Heavy Metal Pelo Mundo: Cazaquistão

by Bruno Rocha

Olá, passageiros do “Heavy Metal Pelo Mundo”! Entraremos a bordo novamente hoje e viajaremos para mais um país onde você sequer imagina que exista Heavy Metal sendo praticado. Olhe lá se você ao menos já ouviu falar deste país! Porém, fique tranquilo. O país de hoje é relativamente conhecido pelo menos de nome, mas eu duvido que você saiba nos dizer o nome de alguma banda de Heavy Metal de lá. Acomodem-se confortavelmente. A viagem é direta e sem escalas. Caso seja necessário, máscaras de oxigênio cairão sobre as vossas cabeças. Zarpemos, pois, rumo à Ásia Central. Mais precisamente, para o Cazaquistão!

A “terra dos cazaques” é um dos maiores e mais desenvolvidos países dentre aqueles que formaram a antiga União Soviética. Tendo se consolidado na idade média por ação do Império Mongol, um Canato Cazaque logo se desenvolveu naquela região, fazendo surgir uma identidade entre o povo cazaque, de origem túrquica (não “turca”), marcado principalmente pelo idioma. Após o enfraquecimento econômico e militar do Canato Cazaque, o território foi ocupado pelo Império Russo no século XIX e à Rússia pertenceu subordinada (considerando-se também o período soviético) até 1991, ano em que enfim conquistou sua independência. Nono maior país do mundo em extensão territorial (e o maior de todos sem acesso ao mar), o Cazaquistão atualmente possui uma economia em rápida expansão e é uma potência no ramo de recursos naturais, especialmente petróleo e gás natural. Politicamente, o Cazaquistão é uma república parlamentarista.

Cabe mencionar aqui uma curiosidade sobre os povos da Ásia Central. Cazaques, quirguizes, turcomenos, uzbeques, uigures (um povo que habita hoje grande parte do noroeste da China), turcos e outros povos menores espalhados pela Ásia e pela Rússia compartilham traços culturais e linguísticos em comum que se reúnem num tronco linguístico chamado “túrquico”. O sufixo “-stão”, comum naqueles países, é de origem persa e significa “terra de”. Portanto, “Cazaquistão” significa “terra dos cazaques”, “Uzbequistão” significa “terra dos uzbeques” e por aí vai. Mesmo assim, ao longo da história, cazaques, quirguizes e uzbeques foram diminuindo suas relações com outros povos túrquicos como os turcomenos e os tajiques, estes de origem persa.

Voltando nossas atenções exclusivamente ao Cazaquistão, o nome da capital do país passou por uma mudança curiosa em 2019. A capital que se chamava Astana (Астана) passou a se chamar Nursultan (Нұрсұлтан), em uma homenagem que o parlamento local concedeu ao ex-presidente Nursultan Nazarbayev, que governou o país entre 1990 e 2019 (já pensou se o congresso brasileiro mudasse o nome de Brasília para “Bolson…” Urgh, quero nem pensar!). A antiga Astana havia se tornado capital do Cazaquistão em 1997 e desde então havia passado por uma enorme reformulação planejada pelo arquiteto japonês Kisho Kurokawa, que transformou a cidade em uma metrópole moderna e até mesmo com traços futurísticos. A antiga capital e até hoje a maior cidade do país é a belíssima Almaty (Алматы), uma metrópole encravada entre montanhas altíssimas e nevoentas. Outra curiosidade de lá é que o Kairat Almaty é atualmente um dos melhores times de futsal do mundo, isso graças a presença de vários brasileiros tanto em quadra quanto na comissão técnica.

Lago de Almaty, localizado ao sul da cidade de mesmo nome.

CERTO, E O HEAVY METAL, MEU FILHO?

