebe o vocal de James Hetfield na parte final, recitando a letra, que fora escrita por um poeta alemão chamado Paul Gerhardt, em um som extremamente pesado em que os riffs de guitarra são sensacionais. Aqui o ouvinte se engana com a harmonia da introdução, em que o violão parece anunciar se tratar de uma balada, só que não. É um peso absurdo que se dá. Essa música é na verdade um medley das partes se baixo que foram gravadas, mas nunca utilizadas por Cliff Burton e por isso ele é creditado como autor.

Encerrando de forma épica, temos a faixa mais curta, com seus 5 minutos e 13 segundos de duração, a mortal, rápida e agressiva “Dyers Eve“, que mesmo com sua quebra de andamento em certa parte, não deixa de ser bela. 

Eis que em 1 hora e 34 segundos a sensação é de que você esteve em um tsunami do Thrash Metal. E quem esperava escutar as linhas de baixo de Jason Newsted teve que esperar por mais três anos; só lhe dariam um pouco de espaço no “Black Album”. O disco beira a perfeição, não fosse essa verdadeira, digamos, trapaça, não só com o músico, mas também para com os fãs. O Youtuber Rob Scallon gravou certa vez um vídeo interessante chamado “…And Justice for Bass” em que ele toca algumas linhas de baixo de todas as oito faixas deste disco. Ficou interessante, como você pode ver abaixo. 

Há também no YouTube uma gravação deste álbum remixado, com as linhas de baixo, chamado “…And justice for Jason“, aliás, um ótimo título. Óbvio que não foi produzido pela banda, mas dá para sentirmos a diferença do quão seria melhor o disco se houvesse o baixo contido nele. Confira abaixo.

…And Justice for All” vendeu mais de 8 milhões de cópias só nos Estados Unidos. Em 2017, ele foi eleito o 21º melhor álbum de Metal de todos os tempos pela revista “Rolling Stone“. Ele figura na lista dos 200 álbuns definitivos no “Rock and Roll Hall of Fame“.

Minha relação com esse disco é de muito carinho, fora um dos primeiros álbuns da banda que eu escutei, influenciado por um grande amigo dos tempos de adolescente, em que fazíamos várias jornadas em que o METALLICA era a banda que tocava no CD player quase que ininterruptamente. E “…And Justice for All” era sem sombra de dúvidas, o disco campeão para nós naquele tempo.

Hoje eu já não considero mais o METALLICA a mesma coisa de antes, mas o meu respeito pela sua obra é imenso e por isso, “…AJFA” se faz mais do que merecedor desta homenagem de hoje.

Lineup:
James Hetfield – Vocal/Guitarra
Lars Ulrich – Bateria
Kirk Hammet – Guitarra
Jason Newsted – Baixo (limado)

Tracklisting:
01 – Blackened
02 – …And Justice for All
03 – Eye of the Beholder
04 – One
05 – The Shortest Straw
06 – Harvester of Sorrow
07 – The Frayed Ends of Sanity
08 – To Live is to Die
09 – Dyers Eve

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