Ora, este quadro também é cultura! Mas tá, tá bom, vamos agora apreciar o Heavy Metal cazaque. A história do heavy metal no Cazaquistão, assim como em todas as outras ex-repúblicas soviéticas, teve início nos anos 80. Até essa época, o regime soviético restringia o acesso do povo à chamada “cultura ocidental” e a prática do Rock e do Heavy Metal era vista pelas autoridades como um comportamento subversivo passível de punições. Não entrarei em detalhes. Tais detalhes podem ser estudados no episódio onde este quadro visitou a Estônia ou então na primeira parte sobre a biografia da banda russa Aria, publicada por este escriba há algum tempo. Pois bem. Sob a liderança de Mikhail Gorbatchov e com as implementações da Glasnost e da Perestroika, enfim as bandas de Rock e Metal da União Soviética puderam sair dos porões da ilegalidade com mais tranquilidade. Dentre estas bandas, veio o Accent, que é considerado o primeiro grupo de Metal do Cazaquistão. Com a queda da URSS e consequente independência do Cazaquistão, uma pequena cena começou a se desenvolver, liderada pela banda Holy Dragons, e a render frutos até hoje. Apesar de existir uma certa profusão de bandas no Metal local, várias delas não sobrevivem por muito tempo e deixam de existir após as primeiras demos ou tendo lançado no máximo um álbum. Outras várias são “one-man band”. Ainda assim, shows com a presença de bandas locais e de países vizinhos como Rússia, Quirguistão e até mesmo da Ucrânia já acontecem por lá, dentre os quais se destaca o festival Hellmaty Metal Fest, em Almaty.

Conheçamos, pois, algumas bandas oriundas do Cazaquistão:

ACCENT (АКЦЕНТ)

A banda mencionada no parágrafo anterior. Tida como a primeira banda de Metal do Cazaquistão, o Accent foi fundado em 1986 na cidade de Almaty pelos irmãos Oleg e Vladimir Tarnovsky, na época em que o país ainda era subordinado a URSS com o nome República Socialista Soviética Cazaque. O Accent é uma banda de comportamento sazonal e isso se reflete na regularidade de sua discografia, na qual consta somente um full-lenght, Gorod (Город), lançado em 1995 e relançado em 2001 sob o título 20.01. Um cover para Under Jolly Roger, do Running Wild, existia na versão original deste álbum com o nome Vesoliy rodzher (Весолий роджер), mas ele não está presente no relançamento do mesmo, disponível no Bandcamp. O som do Accent trafega sem nenhuma cerimônia de um Hard Rock mais acessível até um Heavy Metal pesado com influências de Thrash.

Coincidentemente, durante a edição desta matéria, que aconteceu de ontem para hoje, a versão original do álbum Gorod foi disponibilizada no YouTube. Ainda bem, pois este escrivão não estava conseguindo encontrar material da banda tão facilmente. Rezemos ações de graças ao presidente Nursultan por esta benção.

HOLY DRAGONS

Se o Accent deu o pontapé inicial no Metal cazaque, o Holy Dragons fez o primeiro gol e até hoje se destaca como o principal jogador. O nome da banda não nos engana; o Holy Dragons é uma banda de Heavy Metal com fortes inclinações à era oitentista do estilo e também ao Power Metal. Liderada desde sempre pelo casal de guitarristas Chris “Thorheim” Caine (que acumula atualmente o posto de vocalista) e Jurgen Thunderson, a formação atual da banda conta com o baixista Ivan Manchenko e com o baterista Anton Repablo. A banda passou por uma época bastante prolífica nos anos 2000, chegando a lançar dois álbuns no mesmo ano em vários anos. Não à toa sua discografia hoje ostenta consideráveis 18 álbuns de estúdio, dos quais o mais recente é Unholy And Saints, de 2019.

No clipe abaixo, a voz foi gravada pelo ex-vocalista Alexander Kuligin.

ULYTAU

O Ulytau é um grupo bastante exótico e conhecido no Cazaquistão. Misturando música folclórica local, música clássica e Heavy Metal, o Ulytau se tornou um nome bastante popular naquele país. As composições do grupo giram em torno do violino de Alua Makanova, da dombra de Erjan Alibentov e da guitarra de Maxim Kishigin. A dombra é um instrumento típico do Cazaquistão composto de um longo corpo acústico e de duas cordas. A música do Ulytau (que significa “grandes montanhas” em cazaque, mas que também é o nome do distrito localizado no centro do país cuja história afirma que foi onde o Canato Casaque surgiu) bebe de influências da música clássica e das tradições locais, com referências que vão de Nicollo Paganini até Kurmangazy Sagyrbaev, um importante músico local do século XIX.

Ouçam esta maravilha de música!

ZARRAZA

Saindo do “Cazaque-Folk” do Ulytau, vamos conhecer agora um representante do Thrash/Groove Metal de Almaty, o Zarraza. O som do quarteto formado por Nick “toRRnado” Khalabuzar (vocais, guitarras), Dan Eternal (guitarras), Adil Aliakpar (contrabaixo) e Ruslan Konon (bateria) tem influências principalmente de Sepultura, mas elementos de Nevermore e de Slayer também podem ser notadas. O grupo rapidamente conquistou o posto de uma das principais bandas da Ásia Central e já abriu apresentações do próprio Sepultura, além de Rotting Christ, Ektomorf, Tyr e Arkona. O peso e a agressividade do Zarraza são destruidores!

O clipe abaixo foi gravado a quase 4000 m de altitude nas montanhas que circundam a cidade de Almaty.

DOUBLEFACE

Vamos passear um pouco pelo interior do Cazaquistão agora. Vamos para o oeste do país, mais precisamente para a cidade de Atyrau, capital da província de mesmo nome que é banhada pelo Mar Cáspio (“Ué, mas você não disse lá em cima que o Cazaquistão não era banhado pelo mar?” E não é mesmo. O Mar Cáspio é na verdade um lago gigantesco). Lá, existiu uma ótima banda de Technical Thrash/Death Metal chamada Doubleface. A banda existiu entre os anos de 2006 e 2015 e só lançou um único full-length, Falls And Decline, em 2012. O som da banda deve agradar bastante aos fãs da fase Prog do Death, pois os cazaques de Atyrau se mostraram exímios alunos de Chuck Schuldiner neste registro. Toda a técnica e conhecimento musical dos integrantes era colocada em ação através de arranjos técnicos, timbres agressivos e ritmos ora rápidos, ora cadenciados. É uma pena que a banda tenha encerrado suas atividades.

SEVEN SINS

Do Oeste, vamos cruzar todo o Cazaquistão até a cidade de Oskemen (ou Ust-Kamenogorsk, já que os dois nomes são aceitos oficialmente pela cidade), a pouco mais de 300 Km da localidade chinesa mais próxima. Está é a cidade do Seven Sins, uma interessante banda de Metal extremo que transita entre o Black sinfônico e o Death Metal. Com 12 anos de existência, o Seven Sins possui em sua discografia três álbuns de estúdio, sendo que o mais recente, Legends Of Kazakhstan, foi lançado no último dia 19 de abril. Nos últimos anos a banda dispensou a necessidade de um baixista e de um tecladista, o que tornou o som do grupo mais cru e direto, próximo ao que faz o Watain, e sem os belos e grandiosos arranjos sinfônicos “dimmuborgianos” dos primeiros registros. Mas isso não significa que o Seven Sins perdeu qualidade. Escolha sua versão favorita da banda e aproveite!

Basta. Por hoje é suficiente. Como este redator mencionou mais acima neste artigo, alguns países vizinhos ao Cazaquistão, como o Quirguistão, por exemplo, também possuem cena Heavy Metal. Em breve então, voltaremos a esta região do mundo para saber o que mais de interessante vive por aqui. Semana que vem, a intrépida redatora Jéssica Alves assume o comando desta aeronave para nos levar a algum outro país por onde nem passa pela sua cabeça que exista Heavy Metal. Келесі аптаға дейін!

A futurística capital Asta… ops! Nursultan!

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